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12/02/2008
Texto integral. Imagens acrescentadas.

Anais do Museu Histórico Nacional
n.º 40 – 2008
publicado com omissões, independentes da vontade do autor.

A Imperatriz Dona Leopoldina - Sua presença nos Jornais de Viena e a sua renúncia à coroa imperial da Áustria - (parte 2/3) (Parte 1/3, 3/3)

Dom Carlos Tasso de Saxe-Coburgo e Bragança

Como suas irmãs, Leopoldina foi educada por aias e recebeu depois uma preceptora na pessoa da Condessa Lazansky. Esta escolhia os professores, que cuidavam da formação, moral, humanística, científica e artística (8) da jovem.


Arquiduquesa Leopoldina
(Miniatura de Isabey. Palácio Imperial, Viena)

                                             

                         Desenho da Arquiduquesa Leopoldina, 1808.                                         Desenho da Arquiduquesa Leopoldina, sem data

                                                                                    (Biblioteca Nacional, Viena)

(8) Ver – Bragança, D.Carlos Tasso de Saxe-Coburgo e  “A formação artística da Imperatriz Dona Leopoldina” – Rev. do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, vol. XV.
 


A infância e primeira juventude de Leopoldina não correu pacificamente. Napoleão fazia estremecer as antigas instituições do velho continente. Batalhas ferozes abalavam o Império e a Corte; teve que deixar Viena, ocupada em seguida pelos franceses. Somente o Imperador era objeto da imprensa, não mais Leopoldina, e mais tarde, Maria Luisa, dada em troca de paz ao grande e odiado inimigo.

O Congresso de Viena foi um outro grande momento na vida de Leopoldina. Metternich dominava a cena e a juventude imperial era mantida na penumbra, quase como munição de reserva para algum eventual tratado e aliança matrimonial.

Portugal era pequeno demais para poder sentar na mesa das tratativas do grande Congresso que decidiu o futuro da Europa.

Com grande habilidade Dom João VI criou o Reino Unido e assim os diplomatas portugueses, chegados em Viena, se libertaram da humilhação de terem que ficar diante da porta do salão, no qual se reuniram as grandes potências.

Portugal, territorialmente, graças ao Brasil, tinha ficado realmente um dos maiores países participantes do histórico Congresso.

Dom João com medo do liberalismo procurou apoios e nada melhor seria do que uma aliança com a Casa da Áustria. De duas ligações matrimoniais Dom João cogitou, também para afastar a crescente influência inglesa e robustecer o Brasil contra os movimentos jacobinistas e radicais. Portanto o ideal seria um duplo casamento entre seus filhos Pedro e Isabel Maria com filhos do Imperador Francisco I.

Este plano já era desejado há vários anos. Dom João bem aconselhado e dentro de sua astúcia inata, aproveitou a ocasião para sondar Metternich. Navarro de Andrade (9) apresentou a proposta de maneira muito convincente. Metternich recusou o oferecimento de Dona Isabel Maria, dizendo que para o Arquiduque Herdeiro Ferdinando já existia um plano matrimonial, mas se mostrou muito favorável à união com o Príncipe Herdeiro Dom Pedro.

(9) Villa Secca ( Rodrigo Navarro de Andrade, Barão de - ) Antigo oficial da Repartição dos Negócios Estrangeiros em Lisboa, desempenhava as funções de Encarregado de Negócios de Portugal em São-Petersburgo, em 1808, quando se deu a transmigração da Família de Bragança para o Brasil. Continuou na diplomacia, servindo a Portugal e ao Brasil, removido para a Sardenha, na mesma categoria de Encarregado de Negócios, em 1813, elevado, afinal, a Ministro Plenipotenciário em Viena d’Áustria, em 1817. ( Argeu Guimarães - Diccionário Bio Bibliográfico Brasileiro, - Rio de Janeiro, 1938. Ed. Do Autor .)

 


Certamente se lembrou que os Habsburgos já haviam reinado sobre o Brasil no tempo dos Filipes da Espanha. A escolhida seria Leopoldina. Ao Imperador Francisco não agradou, no começo, ver partir a filha para um pais longínquo e ainda muito instável. Assim mesmo o “bom Papá” chamou Leopoldina, que era a mais “madura” para ser casada, e a sondou sobre o projeto, encontrando eco favorável. No entanto tinha-se estabelecido uma correspondência entre as duas Cortes. Já em 10 de janeiro de 1817 Dom João escrevia a Francisco I externando a sua viva satisfação, que provou ao receber os despachos de Navarro de Andrade, com a notícia que o Imperador tinha dado prova de amizade aceitando a proposta de casamento. Também agradecia igualmente à futura nora por anuir à oferta e pela sua decisão de enfrentar uma tão longa viagem.


Dom Pedro por sua vez envia uma missiva à futura esposa dizendo entre outras coisas: “…Estou feliz em poder assegurar a V.A.I. que ela encontrará sempre os sentimentos dignos de Sua Augusta Pessoa e de Suas excelentes qualidades…” ( Casamentos Imperiais, Arq. Nac., Viena )

Seguiu-se uma troca de condecorações. Francisco I recebeu a Banda das Três Ordens e a Imperatriz a de Santa Isabel. Dom João VI foi agraciado com três Ordens Austríacas, as de Leopoldo, Sto. Estêvão e a da Coroa de Ferro. Carlota Joaquina recebeu a Ordem da Cruz Estrelada, com a qual, no futuro, se fará sempre retratar.

Com a chegada do brilhante Embaixador da família do noivo, o Marques de Marialva (10), a jovem Arquiduquesa ficou encantada. Ela já se havia preparado, estudando e indagando sobre o Brasil e a Família Real Portuguesa. Tudo lhe pareceu extremamente interessante e tentador. As informações de Marialva, tão alentadoras, acompanhadas pelo rico e lindo retrato de Dom Pedro, fortaleceram a sua decisão. O retrato do noivo pois a entusiasmou tanto, que ela escreveu a irmã Maria Luísa: “ O retrato do Príncipe quase me enlouquece …é tão bonito como Adonis”. ( Carta de 15 de abril de 1817,
Karl & Faber, Versteigerung, Auktion 63, München, 29/30 de abril de 1958 – Cartas de Dona Leopoldina, p.104-112).

(10) Marialva (Dom Pedro José Joaquim Vito de Menezes Coutinho, Conde de Cantanhede, sexto Marquês de - ) Diplomata, pertencente a uma das mais antigas famílias de Portugal, prestou serviços ao Brasil por ocasião da transferência da sede da monarquia para o Rio de Janeiro. Embaixador extraordinário em missão especial em Paris (1814), no mesmo ano passou a São Petersburgo. Ainda depois de criado o Reino Unido de Portugal e Brasil, foi, em 1816, como embaixador em missão especial a Viena d’Áustria. Competiu-lhe assinar com o Príncipe de Metternich o tratado para o casamento do futuro Pedro I com a Arquiduqueza Carolina-Josepha-Leopoldina. O Marquês teve também o seu nome ligado ao contrato da missão artística francesa de 1816, que veio, por iniciativa do Conde da Barca, fundar no Rio a Escola de Belas-Artes. Extinguiu-se em Paris, o Marquês de Marialva, como embaixador de João VI junto a Luiz XVIII. ( Argeu Guimarães -  Diccionário Bio Bibliográfico Brasileiro, - Rio de Janeiro, 1938. Ed. Do Autor .)
 


Tudo estava correndo a contento, lentamente como tudo naquele tempo, seja para Dom João VI, Francisco I e Metternich. Dona Leopoldina, no entanto fazia preparar o enxoval. Com a família ia passar períodos no Castelo de Laxenburg e na linda cidadezinha de Baden a uns 20km de Viena.

A chancelaria estava ocupada preparando o pacto nupcial. Este foi laborioso. Várias reuniões foram necessárias até chegar ao texto definitivo. De um lado presentes o Chanceler, Príncipe de Metternich e o Príncipe de Trauttmansdorff e na posição oposta encontramos o Embaixador Extraordinário Marialva, certamente acompanhado por Navarro de Andrade.

Apos repetidas discussões foi concluído e assinado, contendo doze artigos e dois anexos, no dia vinte e nove de novembro de 1816. A parte financeira foi a mais laboriosa. Estabeleceu-se uma dote de duzentos mil “Florins do Reno”, soma que na época devia ser notável. ( Arq. Nac. Viena )

Dom João VI, de sua parte, se comprometeu a pagar o mesmo importe como "contra-dote”, um verdadeiro sofrimento para o Rei, tão conservador em matéria de despesas. Visto que a disponibilidade de Dom João não era imediata, os Plenipotenciários de Francisco I, exigiram que a importância seria colocada sob forma de hipoteca sobre a totalidade das entradas públicas do Reino e sobre as propriedades da Coroa. Para as propriedades exigiu-se uma lista das mesmas, que Dom João deveria expedir com o pacto matrimonial assinado. Cláusula humilhante. Não sabemos se a mesma foi colocada “in extremis” por Marialva , que não tinha a soma exigida, ou se o Rei realmente não dispunha no momento deste importe.

No Arquivo Imperial, conjuntamente com o contrato, não existe a relação dos bens que havia sido pedida. As demais cláusulas são aproximadamente aquelas usadas nas Cortes em contratos similares.

Logo após a assinatura, toda a documentação seguiu para o Rio, e no dia 5 de abril de 1817 o Rei e o jovem noivo assinaram o pacto. Faltava ainda uma dispensa papal em virtude do parentesco dos nubentes. Com a chegada da mesma, trazida possivelmente pelo Núncio Apostólico, Arcebispo Paolo Leardi, mais um passo em direção das bodas estava realizado.

Em 22 de fevereiro de 1817 o “Wiener Zeitung” publicou um longo artigo sobre o ingresso oficial de Marialva e da Embaixada Portuguesa em Viena. Começa com uma longa reportagem sobre o Brasil, louvando o país, de autoria de um certo A. Stein.

No mesmo Jornal também encontramos, de autoria de John Mawe, uma descrição de uma viagem pelo interior e as minas de ouro de Minas Gerais.

Relata-se em fim a pompa do ingresso de Marialva e a riqueza das equipagens, coisa nunca vista por parte de um Embaixador.

Marialva se instalou num faustoso Palacete na praça dos Minoritas, dando faustosas recepções e banquetes à Alta Nobreza Vienense.

Os dias corriam. O casamento por procuração se aproximava. Um casamento realizado nestas condições, sem os noivos se terem vistos, devia ter sido sem aquele calor, alegria e emoção de um normal enlace. Um ato puramente burocrático.

Todavia será um casamento contrariamente a muitos matrimônios hodiernos, pregado por profunda religiosidade por parte da esposa. Dona Leopoldina via, antes de mais nada, o cumprimento de um Sacramento.

Nos dias que passavam devia pesar sobre a “brasileira”, como a chamavam os irmãos, a grande incógnita de uma viagem a um longínquo país, onde ia encontrar um esposo totalmente desconhecido.

As formalidades para a realização de um matrimônio de uma Arquiduquesa eram sempre ligadas a várias praxes. Entre estas estava, no caso de um casamento com um Príncipe de outra dinastia, o “Ato de Renúncia” (11).

(11) O Ato de renúncia encontra-se no Arquivo da Corte e consta de um tomo encadernado com todas as cláusulas do contrato.

 


Assim sendo Dona Leopoldina, segundo o “Österreichischer Beobachter” do dia 16 de maio, praticou este ato formal já no dia 11 daquele mês. Lentas corriam as notícias naquele tempo, mesmo dentro da cidade.

“Domingo dia 11 deste mês, às doze e meia, se realizou o Ato de Renúncia por parte de Sua Alteza Imperial a Sereníssima Senhora Arquiduquesa Leopoldina. Presenciaram o ato todos os chefes das diversas repartições da Corte, os Ministros, todos os Altos Dignitários, Conselheiros Secretos, o Príncipe Arcebispo local e o Embaixador de Portugal. O ato se realizou na Aula Secreta do Conselho.”

Este solene Ato de Renúncia, Dona Leopoldina o teve que jurar na presença do Imperador “diante de Deus e sobre sua Honra” apondo a mão sobre os Evangelhos, por si e todos os eventuais descendentes, masculinos ou femininos.

Vista a importância do ato, o mesmo é redigido em latim e abrange 12 folhas.

Ela renuncia à sucessão dinástica segundo as disposições emanadas pelos Imperadores Ferdinando II e Leopoldo I, assim como aquelas decretadas pelo Imperador Carlos VI em 19 de abril de 1713.

Esta última disposição entrou na história como a “Sanção Pragmática”. A renúncia abrange também toda e qualquer herança que possa advir-lhe por parte dos pais, abrangendo imóveis, móveis ou bens de qualquer outra natureza.

O documento se encerra com a assinatura e a aplicação do sinete de Dona Leopoldina.

Firmam em seguida, como testemunhas, cinquenta e um Altos Dignitários, encabeçados pelo Marquês de Marialva. O ato é autenticado pelo Tabelião Público José de Hodelist. Também este ato é feito em nome de Carolina Josepha Leopoldina a qual, curiosamente, assina Maria Leopoldina.

Assinatura de Dona Leopoldina "Maria Leopoldina", no auto de renúncia à Coroa Imperial da Áustria.
(Arquivo Imperial, Viena)

Terminando o ato realizou-se um almoço familiar e em seguida, segundo a “Allgemeine Zeitung”, de 22 de maio: “Sua Majestade realizou, como costumava fazer, um passeio no Prater, em carruagem aberta com a sua querida filha a Arquiduquesa Leopoldina, a qual em breve será arrancada ao seu coração paterno.”

Bem podemos imaginar a alegria da jovem Arquiduquesa tão ligada ao pai, que muitas vezes a levava consigo em excursões, em caçadas e na linda estação termal de Baden, perto de Viena, em realizar esta excursão.

À Maria Luísa ela escreveu após um desses passeios: “Não sou capaz de dizer a você, minha boa irmã, quão feliz estava ontem, passeando de coche com o bom papá . Disse tantas coisas paternais e cheias de amor que ainda hoje estou intimamente comovida. Quem não se deve julgar sumamente feliz por possuir um pai desse quilate?” ( carta, 27 de agosto de 1816,
Karl & Faber, Versteigerung, Auktion 63, München, 29/30 de abril de 1958 – Cartas de Dona Leopoldina)

“Sua Majestade a Imperatriz seguia numa carruagem maior em companhia de S.A.R. a Princesa Herdeira da Baviera, do Arquiduque Francisco, futuro pai do Imperador Francisco José, e do jovem Príncipe de Parma ( provavelmente o Duque de Reichstadt).”

Notamos nestes breves trechos como a partida da filha devia ter emocionado e entristecido Francisco I .

À noite ainda se realizou um espetáculo no “Kärntner Theater”, onde toda a família foi delirantemente ovacionada.

Dia 13 de maio de 1817 foi o dia das bodas: “Todos os membros da Corte Imperial se haviam reunido, em grande gala, às sete horas da tarde no Palácio".

O Embaixador Marialva seguiu para ir buscar o Arquiduque Carlos (12) procurador do noivo.

(12) O Arquiduque Carlos nasceu em Florença em 5 de setembro de 1771, terceiro filho do Imperador Leopoldo II e da Princesa Maria Ludovica da Espanha. Ocupou importantes funções militares. Como Feldmarechal do exército austríaco, derrotou Napoleão na batalha de Aspern em 21 e 22 de maio de 1809. Foi um dos mais proeminentes membros da Casa da Áustria. Reorganizou o exército, fundou o Jornal das Forças Armadas. Deixou importantes publicações de estratégia militar. Bom administrador e modernizador de suas vastas propriedades na Bohemia, Hungria, Galícia e Áustria, herdadas dos seus pais adotivos o Príncipe Alberto de Saxe-Teschen e Arquiduquesa Maria Christina da Áustria. Casou em 17 de setembro de 1815 com a Princesa Henriqueta de Nassau-Weilburg (1797-1829) de religião protestante. Teve quatro filhos e duas filhas. A filha mais velha, Maria Theresia, casou em 9 de janeiro de 1837 com o rei Ferdinando II, das Duas Sicílias, irmão da Imperatriz Theresa Christina do Brasil. Sua neta, Maria Christina da Áustria (1858-1929) foi Rainha da Espanha tendo casado em 1879 com o Rei Afonso XII. Profundamente religioso, interveio em favor de muitos presos políticos italianos, os chamados “carbonari”. Faleceu em Viena em 30 de abril de 1847, estando sepultado na Cripta dos Capuchinhos.

 


O solene cortejo se colocou em movimento, atravessando salões e corredores da Hofburg, até alcançar a Igreja do Palácio, a de Santo Agostinho (13).

(13) Sto. Agostinho é a Igreja do Palácio Imperial e ao mesmo coligada. O Rei Frederico o Belo presenteou em 1327 os Agostinianos Eremitas com um terreno para a ereção de uma Igreja e Convento. Em 1349 foi consagrada. Em 1630 o Imperador Ferdinando II concedeu a Igreja e o Convento aos Agostinianos Descalços, e foi restaurada em estilo gótico no século XVII. O Templo servia a Casa Imperial como Capela da Corte para todas as festividades e ponto de partida para as procissões. Em 1783 o Templo, permanecendo em sua funções, foi elevado a Igreja Paroquial de Viena. Com a grande reforma do Imperador José II o Convento foi expropriado e destinado a diversas finalidades, como Biblioteca da Corte, para a Colecção Grafica “Albertina” e um Centro de Estudo para Sacerdotes de toda a Monarquia. Na Igreja casaram entre outros Maria Luisa e Napoleão (por procuração), o Imperador Francisco José I com Elisabeta da Baviera, o Arquiduque Rodolfo com a Princesa Estefânia da Bélgica. Em 30 de maio de 1894 o Príncipe brasileiro Dom Augusto de Saxe-Coburgo e Bragança casou, também na mesma, com a Arquiduquesa Carolina.

 


Em primeiro lugar vinham todos os Dignitários, seguidos pelos irmãos do Imperador, as Arquiduquesas, a Arquiduquesa Duquesa d’Este, que havia vindo especialmente de Budapest e o Príncipe Herdeiro Arquiduque Ferdinando.

O cortejo continuava com o Arquiduque Carlos, tendo ao lado o Embaixador de Portugal e do Brasil, Marquês de Marialva.

Acompanhado pelos Capitães da Guarda Imperial os Príncipes Esterhazy e Lobkovicz vinha o Imperador. Sua Majestade a Imperatriz em hábito de grande gala seguia, segurando pela mão a Sereníssima Esposa. Esta trazia uma tiara e o retrato do esposo, rodeado de brilhantes no peito. Seu hábito era enfeitado com brilhantes. ( Allgemeine Zeitung, 22 de maio de 1817).

Na porta da Igreja os Imperadores e a Corte foram recebidos pelo Príncipe Arcebispo (14) e pelos altos Dignitários Eclesiásticos e conduzidos para o altar-mor, onde o Arcebispo celebrou o casamento.


Príncipe Arcebispo
Sigismundo Antonio von Hohenwart.
(Cúria Metropolitana, Viena)

(14) O Príncipe Arcebispo que realizou o casamento, por procuração, de Dona Leopoldina com o Príncipe Dom Pedro, foi Sigismundo Antonio von Hohenwart. Nascido em Gerlachstein, na Craina em 2 de maio de 1730 e falecido em Viena em 30 de junho 1820. Filho dos Condes de Hohenwart. Entrou em 1746 na Ordem dos Jesuítas e estudou Teologia em Graz, formando-se em 1758. Foi Prof. em Trieste e Laibach. Em 1759 foi ordenado Sacerdote. Após uma passagem pela Academia Teresiana de Viena, foi enviado a Florença para ser Professor do Arquiduque Francisco (posteriormente Francisco II. e I.) e de seus irmãos. Em 1792 foi nomeado Bispo de Trieste e em 1794 Bispo de St. Pölten, perto de Viena. Em 29 de abril 1803 o seu aluno, o Imperador Francisco II, o nomeou Príncipe Arcebispo de Viena, recebendo a confirmação papal a 20 de junho do mesmo ano. Foi um adversário de Napoleão. Contrariado, celebrou na Igreja de Sto. Agostinho em 11 de março 1810 o casamento da Arquiduquesa Maria Luísa com Napoleão, que se fazia representar pelo Arquiduque Carlos. É um dos três Arcebispos de Viena que não receberam o chapéu cardinalício. Faleceu em Viena dia 30 de junho de 1820. Uma coincidência curiosa é que Dona Leopoldina e D. Pedro terem sido casados pelo mesmo celebrante que uniu a Arquiduquesa Maria Luísa a Napoleão.

 


Grande devia ter sido o recolhimento da noiva e a emoção da família naqueles instantes. Após a cerimônia núpcial Suas Majestades e a nova Princesa Herdeira regressaram, sempre em cortejo para o Palácio, onde foram cumprimentados e felicitados pelo evento. Seguiu-se um banquete nupcial para toda a Família Imperial. Durante o mesmo a orquestra da Corte tocou melodias e diversas marchas. “

A noiva reportou em seguida a irmã Maria Luísa que : “a cerimónia de ontem me fatigou demais, porque usei um vestido terrivelmente pesado e (um) adorno na cabeça, porém o bom Deus me deu a força espiritual suficiente para suportar com firmeza todo aquele comovente ato sagrado.” (carta, 14 de Maio de 1817,
Karl & Faber, Versteigerung, Auktion 63, München, 29/30 de abril de 1958 – Cartas de Dona Leopoldina)

O Imperador conferiu e entregou pessoalmente a Marialva a Grã-Cruz da Ordem de Santo Estevão da Hungria, assim como as de Comendador ao Encarregado de Negócios, Navarro de Andrade.

Grande era por toda parte o entusiasmo. Os jornais publicaram poesias alusivas ao evento, em particular o Dr. Aloys Weissenbach. Uma pequena rubrica assinada por Correa da Silva nos conta: “Inveja não se deve ter dos Reis ou Príncipes, mas somente do homem que casou com Leopoldina.” ( Allgemeine Zeitung, 22 de maio de 1817 )

Por ocasião das bodas houve uma nova troca de cartas entre as duas Casas Reais. Dona Leopoldina escreve a Dom Pedro participando a realização do casamento “…le plus beau jour de ma vie …” ( Casamentos Imperiais, Arq. Nac. Viena. )

Francisco I escreve ao genro uma longa carta, na qual encontramos esta significativa frase : “… je suis bien certain, que ma fille fera tout ce que d’ependra d’elle pour vous plair, je me flatte, que Vous voudrez bien aussi de Votre côté contribuer à Son bonheur. Regardez-moi dès à présent comme un tendre Père… » ( casamentos Imperiais, Arq. Nac. Viena.)

Várias cartas cruzaram o mar entre os Reis e os Imperadores e também as do Arquiduque Carlos detentor da procuração para representar o noivo nas bodas.

A jovem Arquiduquesa era muito querida por todos pela sua amabilidade, delicadeza e espírito destemido.

A prova é que 24 senhoras da nobreza se ofereceram como Damas de companhia, 12 senhores como Camaristas e 4 jovens como pajens para acompanhá-la em sua nova terra. Muito poucos foram os escolhidos.

Francisco I, logo após o casamento enviou um mensageiro a Dom João VI, participando a realização do mesmo: “… celebrado ontem em Viena, diante da Igreja com a solenidade de costume… tendo sido um dos avenimentos mais felizes do meu reinado…”. ( Casamentos Imperiais, Arq. Nac. Viena. )

Foi o Conde Wrbna o encarregado dessa missão que chegou ao Rio em 18 de agosto.

Dom João respondeu “ … que será para ele um dever de pai de testemunhar toda ternura possível para a felicidade desta Princesa, de tão altas virtudes….”. ( Casamentos Imperiais , Arq. Nac. Viena.)

Marialva desejava, no entanto, tornar inesquecível em Viena o casamento. Era uma homenagem, que através dele, Dom João VI prestaria à Corte Austríaca.

Devia ser uma festa gigantesca e de um luxo nunca visto na austera Corte dos Habsburgos. Foi fixada para o dia 26 de maio, mas há meses já ferviam os preparativos. Poucos dias antes D. Leopoldina teve uma indisposição. Tudo estava pronto no “Augarten” (15), o grande parque da Capital.

(15) A história do Augarten começa entre 1612 e 1619. Uma “Aue” é uma várzea. Eram os prados ao longo do Danúbio. Foi zona de caça do Imperador Mathias que mandou erguer um pequeno pavilhão . O Imperador Ferdinando III acrescentou, cerca 1655, um jardim. Assim com o subseguir-se dos Imperadores o jardim ( = Garten ) na várzea ( = Au ) ficou com o nome Augarten. Foi construído em seguida um pequeno castelo, a “Favorita” . Em 1683 com a invasão dos Turcos este foi destruído e o jardim devastado. Em 1705 o Imperador José I o fez reconstruir juntamente com o jardim. Na “Favorita” foi construído um grande salão, no qual se realizavam matinês, que durante um certo período, eram dirigidos pessoalmente por Mozart. Em 1712 o Imperador Carlos VI encarregou o famoso paisagista Jean Trehet, de transformar o vergel num jardim à francesa.Trehet havia já projetado os jardins de Schönbrunn e do Belvedere. Surgiram amplas alamedas que convergiram para uma praça central em forma de estrela. Ao castelo barroco, a “Favorita”, renovado por José I, Marialva mandou acrescentar umas construções de madeira para aumentar a capacidade do mesmo. Foi o grande momento do “Augarten” por ocasião do casamento de Dona Leopoldina. Depois de 1820 realizaram-se no Castelo os concertos do Primeiro de Maio. Em 1830 todo o parque e o Castelo foram inundados por uma enchente do Danúbio. Posteriormente o Castelo foi destinado à celebre Cerâmica do “Augarten”, existente até aos nossos dias. O famoso parque sofreu imensamente na 2ª Guerra Mundial com a instalação pelos nazistas de colossais torres em cimento para as baterias antiaéreas. Os russos em seguida, com pesados carros armados, o devastaram totalmente. Hoje está restabelecido. Em uma construção a beira do “Augarten” estão instalados os famosos “Meninos Cantores de Viena”.

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