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12/02/2008
Texto integral. Imagens acrescentadas.

Anais do Museu Histórico Nacional
n.º 40 – 2008
publicado com omissões, independentes da vontade do autor.

A Imperatriz Dona Leopoldina - Sua presença nos Jornais de Viena e a sua renúncia à coroa imperial da Áustria - (Parte 1/3) (Parte 2/3, 3/3)

Dom Carlos Tasso de Saxe-Coburgo e Bragança

Sobre a nossa primeira Imperatriz amiúde se escreveu, grande parte de sua enorme correspondência foi publicada. Sua atuação política foi analisada. A importância da mesma em nossa Independência e a sua grande envergadura moral foi louvada.


Leopoldina, Arquiduquesa d´Áustria, Princesa real de Portugal, do Brasil e de Algarves, Duquesa de Bragança
(gravura de Artaria et Comp., Biblioteca Nacional, Viena)

A vida familiar, os interesses intelectuais, o amor pelo Brasil, as suas aspirações, alegrias e as suas grandes provações são conhecidas.

Mas como era vista pela imprensa a filha do Imperador Francisco II (1) na sua Viena?

(1) Francisco II, com o falecimento de seu pai, Leopoldo II, em 1792 Imperador do Sagrado Romano Império Germânico. Com a dissolução do Sagrado Império R.G. em 11 de abril de 1804 assumiu o titulo de Francisco I da Áustria. Nasceu em Florença em 12 de fevereiro de 1768 e faleceu em Viena em 2 de março de 1835. Foi casado 4 vezes:
1. com a Princesa Wilhelmine do Württemberg (1767-1790) em 6 de janeiro de 1788;
2. com a Princesa Maria Theresia de Bourbon das Duas Sicílias (1772-1807), em 19 de setembro de 1790;
3. com a Arquiduquesa Maria Ludovica da Áustria-Modena-Este (1787-1816), em 6 de janeiro de 1808;

4. com a Princesa Carolina Augusta da Baviera (1792-1873), em 10 de novembro de 1816.

 


No início era uma das tantas Arquiduquesas, que mais tarde ou mais cedo, deveriam fornecer um objeto para alianças políticas.

Leopoldina, todavia foi uma figura, que sobressaiu pelo seu casamento, fora do comum, pela expedição científica que a acompanhou no novo mundo, pela sua atuação política, por ser mãe do Imperador Dom Pedro II e de Dona Maria II e pelo seu prematuro fim.

Ainda hoje ela é estudada e admirada no Brasil e na Áustria.

Os jornais da época nos fornecem ainda detalhes, pequenos muitas vezes, mas que em parte, não foram considerados pelos historiadores.

A imprensa naquele tempo era singela, não realizavam reportagens ou entrevistas, como hoje é uma normalidade. Os acontecimentos, mesmo aqueles da Corte, eram tratados de maneira simples, podemos dizer, quase como nos “Diários Oficiais” dos nossos dias.

Apesar disso os diários são, sem duvida, ainda uma fonte preciosa, que nos permite seguir determinadas ocorrências, as quais de outra maneira se teriam perdido.

Dona Leopoldina aparece três vezes na imprensa de Viena. No nascimento e batizado, por ocasião das bodas, por ocasião da renúncia à Coroa da Áustria, e ao chegar a notícia do falecimento. Estas noticias merecem ser mencionadas.

O sol estava despontando no gélido dia 22 de janeiro de 1797. Eram as sete e trinta quando nascia na “Hofburg”, (Palácio Impérial no centro da cidade) uma robusta menina.

Soprava um vento glacial da “Puszta” a grande planície húngara. A cidade estava coberta de neve. Pouca gente na rua. Era domingo e na “vox populi” um nascimento dominical era um ótimo auspício para o futuro.

A recém-nascida Arquiduquesa era Leopoldina, a sexta filha do Imperador Francisco II e de sua segunda esposa, a Princesa Maria Theresa das Duas Sicílias (2).

(2) Maria Theresa Princesa de Bourbon das Duas Sicílias. Nasceu em Nápoles em 6 de junho de 1772 e faleceu em Viena em 13 de abril de 1807. Filha do Rei Ferdinando IV de Nápoles (1751-1825) e da Arquiduquesa Maria Carolina da Áustria (1752-1814). Ultima Imperatriz do Sagrado Império Romano Germânico.

 


Respirava-se um ar de alívio na Corte, pois um nascimento naquele tempo era ligado a não poucos riscos. Assim também o Batizado era realizado o mais depressa possível, para garantir ao recém-nascido, em caso de morte, de ser acolhido no “Limbo” ou no Céu. Grande era a mortalidade infantil.

Mesmo dos treze filhos do Imperador, seis faleceram após o nascimento, ou antes de atingir os dez anos de idade.

Assim ao anoitecer, às seis horas, realizou-se o Batizado. A Imperatriz, ainda convalescente, naturalmente não participou.

O Sacramento do Batismo não foi subministrado na Igreja da Corte, a de Santo Agostinho, mas na grande e sumptuosa antecâmara do Palácio.


Anotação no registro de atividades do Cardeal Arcebispo, efetuada em latim, relativa ao batizado da Arquiduquesa Leopoldina, Carolina, Josepha, realizado na antecâmara do Palácio, às seis horas da tarde do mesmo 22 de janeiro de 1797.
(Arquivo da Cúria Metropolitana, Viena)

Esta escolha foi feita certamente pelo grande frio reinante naquele período do ano, e as Igrejas naquele tempo não serem aquecidas. Não obstante ter sido uma cerimônia restrita, teve grande solenidade, como nos relata a “Wiener Zeitung” do dia 25 daquele mês.

“Para o Batizado se reuniu a Alta Nobreza, de ambos os sexos em grande Gala, na vasta antecâmara . Logo em seguida, precedido pelos Dignitários da Corte, dava entrada no salão, Sua Majestade o Imperador, acompanhado por cinco Arquiduques e cinco Arquiduquesas. Seguia o Primeiro Marechal da Corte, o Príncipe de Starhemberg, acompanhado por dois Camaristas Imperiais, os Príncipes de Schwarzenberg e de Ligne, carregando sobre uma almofada dourada a recém-nascida. Sua Majestade e Suas Altezas Imperiais dirigiram-se para os genuflexórios preparados para a ocasião.

Ao lado dos mesmos colocou-se, como de costume, o Núncio Papal (3), num oratório especialmente aprontado. O Primeiro Marechal da Corte se colocou com a recém-nascida Arquiduquesa diante do altar, que se encontrava debaixo de um baldaquim.

(3) Núncio Papal em Viena, Luigi Ruffo di Scilla, dos Príncipes de Scilla e Duques de Sta. Cristina, nasceu em Sto. Onofrio, Diocese de Mileto, em 25 de agosto de 1750. Em 1772, terminados os seus estudos, após entrar na Cúria, foi designado Presidente de Congregação e da Consulta. Após ter sido também Governador de Roma foi nomeado por Pio VI, em 11 de abril de 1785, Arcebispo Titular de Apamea e enviado como Núncio junto ao Grão Duque de Toscana. Teve que resolver diversos problemas com o Bispo de Pistoia, Scipione Ricci. Em 23 de agosto 1793 foi chamado como Núncio em Viena em substituição ao Cardeal Caprara. Ficou em Viena até 1802, tendo tido grandes problemas durante a ocupação francesa e por causa do espírito, ainda existente, das reformas feitas pelo Imperador José II. Tendo falecido Pio VI, foi incumbido de organizar o Conclave em Veneza em 1º de dezembro 1799. Participaram do mesmo 35 Cardeais, que em 14 de março 1800 elegeram Papa o beneditino Barnaba Chiaramonti, Bispo de Imola, que se chamou Pio VII. Foi nomeado em 23 de fevereiro 1801 Cardeal, com o Título de S. Martino ai Monti. No ano seguinte deixou Viena e em 9 de agosto 1802 foi nomeado Arcebispo de Nápoles. Recusou-se a prestar juramento ao novo Rei de Nápoles, Giuseppe Bonaparte e foi deportado para a França. Fazia parte do grupo dos chamados “Cardeais Negros” que se opuseram ao casamento de Napoleão com Maria Luisa da Áustria e renunciou participar do mesmo. Foi em consequência deportado para Fontainbleau, Grasse e Savona. Com a queda de Napoleão, voltou a sua diocese de Nápoles, após nove anos de ausência. Permaneceu na mesma até a sua morte em 17 de novembro de 1832.
 


O Cardeal Arcebispo (4), assistido por vários Bispos e Prelados, celebrou o Batizado.


Príncipe Arcebispo de Viena, Cardeal Migazzi.
(Cúria Metropolitana, Viena)

(4) O Cardeal Cristovão Antonio Migazzi era o Príncipe Arcebispo de Viena. Nasceu na cidade de Trento, no Tirol italiano, filho dos Condes Migazzi, de antiga nobreza trentina, em 20 de outubro de 1714. Cedo mostrou vocação religiosa e foi enviado para Roma no “Collegium Germanicum”. Ordenado sacerdote em 7 de abril 1735, trabalhou na “Sacra Rota”, o Tribunal Eclesiástico. Conseguiu um contato com a Imperatriz Maria Theresia, que muito o favoreceu e encorajou. Em 10 de outubro foi consagrado Bispo Titular de Cartago e nomeado Bispo Coadjutor de Mechelen, tendo ficado, todavia, nos anos subsequentes encarregado de Missões Diplomáticas por Maria Theresia. Em 1751 foi nomeado Príncipe Arcebispo de Viena e em 1761 Cardeal. Criou um famoso Seminário ao lado da Catedral de Sto. Estevão. Serviu a Arquidiocese durante 4 Imperadores e durante este período teve que assistir, impotente, as transformações introduzidas pelo Imperador José II. O Cardeal faleceu em Viena em 14 de abril de 1803, apos ter dirigido durante 46 anos a Arquidiocese vienense. Foi um dos grandes Cardeais da Áustria.
 


A madrinha foi a Arquiduquesa Maria Clementina (5), noiva do Príncipe Herdeiro de Nápoles (6).

(5) A madrinha da pequena batizada foi a Arquiduquesa Maria Clementina. A mesma era a décima filha do Imperador Leopoldo II e da Princesa Maria Luisa de Bourbon, irmã de Francisco II e do Grão Duque de Toscana Ferdinando III. Nasceu em Poggio Imperiale, perto da Florença em 24 de abril de 1777 e faleceu no Palácio Real em Nápoles em 15 de novembro de 1801. Casou com Francisco Príncipe das Duas Sicílias, Duque de Calabria e futuro Francisco I (1777–1830).
(6) Francisco Príncipe das Duas Sicílias, Duque de Calabria, nascido em Nápoles em 19 de agosto de 1777 e falecido na mesma cidade em 8 de novembro de 1830. Rei das Duas Sicílias em 1825 com o nome de Francisco I.
 


A pequena Arquiduquesa recebeu os nomes Leopoldina, Carolina, Josefa (7). Após a cerimônia se entoou o Te Deum, ao som dos tambores, enquanto os canhões, colocados sobre os muros de cinta da cidade, salvaram três vezes. Realizou-se, da mesma maneira, como na vinda, o cortejo na volta, dirigindo-se para os grandes salões da Imperatriz. Em seguida Sua Majestade o Imperador e Suas Altezas Imperiais apareceram na grande antecâmara da Imperatriz, na qual se realizou a solene cerimônia das felicitações pela Alta Nobreza que ali se havia reunido.”

Extrato da certidão do batizado de Dona Leopoldina, feito a 10/05/1900. O original desapareceu na 2ª Guerra Mundial.
(Arquivo Imperial, Viena)

(7) Sobre o nome de Dona Leopoldina sempre pairava uma incerteza. O livro de Batizados da Igreja Sto. Agostinho desapareceu na 2º Guerra Mundial. Existe um extrato do mesmo feito em 10 de maio de 1900, que publicamos (imagem acima). Do mesmo resulta claro que foi batizada com o nome de Leopoldina Carolina, Josefa. Confirma este auto também a rubrica feita em latim pelo Cardeal Migazzi no Protocolo das Funções Episcopais, a pag. 216: “Archiducissa Leopoldina, Carolina, Josepha, filia Imperatoris Franc. II. Nata 22. Jan. 1797 hor. 8 va matut. baptizata est ab Emmo. in sala magna Aulae, assist. eodem die vesp. 6 ta levante” (imagem acima da Nota 3). Com esta documentação fica definitivamente confirmada a posição correta dos nomes da Imperatriz, que Marialva tinha comunicado oficialmente, por engano, serem Carolina Josefa Leopoldina; veja Oberacker Jr. vol. cit. pag. 63. O mesmo erro do nome encontramos no pacto matrimonial. Provavelmente Metternich, ao assinar o documento, não fez questão da posição dos nomes. Estavam os três nomes da Arquiduquesa e portanto o tratado para ele era válido. O ato de renúncia à Coroa e a todas as eventuais heranças também é atribuído a Carolina Josepha Leopoldina, com o nome Leopoldina em destaque. Para completar a confusão relativa aos nomes de nossa primeira Imperatriz, esta assina o ato como Maria Leopoldina. Em todo caso, em nossa História, ela entrou como Leopoldina e com este apelido ela será sempre honrada.

Parte 1/3, 2/3, 3/3

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