Ensaio entregue pelo autor a 20/01/2006 para inclusão no site, dividido em partes conforme melhor fosse.

PETRÓPOLIS - A SAGA DE UM CAMINHO (17)
Gênese e Evolução do Território Petropolitano

Carlos Oliveira Fróes

Capítulo 18

Fase Sergio Marcondes de Andrade

Síntese da Gestão - No dia 16.V.1857, o Major-ICE Sergio Marcondes de Andrade assumiu interinamente o cargo de Diretor da Imperial Colônia de Petrópolis, em virtude do afastamento temporário requerido pelo titular José Maria Jacyntho Rebello, sob alegação de motivos de saúde.

Naquela ocasião, Sergio Marcondes estava chefiando o 7º Distrito de Obras Públicas da Província, cuja sede era em Petrópolis. Ele acabara de concluir, com grande êxito, a "macadamização e remates" do trecho da Estrada Normal da Estrella, entre a Raiz-da-Serra e o Alto-da-Serra, que estava sendo aprimorado para complementar a importantíssima conexão da Estrada de Ferro de Petrópolis com a Estrada União e Indústria, o que significava a concretização do "segmento fluminense da tão sonhada ligação viária da Corte ao coração de Minas Gerais".

No decurso de sua gestão, a Povoação-Colônia passaria por mais um período de grandes realizações e sucessos em todos os setores da comunidade. Importantes metas seriam atingidas, dentre as quais a consecução do "ideal de emancipação de Petrópolis".

Não há o menor indício de que o Major Sérgio - como passou a ser conhecido na Colônia - tenha participado ostensivamente do efervescente movimento político local pró-emancipação, ficando notabilizado, apenas, pela proficiência demonstrada no exercício de suas responsabilidades funcionais.

Assim, a Mesa Paroquial da Freguesia de São Pedro de Alcântara pôde dispor da mais ampla liberdade na condução da política local, cujo controle era exercido por simpatizantes da ala do Partido Liberal, até então, liderada pelo recém-falecido Marquês do Paraná, cuja grande influência em Petrópolis manifestava-se através do Barão de Mauá e do seu auxiliar e amigo, Tenente-Coronel-ICE Veiga, com o apoio de personalidades do porte do Dr. Henrique Kopke, Dr.Thomaz José de Porciúncula, Dr.José Calazans Rodrigues de Andrade, Comendador Pedro José da Câmara, Jornalista Bartholomeu Pereira Sudré e outros. (1)

(1) - Fontes Bibliográficas, Ref. 5.
5. AGUIAR, Mario Noronha. "A Cooperação dos Portugueses em Petrópolis (Coletânea)". Petrópolis, Editora Vozes, 1940.


No segundo semestre de 1857, conforme uma estimativa feita pelo Diretor Sérgio Marcondes, viviam na Colônia mais de 6.000 habitantes, dos quais 2.974 eram colonos de origem germânica. Porém, considerando-se a área total da Povoação - termo - abrangida pela Freguesia de São Pedro de Alcântara, a população poderia chegar a 9.000 ou 10.000 habitantes, índice esse que constituiu forte argumento em prol da elevação de Petrópolis, diretamente, à categoria de Cidade e não à de Villa.

Em que pese o expressivo nível de desenvolvimento da comunidade, verificado nos setores público, comercial, industrial, turístico e urbanístico, era no campo das atividades de ordem cultural, artística, social e política que estavam se processando as maiores transformações.

Importante é verificar que tais fenômenos brotavam espontaneamente no seio da comunidade que já podia ser considerada madura e pronta para dar um passo mais ousado em direção à estruturação padrão de um elemento político-administrativo da Província do Rio de Janeiro, mais precisamente assumir a condição de uma Divisão Civil, acima de uma simples Povoação.

Todavia, para viabilizar tal pretensão, seria imprescindível um urgente reajuste das atribuições e prerrogativas da Colônia, visando a equalizá-las ao modelo vigente, adotado para as demais congêneres no Império. Somente assim seria possível garantir a relação harmônica com uma futura Administração Municipal, sem interferências com a as atribuições dos Governos Provincial e Imperial.

E, uma vez atingido tal desiderato, deveria ser encarada a realidade de que não mais seria possível contar com os privilégios de uma Imperial Colônia, sabendo-se que as cotas orçamentárias, por mais minguadas que fossem, teriam de ser disputadas sem qualquer tipo de incentivo ou paternalismo público.

Haveria, ainda, o risco do "Augusto Imperador" - estimado e respeitado pela população, mormente pelos colonos - melindrar-se em face de injunções processadas à sua revelia, com relação à tão cara Povoação-Colônia que tanto incentivara em suas terras e que fora criada por força de um Imperial Decreto que ele mesmo baixara.

Provavelmente, teria sido esse um motivo bem forte para que a população colonial não se envolvesse apaixonadamente nessa questão, ficando restritos à imprensa e às rodas políticas as discussões e os pronunciamentos ostensivos favoráveis à emancipação.

Apesar de tudo, seria impossível esconder que a emancipação era inevitável e, até certo ponto, oportuna e justa, situação essa tão bem sintetizada - cerca de oitenta anos mais tarde - pelo Dr. Mario Aluízio Cardoso de Miranda, em um trecho da conferência proferida por ele na fase preparatória das comemorações do Centenário de Petrópolis: "A elevação à categoria de Cidade, menos do que uma medida administrativa era, nas Ordenações do Reino, uma ajustação jurídica do quadro social desses agrupamentos vivos".

Na data de 1º.VIII.1857, a Assembléia Legislativa da Província do Rio de Janeiro foi convocada para dar início aos trabalhos anuais daquela Casa.

Desde as primeiras sessões, o Tenente-Coronel-ICE Amaro Emílio da Veiga que voltara a ocupar uma cadeira - desta vez efetiva - de Deputado, empenhou-se decididamente para que a questão da elevação de Petrópolis à categoria de Cidade, vetada na Assembléia anterior, voltasse a ser discutida.

Durante os intensos debates que se sucederam, o Tenente-Coronel Veiga insistiu veementemente nos seus pontos de vista em relação a Petrópolis. E mais uma vez a sua proposição foi aprovada em Plenário, desta vez por larga margem de votos.

Seguindo os trâmites legais, a Proposta de Lei foi novamente encaminhada à Presidência da Província, porém não foi sancionada nem vetada dentro do prazo estabelecido pela Emenda Constitucional de 1834. Expirado o decêndio e, seguindo os dispositivos legais, a Assembléia promulgou a Lei Provincial nº 961, de 29.IX.1857 que é reproduzida a seguir:

"Lei nº 961 de 29.IX.1857

O Comendador Francisco José Cardoso, Presidente da Assembléia Legislativa Provincial do Rio de Janeiro. Faço saber a todos os seus habitantes que a mesma Assembléia Legislativa Provincial decretou a Lei seguinte:

Art.1º - Ficam elevadas à categoria de cidade as Villas de Valença e Vassouras e a Povoação de Petrópolis".

Art.2º - Anexa-se o segundo distrito da Freguesia de São José do Rio Preto ao novo Município de Petrópolis, de que o Presidente da Província designará os limites.

Art.3º - São Revogadas as disposições em contrário.

E porque o Presidente da Província recusou sancioná-la, em conformidade do Art.19 da Carta da Lei Constitucional de 12 de agosto de 1834, manda a Assembléia Legislativa Provincial a todas as autoridades a quem o consentimento e execução da referida Lei pertencer, que a cumpram e façam cumprir tão inteiramente como nela se contém. O Secretário da Província a faça imprimir, publicar e correr.

Dada no Paço da Assembléia Legislativa Província do Rio de Janeiro, aos 29 de setembro de 1857, 36º de Independência e do Império.

Ass.Francisco José Cardoso"

A partir daí, Petrópolis já era uma Cidade, Sede de Município.

Pela Deliberação supra, o seu território foi definido pelo termo da Freguesia de São Pedro de Alcântara, acrescido da área do 2º Distrito de São José do Rio Preto, ficando estabelecido que o Presidente da Província deveria fixar os limites. Porém essa questão não seria tão simples assim, como poderemos constatar mais adiante, no tópico específico, intitulado "Território Municipal de Petrópolis".

O passo inicial para implementação da nova ordem municipal foi dado pela convocação, para o dia 22.XI.1857, de uma Eleição destinada à escolha dos Vereadores que iriam compor a primeira Câmara de Petrópolis.

Realizada na data marcada, essa Eleição foi anulada pelo Aviso do Ministério do Império, de 2.VI.1858, sob alegação de irregularidades que teriam sido cometidas na organização das "Listas de Qualificação de Eleitores" e um novo pleito foi marcado para o dia 7.IX.1858.

Enquanto era aguardada essa outra tentativa, foi baixada a Portaria Provincial de 17.VII.1858, pela qual o Capitão Jacyntho Rebello foi exonerado e o Major Sérgio efetivado no cargo de Diretor da Imperial Colônia de Petrópolis.

Essa segunda Eleição foi realizada no dia previsto e, novamente, foram apontadas irregularidades que levaram à sua anulação pelo Aviso de 12.I.1859 do Ministério do Império.

Nesse ínterim, foi criado pelo Decreto nº 2.271, de 6.X.1858, o Juizado Municipal de Petrópolis, outro importante passo, com vistas à implementação da nova ordem municipal.

Pela Deliberação Provincial de 31.XII.1858, foi homologada a subdivisão do Município de Petrópolis em dois Distritos:

1º Distrito de Petrópolis - constituído pelo antigo termo da Freguesia de São Pedro de Alcântara; e

2º Distrito de Petrópolis - constituído pela área do ex-2º Distrito da Freguesia de São José do Rio Preto, que foi anexada a Petrópolis.

Tendo em vista que as duas tentativas anteriores fracassaram, foi marcada para o dia 13.III.1859 um terceiro pleito, cujos eleitos são apresentados a seguir, em ordem decrescente do número de sufrágios recebidos:

Amaro Emílio da Veiga
Albino José da Siqueira
Manoel Francisco de Paula
Augusto da Rocha Fragoso
Manuel Candido do Nascimento Britto
João Baptista da Silva
Thomaz José de Porciúncula
José Calazans Rodrigues de Andrade
João Meyer
José Antonio da Rocha

O candidato mais votado, Tenente-Coronel Amaro Emílio da Veiga, sob alegação de "impedimentos regulamentares", não obteve autorização do Ministério de Guerra para assumir.

O Dr. Thomaz José de Porciúncula e o Dr. José Calazans Rodrigues de Andrade renunciaram em sinal de solidariedade ao correligionário e amigo, Tenente-Coronel Veiga.

E, assim, os dois Suplentes mais votados, João Meyer e José Antonio da Rocha foram convocados para compor o Quadro de Vereadores.

A instalação solene da Câmara Municipal de Petrópolis ocorreu no dia 17.VI.1859, na sede-provisória localizada no prédio nº 31 da Rua de Paulo Barbosa, cuja cerimônia foi conduzida pelo Presidente da Câmara Municipal de Estrella, o Dr. Bernardo Alves Machado.

Foi empossado na Presidência da Casa o segundo Vereador mais votado, o Tenente-Coronel (R) Albino José da Siqueira. E a vaga que caberia ao Tenente-Coronel Veiga não foi preenchida.

Os trabalhos regulamentares tiveram início a 18.VI.1859, com a realização da primeira Sessão Ordinária.

Ficou deliberado que, até segunda ordem, o "Código Municipal de Posturas da Villa de Estrella" seria adotado como modelo para Petrópolis.

À primeira vista poderia parecer que tal decisão estava pondo abaixo toda a base técnica do Plano Koeler, consubstanciada no "Contrato de Arrendamento da Imperial Fazenda Córrego Secco e seus dois Termos Adicionais", firmado em 1843.

Na realidade, tal hipótese não teria o menor fundamento, pois, a priori, os critérios básicos do Plano de Koeler estariam em plena consonância com o Código adotado como modelo.

A Delegacia de Polícia de Petrópolis foi instalada em 14.I.1859, tomando posse no cargo de Delegado o Dr. Antônio Moreira Tavares.

Com a instalação da Câmara Municipal, dos órgãos do Judiciário e da Polícia, bem como a ereção da Capella Curada de São Pedro de Alcântara em natureza de Matriz Provisória sob a assistência de um Pároco Efetivo, o Município de Petrópolis - subdividido em dois Distritos - já estava cabalmente estruturado, na conformidade do modelo municipal vigente no Império.

A partir daí, como uma legítima Divisão Civil, Jurídica e Eclesiástica da Província do Rio de Janeiro, o Município de Petrópolis passou a dispor de todas as condições para atuar autonomamente, com as prerrogativas que a Constituição lhe conferia.

Curiosamente, nada foi efetuado no sentido da desativação imediata da Imperial Colônia de Petrópolis, o que somente iria ocorrer uns poucos meses mais tarde.

Na noite de 26.IX.1859, o Major Sergio recebeu , em sua casa, a Portaria Provincial, que determinava sua exoneração do cargo de Diretor da Imperial Colônia de Petrópolis e baixava instruções para desativação desse Órgão.

Logo no dia seguinte, ele deixou o cargo, transferindo "a gerência dos trabalhos que estavam a seu encargo" para o Capitão-ICE Antônio João Rangel de Vasconcellos de Antas, que estava chefiando o 7º Distrito de Obras Públicas Provinciais, sediado em Petrópolis.

Sobre essa intempestiva transmissão de cargo, caberiam diversas suposições.

Durante os últimos seis anos, o Major Sérgio esteve intimamente ligado a Petrópolis, através de suas gestões nas Obras da Estrada Normal da Estrella, na Diretoria da Colônia e no 7º Distrito de Obras, às quais se dedicou intensamente. Além disso, esse titular mantinha estreitos vínculos pessoais e familiares com a Imperial Casa. Portanto, essas seriam razões suficientes para que ele não fosse considerado a pessoa mais indicada para encerrar as atividades da Colônia.

No entanto, dentro de um raciocínio mais realista e levando-se em conta que já haviam sido perdidos cerca de dois anos para a implantação definitiva da nova ordem municipal, julgamos que tal episódio não passou de uma simples medida administrativa, cujo propósito era acelerar a desativação da Colônia.

A profícua ação administrativa de Sérgio Marcondes poderá ser mais bem avaliada pela apreciação dos tópicos que se seguem.

Assistência Religiosa - Constou no Relatório Anual, assinado pelo Major Sérgio em março de 1858, a seguinte citação: "Já não é mais possível adiar por mais tempo o começo da nova Matriz de Petrópolis. A que existe, única no lugar, sem fábrica, acanhada e arruinada, não está a par da grandeza desta Cidade".

Em 26.VI.1858, o Pe. João Hygino de Camargo Lessa, Vigário da Vara Eclesial sediada em São José do Rio Preto, que exercia cumulativamente o cargo de Vigário da Freguesia de Petrópolis, foi substituído nesta última incumbência pelo Pe. Nicolau Germain que, há longo tempo, vivia em Petrópolis, onde era estimado e respeitado pela população local, inclusive, pelos Colonos Germânicos.

A nomeação do Pe. Nicolau Germain como Vigário da Freguesia de São Pedro de Alcântara, na condição de Pároco Efetivo, marcou o início da fase efetiva da estruturação do Poder Eclesial de Petrópolis.

Aproveitamos esta oportunidade para manifestar a estranheza que nos causou o fato de que nenhum dos três primeiros Vigários da Freguesia de São Pedro de Alcântara - Pe. Luiz, Pe. Mello e Pe. Lessa -  tivesse se empenhado para instalar, ainda que provisoriamente, a Sede Paroquial na Capella da Rua da Imperatriz.

Quanto à Comunidade Evangélica local, sua situação ainda não podia ser considerada como definida e aceitável.

O Pastor Daniel Jacob Hoffman, que por longo tempo contou com a assistência do Professor e Pastor Prático Pedro Jacoby, executava com seriedade sua difícil missão evangélica num País onde ainda imperavam resquícios da tradição ibérica relativa à integração Igreja-Estado na composição do Poder Geral.

Ademais, as perspectivas da edificação de um templo próprio eram remotas e os Cultos Evangélicos continuavam a ser precariamente improvisados nas acanhadas e inadequadas instalações do Quartel da Diretoria, na Rua do Imperador, ou em outros locais inadequados.

Enquanto isso, não restava aos colonos evangélicos outra alternativa senão a de esperar por uma oportunidade que viabilizasse a edificação do seu próprio Templo.

Assistência Médico-Hospitalar - Na opinião do Major Sergio, o Hospital de Petrópolis, vinha sendo dirigido, "desde 1853, pelo Dr. Porciúncula com zelo e habilidade". Outrossim, esse consciente Diretor da Colônia enfatizou no seu Relatório Anual que o Hospital "não deve e nem pode, por mais tempo, persistir na casa acanhada e mal construída em que ora se acha, pertencente à Imperial Casa".

Mesmo assim, em situação precária, o Hospital continuava sendo intensamente utilizado, passando por improdutivos reparos e ampliações mal projetadas. Naquela mesma ocasião, uma unidade de partos foi inaugurada, elevando para seis o total de enfermarias da instituição. Além do mais, a Administração do Hospital queixava-se da inexistência de um isolamento e de uma capela mortuária, o que, segundo ela, eram instalações imprescindíveis para evitar a contaminação hospitalar

Sérgio Marcondes tentou dar início à edificação do sonhado Hospital de Santa Thereza, tendo, para isso, solicitado autorização para utilizar a quantia de 14:000$000 que estava depositada num fundo especial, destinado ao custeio da planejada instituição. Porém, tal pretensão não foi atendida.

Parece que o maior obstáculo para qualquer solução definitiva residia na situação complicada em que tal instituição fora estruturada, razão pela qual jamais poderia ser simplesmente transferida para a Administração Municipal.

Em decorrência disso, no dia 13.IX.1859, a Diretoria da Colônia assinou com Francisco Vandenbrand um contrato de aluguel do prédio nº 8 da Rua de Bragança, visando à transferência do Hospital para aquele local, em caráter de urgência.

Assistência Social - Em 1858 a Caixa de Socorro passou por uma crise bastante séria, quando foram detectadas irregularidades na distribuição de benefícios, tendo sido determinada pela Imperial Casa a abertura de investigações. Todas as irregularidades foram sanadas pelo Conselho Diretor, que baixou diretrizes mais rígidas para controle do órgão.

Era óbvio que sem as doações - principalmente as de SSMM, o Imperador e a Imperatriz - e a substancial queda no número de aforamentos, a entidade fatalmente entraria em colapso, problema esse que vinha se agravando a cada dia, em face do processo de extinção da Colônia estar caminhando a passos largos.

Instrução - Nessa fase, Petrópolis já ostentava uma imagem proeminente no âmbito de Instrução Provincial, através de seus excelentes e afamados colégios particulares e de uma boa rede pública

Entretanto, o Major Sérgio alertou enfaticamente para um problema - já levantado por seus antecessores - que julgava estar se agravando rapidamente. Dizia ele que, "apesar das recomendações e advertências formuladas, anteriormente, no sentido provocar uma gradual nacionalização da instrução pública para os filhos dos colonos germânicos, ainda funcionavam no final de 1858 cinco escolas públicas regidas por professores alemães, sendo que, dentre elas, somente uma também ensinava a língua portuguesa".

A rede pública, constituída por oito escolas primárias, oferecia cinco estabelecimentos para a instrução extracolonial, sendo uma delas exclusiva para meninas, enquanto que apenas funcionavam três escolas tradicionais.

Quanto à instrução particular secundária para meninos, Petrópolis continuava contando com os excelentes Collégio Callógeras - recentemente adquirido pelo Professor Falletti - e o Collégio Kopke, sendo que este último estava executando grandes reformas para harmonização das fachadas dos prédios componentes e ampliação de suas instalações.

E, quanto à instrução particular para meninas, continuavam funcionando, no nível secundário o Collégio de Madame Diemer e no nível primário o Collégio de Madame Kramer.

Além disso, notava-se um grande estímulo para abertura de novos estabelecimentos de instrução particular, ante o sucesso obtido pelos empreendimentos pioneiros.

Quarteirões e Caminhos Coloniais - Em 1859 a Imperial Fazenda de Petrópolis criou o Quarteirão Portuguez, no alto do Caxambu e o Quarteirão Leopoldina, no trecho inicial da "Picada Nova". E em 1860 foi criado o Quarteirão Mineiro, no Morro da Saudade.

Curiosamente, nenhum desses três Quarteirões foram notados na "Planta da Imperial Cidade de Petrópolis", elaborada pelo Major-ICE Carlos Augusto Taunay em 1861.

Constou que outros três Quarteirões - Medina Sidonia, Itamaraty e Ypiranga - teriam sido criados em 1858, porém não há fontes documentais que comprovem tal assertiva. Entretanto, as informações sobre abertura de vias de acesso para as áreas que eles ocupariam, bem como os registros de aforamento ali realizados, são indícios seguros de que tais Quarteirões estavam sendo implementados naquela época.

Pelas observações que fizemos, ainda existiam áreas devolutas - não muitas - dentro do perímetro da Imperial Fazenda de Petrópolis, a maioria das quais não era considerada passível de ser explorada, em face da qualidade dos terrenos e os rígidos e racionais critérios do Plano de Koeler.

É importante registrar que o acesso aos seis supracitados Quarteirões já estava concluído no final de 1858, conforme poderemos observar através das informações que citaremos a seguir:

o Caminho Colonial do Quarteirão Mineiro (futuro Caminho da Saudade, depois Estrada da Saudade) se desenvolveu pela encosta do Morro da Saudade, paralelamente e em cota superior à da Estrada Normal da Estrella, no trecho entre o Alto Quissamã e Itamaraty; essa via, que se tornou possível após a abertura do Caminho Colonial de Interligação da Rua de Joinville ao Alto do Quissamã (final da Rua dos Mineiros), propiciou a criação do Quarteirão Mineiro, que foi instalado ao norte do Quarteirão Francez e paralelamente ao Quarteirão Princeza Imperial;

a "Picada Nova" que ligou o Quarteirão Woerstadt a Paty do Alferes foi concluída em 1859, viabilizando a criação do Quarteirão Leopoldina; essa via, aberta com outras finalidades, serviu de base para aforamento de novos prazos ao longo dela;

o Caminho Colonial de Interligação do Quarteirão Suisso à Cascata do Itamaraty viabilizou a criação do Quarteirão Portuguez - locado entre os Quarteirões Suisso, Palatinato Inferior e Palatinato Superior - , o qual ocupou a área do Alto Caxambu, formada nas nascentes dos rios Itamaraty e Caxambu (Grotão);

o Caminho Colonial de Interligação do Quarteirão Princesa Imperial à Cascata do Itamaraty, viabilizou a criação do Quarteirão Itamaraty, formado pelas "Terras do Boeiro Grande", uma parte da original Fazenda Itamaraty que foi incorporada à Imperial Fazenda de Petrópolis;

o Caminho Colonial de Interligação do Quarteirão Brasileiro ao Quarteirão Mosella, concluído em 1859, tornou viável a criação do Quarteirão Ypiranga; e

o Caminho Colonial de Interligação do Quarteirão Mosella à Fazenda do Inglês, aberto por ocasião das tentativas infrutíferas para ligar Petrópolis a Paty do Alferes, efetuadas por Moerken, viabilizou a criação do Quarteirão Medina Sidonia, que foi instalado entre os Quarteirões Mosella e Leopoldina.

Implementação Urbana - Antes de apresentarmos o elenco das obras de urbanização da gestão de Sérgio Marcondes, tentaremos alinhavar a situação panorâmica de Petrópolis no final de 1859:

o Centro da Cidade já se encontrava todo urbanizado e ocupado;

as ruas bem calçadas, as laterais dos canais bem cuidadas e as pontes simples, porém elegantes, chamavam a atenção dos viajantes, visitantes e todos os demais que aqui chegavam;

vários prédios residenciais de porte e aparência expressivos espalhavam-se pela Villa Imperial e pela Villa Thereza e, também, no inicio de outras vias que para ali confluíam;

hotéis, até certo ponto, imponentes e casas comerciais com boa aparência ocupavam a Rua do Imperador;

o ajardinamento e a colocação do gradil - em ferro batido - na Praça da Confluência (ex-Coblenz), bem como a preocupação do plantio de árvores e arbustos nos logradouros públicos e beiras dos canais e rios, conferiam um aspecto mais agradável e civilizado à nova Cidade; e

o Imperial Palácio de Verão, ajardinado e cercado com seu elegante gradil de ferro, conferia um toque de imponência e nobreza à Cidade.

Apresentaremos a seguir, conforme a metodologia observada no presente Ensaio, o elenco das obras públicas efetuadas durante a gestão de Sergio Marcondes.

De suma importância, foi a conclusão, no início do segundo semestre de 1858, das obras do canal da Rua do Imperador, desde seu novo ponto de partida na divisória do Prazo nº 1421-IFP até a conexão com a Rua do Tonelero, que tivera o seu traçado modificado, de modo a deixar uma área livre bem maior, pela margem direita do Rio Palatino, criando um grande espaço livre, provavelmente, para instalação da futura estação ferroviária.

Também foram concluídos as duplicações e os nivelamentos das Ruas da Imperatriz, de Da. Maria II, de D. Affonso, de Bragança e dos Artistas, as quais puderam ser pavimentadas pelo mesmo processo de macadamização empregado nas pistas da Estrada União e Indústria ou pelo "processo alemão de macadamização".

O prolongamento da pista da direita da Rua da Imperatriz até a Rua de Joinville foi concluído. E a pista da Rua de Bourbon foi terminada com rebaixamento de sua parte mais alta.

Grandes melhoramentos foram feitos nos Caminhos Coloniais dos Quarteirões Rhenania Inferior e Nassau que em breve seriam reclassificados como ruas.

Edificações Particulares - No início de 1859, existiam em Petrópolis 974 prédios residenciais e mais 10 em construção. O número de estabelecimentos comerciais, fábricas e oficinas, era de 202 unidades.

Cemitério Público - Em 1858 o "Novo Cemitério", com toda a área básica nivelada e preparada, recebeu à sua volta uma cerca de madeira com duas cancelas.

No início de 1860 ele seria transferido para a Administração Municipal.

Matadouro Público - Foi concluída a macadamização de todas as áreas de serviço do "Novo Matadouro Provisório".

No início de 1860 ele seria transferido para a Administração Municipal.

Abastecimento Público de Água - Nessa fase, foi efetivada a concessão de "penas d'água" para particulares, sendo os primeiros contemplados o Barão de Pirassununga, Joviano Varella, Albino José da Siqueira e Pedro José da Câmara.

Algumas obras de complementação foram feitas no Chafariz da Praça Municipal com vistas à sua utilização como ponto de fornecimento de água à população.

No início de 1860 esse serviço seria transferido para a Administração Municipal.

Correio - Não foram registradas alterações expressivas nesta fase.

Telégrafo - Não foram registradas alterações expressivas nesta fase.

Agricultura, Indústria e Comércio - Sentindo aproximar-se o momento em que a consolidação da emancipação chegaria a seu termo, o Major Sérgio chegou à conclusão de que "mais dia menos dia hão de acabar os trabalhos públicos e particulares, ou ao menos diminuir, e terá então Petrópolis, necessariamente de passar por uma séria crise que põe em risco seu futuro (sic)".

Ponderando junto à Presidência da Província, ele afirmou categoricamente que "a Colônia não tinha as condições necessárias para ser somente agrícola e os colonos não professavam os conhecimentos exclusivos de agricultura" e que somente "como colônia fabril acha muitos meios de engrandecer".

Assimilando e dando grande ênfase a certas idéias formuladas e apresentadas por alguns de seus antecessores, ele propôs à Presidência, com muita clareza e objetividade a adoção de uma política agro-industrial para a Colônia, baseada na instalação de "engenhos destinados ao fabrico" de tecidos de algodão ou seda, vidros, móveis, carros de rodagem, manufaturados de madeira em geral, óleos vegetais e outros produtos, cujos insumos poderiam ser obtidos, no estado natural, em Petrópolis e em suas adjacências, ou então através de culturas específicas a serem desenvolvidas no local, tais como de camélia oleaginosa, mamona e chá-da-índia, bem como a criação do bicho-da-seda".

Também solicitou providências ao Presidente para aprovação dos "Estatutos da Sociedade Alemã e Brasileira de Agricultura e Indústria", cujo processo se encontrava paralisado na Secretaria de Governo.

Naquele predestinado final de Década, o comércio e o turismo local passavam por uma fase altamente positiva, conforme se pode depreender das crônicas veiculadas pela imprensa da Corte e dos anúncios publicados nos dois jornais da Cidade.

Personalidades ou simples turistas oriundos de todas as partes da Província, do Império e, até mesmo, do mundo eram fortemente atraídos para visitar Petrópolis, em busca de suas decantadas belezas naturais e de seu privilegiado e tão apreciado clima, o que constituía um forte estímulo para a expansão das atividades dos supracitados setores.

Cultura, Artes e Viajantes Ilustres - Em 2.XII.1857, foi lançado o segundo periódico de Petrópolis, "O Parahyba", sob a direção de Augusto Emilio Zaluar. Esse jornal teve curta duração, encerrando suas atividades no decurso de 1859.

Em 1858, foi lançado um periódico trimestral intitulado "Brazilia", editado em língua germânica que foi, inicialmente, impresso nas oficinas do "Mercantil".

No apagar das luzes da Fase Colonial de Petrópolis, foi extremamente oportuno o depoimento prestado pelo escritor e jornalista francês Charles de Rybeirolles que chegou a Petrópolis no dia 21.I.1858, acompanhado do notável litógrafo francês Victor Frond e publicou um livro - "O Brasil Pitoresco" - no qual em uma de suas partes apresentou interessantes informações sobre a Cidade de Petrópolis, colhidas durante as inúmeras visitas e passeios que ali realizou. Em anexo ao citado livro, havia um álbum ilustrado por maravilhosas litografias elaboradas a partir de fotos tomadas por seu acompanhante, Victor Frond. Em contrapartida, foram desastrosas algumas citações que apresentou sobre as origens de Petrópolis, provavelmente baseadas em crônicas de Raffard.

Entretanto, as demais impressões que registrou, na maior parte de seu relato, foram altamente positivas, as quais nos permitiram delinear uma visão panorâmica bastante real da situação em que se encontrava a Cidade no auge da transição de burgo colonial para uma nova unidade da Província.

Vejamos, pois, algumas de suas citações:

sobre Pedro do Rio - "Era noite fechada quando os animais pararam em Pedro do Rio, diante do Hotel Meyer" / "A casa é nova, limpa e bem fornida" / "Pedro do Rio é um pequeno burgo encurralado que acaba de nascer em torno da estação que aí estabeleceu a Estrada União e Indústria" / "Ontem simples parada, pode com isso, auferir grandes vantagens. É um dos pontos escolhidos e favorecidos dessa artéria";

sobre a seção da Estrada União e Indústria, de Pedro do Rio até Petrópolis - "Vai-se em caminho macadamizado, bem batido, amplo e belo. Sem subidas rudes , ele se eleva pouco a pouco, ao longo dos morros e se alonga por vezes em largas plataformas, donde o olhar acompanha os picos e as montanhas" / "..artéria onde já se avolumam as tropas e os viajantes";

sobre as características do planejamento da Cidade de Petrópolis - "A configuração externa, o plano topográfico e a fisionomia de Petrópolis não lembra, em coisa alguma, como já dissemos as formas clássicas de alinhamento, as ruas tangentes que fazem raio nas praças centrais, as simetrias, as divisões e os cortes sábios nas cidades modernas nos estados da Norte-América" / "A Cidade nasceu, desenvolveu-se livremente, nas linhas naturais, que são os caminhos abertos";

logradouros citados - "Ruas do Imperador, da Imperatriz, de Joinville, Thereza e dos Protestantes";

edificações particulares citadas - "Collégio Kopke" / "Residência do Barão de Mauá"; e

citações diversas - "Ide ao alvorecer à Cascata de Itamaraty pelo velho Caminho de Minas. Que vistas, que natureza ! " / "Faltam ainda em Petrópolis catedrais e escolas de alto ensino. Que magnífico asilo não é Petrópolis para as altas escolas!" / "Por que razão certas escolas brasileiras que se estiolam nas províncias, não são centralizadas em Petrópolis?" / "Esta cidade toca quase com o Rio, foco de irradiação, e seus altos cimos têm a calma que convém às idéias" / "E a colônia florescerá como cidade, nessa civilização ativa; nesse esforço de um e de todos está o futuro de Petrópolis".

Imperial Fazenda de Petrópolis - Em 6.V.1858 o Capitão-ICE Jacyntho Rebello transmitiu o cargo de Superintendente da Imperial Fazenda ao Tenente Coronel-ICE Vicente Marques Lisboa.

Nessa data, o Imperial Palácio de Verão estava praticamente concluído, decorado internamente, mobiliado, ajardinado defronte às duas principais testadas e cercado com um gradil de ferro. Faltavam apenas alguns pequenos detalhes para serem ultimados no corpo principal, além das obras relativas às edificações externas e logradouros que prosseguiam mais vagarosamente.

No primeiro semestre de 1859 foi iniciada a construção da Casa dos Semanários, versão definitiva do pioneiro Quartel dos Semanários.

Território Municipal de Petrópolis - Pela Lei nº 961, de 29.IX.1857, a Povoação de Petrópolis, juntamente com as Villas de Vassouras e Valença, foi elevada à categoria de Cidade. Vejamos os dois artigos desse Ato:

"Art.1º - Ficam elevadas à categoria de Cidade as Villas de Valença e Vassouras e a Povoação de Petrópolis"; e

"Art.2º - Anexa-se o Segundo Distrito da Freguesia de São José do Rio Preto ao novo Município de Petrópolis, de que a Presidência designará os limites".

Alertamos para o fato de que, além do que foi citado nos dois Artigos supra, nenhuma orientação específica foi adiantada sobre a definição dos limites dos novos Municípios, ficando expresso, apenas, que "a Presidência designará os limites". Até então, os Atos desta natureza estabeleciam as linhas gerais dos novos termos e determinavam que as respectivas Câmaras levantassem os limites, submetendo os resultados à aprovação da Assembléia Provincial.

Quanto a Valença e Vassouras, não poderia haver qualquer problema, pois seus termos, desde o tempo de suas elevações à categoria de Villa, já estavam bem definidos e as dúvidas que surgiram posteriormente foram oficialmente esclarecidas.

Mas o mesmo não acontecia em relação a Petrópolis, onde, nem mesmo o conceito dado à Povoação estava ainda bem definido, em face da sui generis natureza com que fora preliminarmente instituída pelo Presidente Caldas Vianna - a partir do Decreto do Imperador nº 155, de 16.III.1843 - e, conduzida, de 1857 em diante, segundo a situação de Imperial Colônia.

Pelo modelo oficial vigente, a Povoação de Petrópolis não podia ser imaginada como restrita à área da Imperial Fazenda, ocupada apenas pela Colônia. Deveria, sim, ser entendida na plenitude da Freguesia de São Pedro de Alcântara, Distrito da Villa de Estrella - ex-Distrito da Freguesia de São José do Rio Preto - cuja definição resultou de uma série de Atos, especificamente baixados, a fim de que a sui generis Colônia de Petrópolis se tornasse compatível com a tradicional estrutura Civil, Judiciária e Eclesial de uma "subdivisão padrão" da Província Fluminense.

Até o final do ano de 1858, o Presidente da Província não tomara qualquer providência para definição dos limites do novo Município de Petrópolis. Em complementação ao Ato de criação, apenas foi baixada a Deliberação Provincial de 31.XII.1858, determinando a subdivisão do Território Municipal de Petrópolis em dois Distritos:

"O Governo, atendendo a que o 2º Distrito de Paz e de Subdelegacia de Polícia da Freguesia de São José do Rio Preto foi anexado ao novo Município de Petrópolis, pela lei nº 961, de 29.IX.1857, delibera que d'ora em diante o referido Distrito tome a denominação de 2º Distrito de Petrópolis, considerando-se 1º o da Freguesia de São Pedro de Alcântara da mesma Cidade."

Em virtude de não ter sido baixado um Ato específico para fixação de seus limites, o Território do Município de Petrópolis somente poderia ser configurado - indiretamente - pela integração dos termos da Freguesia de São Pedro de Alcântara e do ex-2º Distrito de São José do Rio Preto, conforme foram estipulados na Resolução de 30.X.1845. Vejamos o delineamento que pode ser conjeturado, a partir dos dados disponíveis:

pelo sul - Serra do Mar (setores da Estrella e Órgãos);

pelo leste - Serra do Cantagallo (contraforte da Serra dos Órgãos e divisor de águas entre os Valles do Piabanha e Paquequer Pequeno);

pelo norte - Serra do Taquaril, Córrego das Nuvens, Ribeirão Bonito, Rio Preto até a sua barra no Piabanha; e

pelo oeste - Serras da Cambota, Alto Pegado, Manga Larga, Araras, Santa Catharina e Boa Vista.

Esta configuração do termo do Município de Petrópolis iria ser muito contestada durante as três próximas Décadas e somente no início da Década de 90 seria cabalmente definida.

Vias Importantes para Petrópolis - Eventos notáveis, referentes ao setor viário, ocorreram durante a gestão do Major Sérgio.

Estrada União e Indústria - Em Território Fluminense, o segmento da Estrada União e Indústria havia sido dividido em duas seções. A primeira, de Petrópolis até Pedro do Rio e a segunda, de Pedro do Rio até Parahybuna. Em menos de dois anos, as vultosas obras da primeira seção dessa "estrada padrão", desenvolvidas em ritmo surpreendente, já estavam concluídas.

Conectada à Estrada Normal da Estrella na altura do Marco do Alto da Serra, essa seção cruzava o centro de Petrópolis, pelas Ruas Thereza, de Aureliano, de Da. Januária, do Imperador, da Imperatriz, de Da. Maria II, dos Protestantes e da Westphallia, chegando até a Ponte do Retiro onde cruzava para a margem esquerda do Piabanha. Deste ponto em diante, prosseguia até a Ponte de Bonsucesso (Olaria), onde cruzava para a outra margem direita. Em seguida, passava por Magé, Sumidouro e chegava a Pedro do Rio, na altura da Ponte do Secretário (ex-Ponte do Pedro Martins). Nessa localidade, havia sido edificada uma grande Estação de Troca de Alimárias, complementada com instalações de apoio para os viajantes e espaçosos armazéns. Aliás, essa estação fora planejada como um ponto de consolidação de cargas, tendo em vista sua invejável posição como entroncamento da mais importante via do Império:

com a Estrada de Mar de Espanha (pelo Atalho do Taboão); e

com a antiga Estrada Geral da Estrella (trecho de Pedro do Rio até Parahybuna, via Parahyba do Sul), à qual se conectava a Estrada do Sardoal (na altura da localidade do Secretário).

Em cerimônia festiva, a 18.III.1858, a primeira seção foi franqueada ao público e o serviço de transporte de passageiros teve início em 1.IV.1858, por meio de duas diligências, cada uma fazendo duas viagens diárias de ida e volta por dia entre Petrópolis e Pedro do Rio. O serviço de transporte de cargas, por ter sido arrendado a terceiros, não pôde ser operado prontamente, pois teve de aguardar a conclusão das providências de praxe. Todo o cerimonial desse evento foi organizado e executado pela Câmara de Parahyba do Sul.

A inauguração foi comemorada um pouco mais tarde, em 18.VI.1858, através de uma pomposa cerimônia realizada em Pedro do Rio, a qual contou com as presenças de Suas Majestades Imperiais, Autoridades do Império e da Província, Diretoria da Companhia União e Indústria e inúmeras personalidades convidadas para esse importante evento. Apesar da quase totalidade do trecho inaugurado estar em Território Municipal Petropolitano.

Até o final da gestão de Sérgio Marcondes, já se encontrava bastante adiantada a construção da segunda seção que, iniciada em Pedro do Rio, deveria estender-se pela margem direita do Piabanha, passar pela localidade Barra Mansa (Fazenda Santanna) e chegar à localidade de Posse. E as grandes dificuldades previstas no "cânion granítico da Jacuba", onde a pista de rodagem teria de ser aberta a dinamite, estavam sendo superadas. No trecho entre Posse e Parahybuna, a União e Indústria deveria cruzar para a margem esquerda do Piabanha pela Ponte da Posse, passar pelo "lugarejo Areal", retornar à margem direita do Piabanha pela Ponte de Santa Anna, cruzar para a margem esquerda do Piabanha pela Ponte de Carlos Gomes, voltar novamente para a margem esquerda do Piabanha pela Ponte de Entre Rios, passar pela localidade de Entre Rios (ex-Três Barras), cruzar o Rio Parahyba pela Ponte das Garças, prosseguir pela margem esquerda do Rio Parahybuna, passar pelo "lugarejo Serraria" e, finalmente, chegar à Ponte de Parahybuna, onde findaria o Segmento Fluminense da Estrada União e Indústria.

O término das obras dessa segunda seção estava previsto para cerca de um ano mais tarde, quando ir-se-ia concretizar a verdadeira conquista do Rio Piabanha, só alcançada em toda plenitude, quando Petrópolis estaria dando os primeiros passos como Município.

Estrada Geral da Estrella - Em 1.III.1858, foi assinado um contrato com o empresário Mariano Procópio Ferreira Lage para conservação da "Estrada Velha da Estrella".

Estrada do Mar de Espanha - O Presidente da Província do Rio de Janeiro, no Relatório que assinou em 1.VIII.1857, referiu-se da seguinte forma ao "ramal da Estrada da Estrella que do Sumidouro segue para o Mar de Espanha": "Este importante ramal, que vai do Mar de Espanha à Estrada da Estrella, serve para a exportação de gêneros que produz o território da nossa província na margem direita do Rio Parahyba abaixo das Três Barras até quase o lugar da Sapucaia, e bem assim à exportação da Província de Minas Gerais na mesma zona da margem esquerda que lhe pertence. Tem uma extensão de cerca de seis léguas...."

Em 12.XII.1857, foi assinado um contrato com Albino José da Rocha Fragoso, válido por três anos, para conservação da Estrada do Mar de Espanha que se estendia de Sumidouro até o Porto de Chiador.

Todas essas atenções dispensadas à "modesta Estrada de Mar de Espanha", decorriam do volumoso escoamento da produção de café proveniente da Zona da Mata e da área fluminense, a ela confrontante pelo sul.

Ligação Viária com Paty do Alferes - O Vice-Presidente, no exercício da Presidência, José Maria Pereira da Silva, no Relatório assinado em 1.VIII.1857, referiu-se à "Picada Nova" como sendo um "ramal da Estrada da Estrella que se constrói para Paty do Alferes":

Até o final do ano de 1857, foi concluído o trecho da "Picada Nova" entre Boa Vista e o Alto da Serra da Viúva, perfazendo mais 10.030 braças (22,6 km). Daquele ponto até Paty do Alferes faltavam apenas 3.800 braças (8,4 km) para conclusão das obras. O Diretor da Colônia, Major-ICE, Sérgio Marcondes, com larga experiência na construção de estradas, ao invés de dar prosseguimento à abertura da picada, decidiu melhorar a qualidade do trecho já realizado, ao que tudo indica no intuito de adaptá-lo para via carroçável.

Naquela altura, Otto Reimarus que estava executando sua tarefa com rara proficiência, pretendia, o mais rapidamente possível, viajar para a Alemanha, a fim de cuidar de sua transferência definitiva para o Brasil. Reconsiderando sua decisão, Sérgio Marcondes mandou reiniciar a abertura da picada, sendo que esse último segmento com 3.800 braças (8,4 km) foi concluído [no final de 1858].

O percurso total, do Quarteirão Woerstadt até Paty do Alferes, perfez cerca de 20.830 braças (48 km) cuja largura da pista variava de 10 a 15 palmos (2,2 a 3,3 braças).

O seu custo, incluindo 46 pontes, 18 estivas, inúmeras muralhas de contenção e demais obras de arte, totalizou 37:000$000.

Classificada como picada - "Picada Nova" - ela foi usada, realmente, como Caminho e, até mesmo como Estrada Carroçável.

A Picada Nova foi simbolicamente inaugurada em 1.II.1859, por ocasião da cavalgada que SMI D.Pedro II empreendeu até Paty do Alferes, fato esse que, mais tarde, teria motivado o seu cognome como "Estrada do Imperador". (2)

(2) - A Picada Nova, na realidade, possuía requisitos de estrada, apenas com uma largura ligeiramente inferior aos padrões vigentes.


Caminho da Taquara - No período em pauta, o Caminho da Taquara recebeu melhoramentos em todo o percurso, desde seu início na Baixada até o "Alto do Imperador", sendo que em agosto de 1858 essas obras estavam praticamente concluídas. Apesar dos muitos esforços aplicados nessa via para torná-la aceitável, ela jamais passou de uma precária picada.

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