digitação original: 09/03/1996

Prelúdio Getuliano em Petrópolis

Francisco de Vasconcellos

O novo hóspede do Palácio Rio Negro durante o verão de 1931 seria Júlio Prestes, se o movimento revolucionário 3 de Outubro  de 1930 não tivesse triunfado, levando Getúlio Vargas à chefia do governo provisório da Nova República.

Enfim, Vargas no Catete, organização do Ministério, acertos múltiplos, apaziguamento de alguns arraiais insatisfeitos com a partilha dos quinhões do poder. Boataria. Incertezas.

Vem janeiro de 1931. Petrópolis se inquieta ante a perspectiva de não ter o primeiro mandatário da Nação no comando da saison, como era tradicional na vida da cidade, de Pedro II a Washington Luiz, com pequenos lapsos nos tempos duros de Deodoro e Floriano.

A 9 de janeiro, o prefeito Yeddo Fiuza foi ao Catete, para levar a Getúlio a mensagem da Liga do Comércio de Petrópolis, clamando pela presença do Presidente nestas serras, ainda que fosse por pequeno período.

A Tribuna de Petrópolis de 18 de janeiro, trazia na íntegra, em nota de primeira página, o resultado da diligência de que se encarregara Fiuza. Eis o texto:

“Cabe-me informar à Liga do Comércio, que no dia nove do corrente, cumprindo a missão que me foi dada, fui pessoalmente entregar ao Exmo. Sr. Dr. Getúlio Vargas a mensagem que por intermédio do da classe comercial, a população de Petrópolis fez ao Exmo. Sr. Presidente do Governo Provisório, para que sua estação de repouso fosse feita nesta encantadora e hospitaleira cidade.

Recebido no Palácio Guanabara por S. Excia. e depois de fazer-lhe o apelo em nome da população e em nome do governo da cidade, mostrando-lhe a honra e o entusiasmo com que o povo petropolitano o receberá, S. Excia. respondeu-me que recebia o apelo com grande satisfação e provavelmente em fevereiro, depois de resolver as questões relativas ao orçamento e após seu regresso de Minas , virá fazer sua estação de repouso em Petrópolis. Atenciosas saudações. Yeddo Fiuza – Prefeito.”

Esse encontro não ficou consignado no “Diário de Getúlio Vargas”, agora (1995) trazido a lume, em dois grossos volumes pela Siciliano/FGV. Está à pág. 41 do 1º volume, no que concerne aos dias 3 a 9 de janeiro de 1931:

“Esqueci-me de tomar notas. Várias coisas importantes ocorreram, que não guardo na memória para relatar.” Falou do câmbio, do Banco do Brasil, da liquidação do Banco Pelotense, mas nada disse sobre a visita que lhe fizera Yeddo Fiuza.

Em contra partida, há um fato que passou inteiramente desapercebido da imprensa petropolitana e que representa o primeiro contato de Getúlio com Petrópolis, na qualidade de chefe de Governo e que no entanto está registrado à pág. 44 do 1º volume do Diário, referente a 18 de janeiro de 1931, domingo. Vejamos o texto:

“Pela manhã despachei volumoso expediente. À tarde, em companhia do Ministro do Exterior e famílias, visitei Petrópolis, tomamos um chá no Hotel Independência e fomos ver o Palácio Rio Negro. Temperatura agradável, quase fria.

À noite, após a ceia, fui visitar Oswaldo Aranha que perdera uma irmã, Luisila Varnieri, falecida em Porto Alegre.”

No dia seguinte, 19 de janeiro, segundo o Diário, explodiria uma revolução comunista. Foram feitas várias prisões, entre elas a de dois irmãos de Maurício de Lacerda, pai de Carlos Lacerda, que 24 anos depois provocaria a queda de Vargas e o seu suicídio.

O prometido repouso aqui, já em fevereiro, não veio a furo. Getúlio embarcou para Belo Horizonte e de lá tomou o rumo de São Lourenço, onde fez pequena estação, hospedado no Hotel Brasil, e, excursões por Lambarí, Cambuquira e Caxambu.

A 15 de março, deixou São Lourenço, viajando até Cruzeiro e daí a Entre Rios ( Três Rios, de hoje ), onde fazendo transbordo para um trem da Leopoldina, iniciou a parte final de sua estafante jornada, tendo como destino Petrópolis.

No seu Diário, à pág. 52, está o seguinte:

“Despedidas de São Lourenço, sessão de cinema com exibição de fita de viagem, plantio de árvore no parque, discursos, lembranças, acompanhamento de veranistas à estação.

Partida às 20 horas ( de 15 de março ), linha da estrada Sul de Minas até Cruzeiro, Central de Cruzeiro a Entre Rios, Leopoldina, de Entre Rios a Petrópolis. Chegada às 10 horas ( de 16 de março ) – manifestações, discursos, flores, etc...

Almoço com os membros das Casas Civil e Militar. À tarde recebo as visitas de Oswaldo Aranha, Góes Monteiro, Juarez Távora e João Alberto. Discutem-se vários assuntos de interesses do Norte e principalmente a questão militar: os tenentes que fizeram a revolução contra os oficiais superiores, a atitude do Ministro da Guerra, a entrada do general Tasso Fragoso para a chefia do Estado Maior, a função que deve ser atribuída ao Coronel Goes Monteiro, o compromisso do Exército e da Armada. Assentados os pontos principais, fica designada uma comissão composta de Aranha e Távora para entender-se com o Ministro da Guerra.”

Enfim, justo num 16 de março, Getúlio Vargas iniciava oficialmente seu feliz casamento com Petrópolis, feliz e duradouro, pois nunca deixou de assinar o ponto nestas serras por todo o período em que esteve no poder, de 1931 a 1945 e de 1951 a 1954.

 O que se lastima é o tom glacial e hermético de seu Diário. O que fazer, o homem não era de expansões, de sensibilidades, de juízos extrovertidos sobre homens, circunstâncias , fatos, lugares. Mas no íntimo conhecia tudo isso muito bem e sabia com ninguém lidar com o mundo que o cercava. Esse muito observar e pouco dizer, foi uma das molas mestras do seu sucesso político.

Fica aqui esse prelúdio getuliano em Petrópolis. O aparecimento do “Diário de Getúlio Vargas” em 1995, leva-me a fazer um trabalho comparativo entre o que ele diz e o que consegui alinhavar no ensaio “Getúlio Vargas em Petrópolis”, inserido no volume “Três Ensaios sobre Petrópolis”, obra de 1984. Penso que o resultado deste cotejo, sem a dispensa de novas pesquisas nos órgãos de imprensa e na documentação disponível, será bastante proveitoso para um melhor conhecimento de Vargas, no plano nacional e na moldura petropolitana.

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