Ensaio entregue pelo autor a 20/01/2006 para inclusão no site, dividido em partes conforme melhor fosse.

PETRÓPOLIS - A SAGA DE UM CAMINHO (16)
Gênese e Evolução do Território Petropolitano

Carlos Oliveira Fróes

Capítulo 17

Fase
Jacyntho Rebello

Síntese da Gestão - Designado pela Portaria de 27.III.1855, o Capitão-ICE José Maria Jacyntho Rebello assumiu, no dia 16.IV.1855, o cargo unificado de Diretor da Imperial Colônia de Petrópolis e das Obras da Estrada Normal da Estrella. Além disso, foi mantido como Superintendente da Imperial Fazenda de Petrópolis, cargo esse que vinha exercendo desde 29.V.1853.

Dessa forma os três supracitados órgãos passaram a ser chefiados por um único titular, o que sem dúvida iria propiciar mais flexibilidade e dinamismo na administração da Povoação-Colônia.

A reinvestidura de Paulo Barbosa na Mordomia da Imperial Casa, apesar do seu precário estado físico, foi providencial para a Petrópolis, pois significava o afastamento definitivo de José Maria da Silva Velho que - apesar de sempre ter atuado com grande probidade e rigor durante quase dez anos de gestão - jamais demonstrara qualquer interesse ou apreço em relação a Petrópolis.

Também foi providencial o afastamento do Pe.Theodor Wiedemann, que se constituíra no cerne do problema que perturbava a Administração Local, bem como toda a Comunidade Religiosa da Colônia.

Tais acontecimentos prenunciavam uma fase mais amena para Petrópolis.

O setor de transportes vivia um momento de grandes realizações e animadoras perspectivas. A ligação intermodal da Corte a Petrópolis, compreendida da Prainha até Mauá por aquavia, de Mauá até a Raiz-da-Serra por ferrovia e da Raiz-da-Serra até Petrópolis por rodovia, já era uma realidade.

E o prosseguimento dessa via para Minas Gerais, através da construção da Estrada União e Indústria, tivera início a 12.V.1856. E dois dias após começariam as obras para uma ligação mais direta de Petrópolis com a Freguesia de Paty do Alferes.

E, mais uma vez, Petrópolis estava pronta para participar, em maior escala, dos privilégios oferecidos pela cafeicultura do Médio Inferior Valle do Parahyba, no limiar da fase áurea do "Ciclo do Café".

Até mesmo o surto de cólera-morbo que grassou na Baixada, não trouxe conseqüências calamitosas para Petrópolis, que não foi atingida em nível tão drástico. Ademais, tal episódio serviu para testar a capacidade da estrutura colonial que se mobilizara, debelando-a em menos de três meses.

Nessa fase, a implementação urbana atingiu praticamente todos os objetivos palpáveis, salientando-se a conclusão, quase que simultânea, da maioria das obras e serviços públicos como Abastecimento de Água, Matadouro, Cemitério e Telégrafo.

Podemos constatar que, nos últimos meses da "Fase Jacyntho Rebello", todos os segmentos da Povoação-Colônia passavam por momentos altamente positivos.

Mas era no setor político que estava se processando a mais radical evolução.

Os ideais da emancipação de Petrópolis já haviam sido levados à Assembléia Legislativa Fluminense pelo Deputado Amaro Emilio da Veiga. E a emenda, requerida por ele, para elevação de Petrópolis à categoria de Cidade foi discutida e aprovada na Sessão Legislativa Anual de 1856.

Porém essa Deliberação foi vetada pelo Presidente da Província.

Podemos afirmar que os ideais da emancipação de Petrópolis, semeados por Albino de Carvalho, foram concretizados durante a gestão de Jacyntho Rebello. E no final deste Capítulo, apresentaremos uma retrospectiva, num tópico específico, sobre o tema em pauta, ressaltando a atuação do Tenente Coronel-ICE Amaro Emílio da Veiga em Petrópolis.

Jacyntho Rebello não era um político, na verdadeira acepção da palavra. Desse atributo possuía apenas o grau necessário a um administrador de sua categoria.

E ele não lançou novas idéias em prol do movimento da emancipação. Porém prosseguiu decididamente no rumo traçado por seu antecessor Albino de Carvalho e continuou propugnando explicitamente em seus relatórios por essa causa, definida por ele na seguinte forma: "a emancipação da Colônia de Petrópolis é uma necessidade crescente".

Jacyntho Rebello, durante cerca de vinte e quatro meses de gestão, revelou-se um dos mais completos, eficientes e equilibrados Diretores da Imperial Colônia de Petrópolis.

No início de maio de 1857, alegando problemas de saúde, ele encaminhou um pedido de licença para afastamento temporário do cargo de Diretor da Colônia, tendo sido designado para substituí-lo interinamente o Major-ICE Sergio Marcondes de Andrade.

Assistência Religiosa - Em atendimento a um pedido feito anteriormente pelo, então, Diretor da Colônia, Albino de Carvalho, a conturbada atuação do Pe.Theodor Wiedmann findou, com sua exoneração, baixada pela Portaria Provincial de 16.IV.1855. E o seu imediato regresso à Corte foi determinado pela Provisão Episcopal de 18.IV.1855. O Pe. Nicolau Germain reassumiu, interinamente, as funções de "Cura Católico".

A 14.XII.1855 o Pe. Antonio José de Mello, Vigário da Vara Eclesial de São José do Rio Preto e Vigário da Freguesia de São Pedro de Alcântara, por ter sido promovido a Cônego, foi substituído nessas supracitadas funções pelo Pe. José Hygino de Camargo Lessa.

Até o final dessa fase, a Assistência Religiosa aos Católicos e Evangélicos locais foi prestada, respectivamente, pelo Pe. Nicolau Germain e pelo Pastor Jacob Daniel Hoffmann, ambos estimados e respeitados em todos os segmentos da comunidade.

Assistência Médico-Hospitalar - O Hospital e Casa de Caridade de Petrópolis sofreu a partir de 1856 uma redução em sua consignação anual, que passou de 9.600$000 para 9:000$000. Essa instituição continuou sendo administrada com grande proficiência pelo Dr. Thomaz José de Porciúncula, o qual, durante a "epidemia de cólera" que grassou em Petrópolis de outubro de 1855 até o início de 1856, cumpriu sua missão de maneira estóica.

Esse episódio - na realidade um surto epidêmico de cólera-morbo que atingiu as áreas baixas do Rio de Janeiro e chegou indiretamente a Petrópolis - mobilizou toda a comunidade petropolitana e constituiu-se num alerta para as autoridades responsáveis pela Povoação-Colônia. Decididamente, Petrópolis não estava aparelhada para enfrentar crises dessa natureza.

Pelo Decreto nº 390 de 10.VI.1856, SMI autorizou a construção de um "novo hospital em benefício dos enfermos de Petrópolis e das suas circunvizinhanças" e, além disso, criou as bases de um fundo destinado ao custeio daquela instituição, a qual denominou como Hospital de Santa Thereza. Com a escassez de recursos reinante, a concretização desse sonho ainda iria demorar bastante tempo.

E, como vinha ocorrendo nos últimos anos, o velho Hospital situado em instalações e terrenos da Imperial Casa, nos Quartéis de Bragança, mais uma vez passou por improdutivas reformas e limitadas ampliações, custeadas pelos cofres provinciais. Mesmo assim a instituição continuava sendo considerada de grande utilidade, porém não seria possível omitir sua condição de deficiente.

No final desta fase, o Hospital já dispunha de seis enfermarias e uma residência funcional para o Médico Administrador, Dr. Porciúncula, e Petrópolis já contava com vários médicos que atendiam à população em caráter particular.

Assistência Social - No final desta fase a Caixa de Socorro Mútuo começou a dar sinais de debilidade, devido à substancial redução das receitas provenientes das doações e do recolhimento das taxas de confirmação de aforamentos. Em decorrência disso, os "socorros" prestados diminuíram consideravelmente e a reserva em caixa ficou abaixo de 500$000.

Instrução - Na gestão Jacyntho Rebello foi dada partida ao processo de nacionalização da instrução colonial, com a criação pelo Governo Provincial, a 14.IV.1856, de uma "escola para ensino da língua nacional aos filhos dos colonos".

Com mais essa escola, a rede pública voltou a contar com seis unidades.

Quanto à instrução particular, os grandes estabelecimentos, tais como, "Collégio Kopke", "Collegio Callógeras" e o "Collégio de Madame Diemer", para meninas, continuaram em franco progresso. E mais um estabelecimento para meninas, o "Collégio de Madame Kramer", iniciou suas atividades. Em contrapartida, o "Collégio do Professor Jacyntho Augusto de Mattos", para meninos, deixou de funcionar.

Quarteirões e Caminhos Coloniais - No início do segundo trimestre de 1857, Petrópolis apresentava o desenvolvimento equivalente ao de uma cidade de médio porte do Império. Até então, vinha mantendo a subdivisão - duas Villas e vinte e um Quarteirões - que fora estabelecida nos dez primeiros anos de Colônia.

Muitos colonos, bem como os demais imigrantes, sentindo quanto tinham sido valorizados os seus primitivos prazos, decidiram vendê-los e adquirir outros mais distantes, porém mais baratos e bem maiores. Nessas novas propriedades eles poderiam instalar chácaras e explorá-las em paralelo às suas atividades principais, dedicando-se às pequenas plantações e criações de subsistência, deixando essas tarefas a cargo de seus familiares.

Rapidamente, todos os Quarteirões foram sendo mais densamente ocupados, o que exigiu a melhoria dos Caminhos Coloniais de acesso, visando a capacitá-los para o tráfego de carroças.

Nesse sentido, Jacyntho Rebello promoveu grandes melhoramentos em todos os Caminhos Coloniais que incluíam desde o empedramento leve até a macadamização.

Além disso, abriu os Caminhos Coloniais de Interligação do Quarteirão Brasileiro ao Woerstadt, do Quarteirão Presidência ao Rhenania Central, do Quarteirão Brasileiro ao Mosella, Quarteirão Francez ao Suisso e do Quarteirão Suisso à Cascata do Itamaraty.

Implementação Urbana - No segundo trimestre de 1857 todas as ruas da Villa Imperial estavam sendo substancialmente melhoradas, através de macadamização ou empedramento mais elaborado. A pedreira que impedia o prosseguimento das pistas e do canal da Rua do Imperador, além da esquina da Rua de Paulo Barbosa, foi finalmente demolida, possibilitando a complementação do projeto inicial, incluindo a retificação do canal e a colocação de pavimentação definitiva. (1)

(1) - Obra essa que contou com a participação das equipes de Mariano Procópio que estavam sendo empregadas na construção da Estrada União e Indústria.


Os demais canais de Villa Imperial foram desobstruídos e a contenção de suas laterais, inicialmente através de "faxinas", foram substituídas por "muralhas". As novas pontes e aquelas restauradas, já estavam sendo construídas pelo "processo misto", com robustos pegões de alvenaria e estrutura em madeira, seguindo o modelo da ponte da Praça do Imperador, na confluência do Rio Palatino com o Rio Quitandinha.

Todo o segmento de ligação da Estrada União e Indústria à Estrada Normal da Estrella, no trecho entre a Ponte do Retiro e o Alto da Serra, constituído pela Rua da Westphallia, Rua dos Protestantes, Rua de D. Maria II, Rua da Imperatriz, Rua do Imperador, Rua de D. Januária, Rua de Aureliano e Rua Thereza estava sendo preparado para receber macadamização, conforme os mais modernos requisitos técnicos da época. Também, estavam sendo preparadas para esse tipo de macadamização as ruas dos Mineiros e dos Artistas (lado direito).

E prosseguiam, ainda, as obras de acabamento e nivelamento das duplicações das ruas de D. Affonso, de Bragança e dos Artistas (lado esquerdo).

Edificações Particulares - No final de 1855, Petrópolis já possuía 909 prédios residenciais prontos e mais 31 em construção. Desse total, existiam 14 casas nobres, 227 de alvenaria (58 cobertas com telhas, 18 com lousa, 151 com tabuinhas), 194 de pau-a-pique (61 cobertas com telhas e 133 com tabuinhas). No final de 1856, o total de residências particulares prontas subiu para 947, com mais 21 unidades em construção.

Cemitério Público - Uma vez ultimadas as negociações para ocupação dos prazos destinados ao Cemitério Público de Petrópolis, o terreno foi nivelado, cercado e preparado para as suas finalidades. Durante a "epidemia de cólera" foi autorizada a utilização de uma pequena área para sepultamento das vítimas.

No ano de 1856 foi aberto um Caminho Colonial de Interligação da Praça de Nassau ao Quarteirão Presidência, o qual cruzava o Cemitério Público.

Matadouro Público - Toda a área prevista para atender ao serviço de abate de gado foi nivelada, macadamizada e cercada. E para o seu acesso foi construída, sobre o Rio Piabanha, nas proximidades do "Marco da Westphallia", uma grande ponte de madeira, apoiada em pegões de alvenaria. As instalações, propriamente ditas, do Matadouro foram edificadas em caráter provisório e constavam de um grande galpão de madeira, subdividido em quatro seções.

O Matadouro Público de Petrópolis - provisório - foi inaugurado por Jacyntho Rebello em 13.II.1857.

Abastecimento Público de Água - Jacyntho Rebello inaugurou em 6.I.1857, o Sistema de Abastecimento Público de Água do Centro de Petrópolis, constituído por seis pontos de fornecimento direto de água potável, localizados no Quartel da Província, na Rua do Imperador, na Rua de D. Januária, na Rua de D. Francisca, na Praça do Imperador e no terminal do sistema, constante do Chafariz da Praça Municipal.

No decurso do ano de 1857, teve início a concessão de penas d'água, sendo as duas primeiras, ligadas para o Imperial Palácio de Verão e quatro outras para residências particulares.

Correio - Não houve qualquer alteração significativa nesse setor.

Telégrafo - A 1.VIII.1857 foi implantado o Serviço Telegráfico entre o Rio de Janeiro e Petrópolis. A Estação de Telégrafo foi instalada numa sala, especialmente construída no Quartel da Diretoria da Colônia. Para a época este foi um acontecimento memorável.

Agricultura, Indústria e Comércio - Jacyntho Rebello executou uma criteriosa e ampla análise sobre os setores produtivos da Colônia e suas perspectivas, chegando à conclusão que as reais possibilidades de desenvolvimento da Colônia somente poderiam ser consideradas efetivas - face à "disposição e índole dos colonos germânicos de Petrópolis" - através do "estabelecimento da Colônia Fabril" e que a atividade agrícola se concentrasse nas culturas que pudessem "concorrer para a indústria fabril", tais como "mamona, camélia indígena, outras plantas oleaginosas, chá-da-índia e café". Sugeriu a implantação de "fábricas de marcenaria e vidros e a extração e manipulação de potassa, todas com insumos locais abundantes". Sugeriu, ainda, "fábricas de tecidos utilizando o algodão de Minas Gerais". Acentuou o potencialidade industrial de Petrópolis, tendo em vista a "abundância de fontes de energia hidromotriz, a privilegiada posição em relação às principais vias do Império e a natureza específica da mão-de-obra colonial".

Jacyntho Rebello notou uma retração no comércio local, motivada pela "epidemia de cólera, pela pesada carga tributária e pelas condições gerais do País". Essa análise apresentada por Jacyntho Rebello não foi inédita, tendo sido, em parte ou quase totalmente, expressa por quase todos seus antecessores. Porém o que nos chamou atenção foi sua clareza e objetividade, além de oferecer sugestões bastante concretas.

Com a chegada dos trilhos da Estrada de Ferro de Petrópolis à Raiz-da-Serra, a concessionária estabeleceu um serviço de transporte de cargas em carroças, ligando o Alto-da-Serra à ferrovia. Assim, Petrópolis passou a ser um grande centro de consolidação de cargas de café e de outros produtos provenientes do interior.

Além de seis bons hotéis, Petrópolis dispunha de quase oitenta estabelecimentos comerciais e oficinas.

Cultura, Artes e Viajantes Ilustres - No final de 1856 o setor cultural de Petrópolis desabrochou de vez. Várias entidades ligadas às artes surgiram, por assim dizer, espontaneamente, dentre elas a "Sociedade Dramática Talia" e o "Teatro Petropolitano", sendo que a "Escola de Música de Petrópolis" estava prestes a ser inaugurada.

E, em 3.III.1857, ocorreu o lançamento de o "Mercantil", o primeiro periódico da, ainda, Povoação-Colônia que tornar-se-ia a glória da imprensa petropolitana. Sem dúvida, seu fundador, o imigrante Bartholomeu Pereira Sudré, era o mais lídimo representante do povo petropolitano nessa fase de emancipação e nas lutas pelo engrandecimento de Petrópolis que, fatalmente, teriam de ser enfrentadas posteriormente. Essa foi a síntese do compromisso assumido por Sudré no editorial da edição inaugural. O "Mercantil" também foi o catalisador do jornalismo local, estimulando o lançamento, em breve, de dois outros periódicos.

Outro acontecimento memorável para Petrópolis e mais um sinal da maturidade de seu povo, ocorrido no final dessa fase, foi a instalação da "Sociedade Alemã de Agricultura e Indústria".

Imperial Fazenda de Petrópolis - Jacyntho Rebello vinha exercendo o cargo de Superintendente da Imperial Fazenda de Petrópolis desde maio de 1853 e, a partir de 27.III.1855, passou a exercer, cumulativamente, o cargo de Diretor da Imperial Colônia de Petrópolis, situação que lhe conferiu grande flexibilidade na gestão desse dois órgãos.

Assim ele pôde dar prosseguimento, com grande desenvoltura, à Medição Judicial da Imperial Fazenda de Petrópolis que fora iniciada em 7.VIII.1854.

Em 25.VI.1855 tal operação foi concluída com a cravação de todos os marcos divisórios. Essa demarcação deu origem a cinco reclamações quanto aos seguintes limites:

entre a Fazenda Quitandinha e a propriedade de Joviano Varella na Serra da Taquara;

entre a Fazenda Quitandinha e a propriedade de Carlos José Moreira Barbosa (Fazenda Mato Grosso, na Serra da Mantiquira);

entre a Fazenda Morro Queimado e a propriedade de Da. Feliciana Angélica Rodrigues (Fazenda do Inglez);

entre a Fazenda Itamaraty e a propriedade de José Teixeira de Lemos; e

entre a Fazenda Morro Queimado e a propriedade de Thomaz Gonçalves Dias Correa da Silva Goulão, Fazenda Engenhoca (ex-Retiro de São Thomaz e São Luiz).

Todas as quatro últimas pendências foram resolvidas consensualmente e o embargo levado a juízo por Joviano Varella foi derrubado em primeira instância.

E em cumprimento ao Artigo 91, Capítulo IX do Regulamento de 30.I.1854 - baixado em decorrência da Lei nº 601 de 18.IX.1850 - as terras da Imperial Fazenda de Petrópolis foram registradas no Cartório Eclesial da Freguesia de São Pedro de Alcântara, como "Patrimônio e Domínio de SM o Imperador".

Área Territorial da Colônia - No final desta fase, o Território da Imperial Colônia de Petrópolis assumiu a forma e dimensões definitivas, cobrindo uma área de, aproximadamente, 20.000.000 braças quadradas, parcialmente coberta pelas 23 subdivisões, constituídas pela Villa Imperial, Villa Thereza e pelos Quarteirões Rhenania Inferior, Rhenania Central, Rhenania Superior, Worms, Inglez, Simmeria, Castellania, Palatinato Inferior, Palatinato Superior, Suisso, Francez, Westphallia, Brasileiro, Nassau, Mosella, Woerstadt, Darmstadt, Bingen, Ingelheim, Presidência e Princeza Imperial.

Os Ideais da Emancipação de Petrópolis - Como vimos nos dois Capítulos anteriores, os primeiros sinais do "despontar dos ideais de emancipação de Petrópolis", começaram a tomar corpo por volta de 1853.

Entendemos que tal aspiração era espontânea e, de forma alguma, poderia configurar qualquer atitude antagônica a SMI e prejudicial à Imperial Fazenda ou à Colônia em si.

A priori, seria presumível a coexistência harmônica e ordenada entre qualquer Colônia e uma Povoação, Villa ou Cidade à qual estivesse vinculada. E isso estava no espírito da Lei nº 226 de 30.V.1840 que regia esse assunto. Vejamos o que era dito no 1º Parágrafo do Artigo 1º: "Que na ocasião que se fizerem engajamentos de colonos lhes serão garantidas porções de terras nas proximidades das cidades, villas ou povoações da Província, para as possuírem como suas, mediante um módico e perpétuo foro e laudêmio, no caso de venda, segundo a regra dos prazos fateosins".

Na concepção original do Plano Koeler, a Povoação, criada pelo Imperial Decreto nº 155 de 16.III.1843, deveria abranger apenas a área ocupada pela Villa Imperial e pela Villa Thereza.

E como área Colonial deveria ser considerado todo o espaço restante da Imperial Fazenda do Córrego Secco, prevista para ser subdividida em Quarteirões. Com a criação da Imperial Fazenda de Petrópolis, em 1846, a "área colonial propriamente dita", tornou-se flexível, através da possibilidade de sofrer ampliações decorrentes de anexações de novas terras.

Mas a Povoação de Petrópolis, que mal completara dez anos, já ostentava um porte de Villa ou, até mesmo, de Cidade. E a acelerada expansão urbana avançava sobre os Quarteirões.

Realizações como a "Praça Municipal", a organização da "Mesa Paroquial", a concretização dos "Serviços Públicos Básicos" e as reivindicações oficiais de Albino de Carvalho e Jacyntho Rebello retrataram a expectativa desse burgo, que já se sentia maduro e com aspirações, cada vez, mais ousadas.

A ação do Major-ICE Amaro Emílio da Veiga em Petrópolis, decorrente dos seus encargos junto aos empreendimentos do mais poderoso empresário do Império - Irineu Evangelista de Souza - merece ser muito mais bem avaliada.

Até hoje não se sabe se ele trouxera de fora essa missão, ou se ele teria desenvolvido, espontaneamente, esse ideal da emancipação de Petrópolis e desencadeado o processo para a consecução de tal propósito.

Sabemos apenas que, a partir de 1854, ele passou a residir na Povoação-Colônia (2) e, logo depois, foi eleito - o mais votado - Juiz de Paz, prova de que participou efetivamente da fase embrionária da Política Petropolitana.

(2) - O prédio pertencente ao Comendador Câmara, situado no prazo nº 126 da “Praça Municipal”, foi ocupado por Irineu E. de Souza, a fim de estabelecer uma base para sua empresa entre Parahyba do Sul e Mauá.


Sabemos também que sua participação como Deputado na Sessão Anual da Assembléia Legislativa Provincial, aberta em 1.VIII.1856, foi decisiva para Petrópolis. No dia 6.VIII.1856 ele deu entrada a um Projeto de Lei, propondo a elevação de Petrópolis à categoria de Cidade. Ao mesmo tempo estava tramitando outro processo referente à elevação de Vassouras e Valença à categoria de Cidade.

No decurso das discussões sobre ambas proposições, Amaro Emílio da Veiga teria optado pela introdução de uma emenda ao projeto da elevação de Vassouras e Valença, incluindo Petrópolis em seu texto. E esse projeto modificado foi aprovado na Sessão Plenária de 7.X.1856, porém foi vetado pelo Presidente da Província.

Sobre tal atitude o próprio Presidente Luiz Antonio Barbosa assim se pronunciou: "Não pude sancionar a proposição da Assembléia Legislativa Provincial de 7 de outubro do ano passado, pelos motivos oportunamente apresentados. Continuo porém a pensar que é uma necessidade pública a dar-se a categoria e os direitos de Villa ou Cidade à Povoação de Petrópolis".

Mas os ideais de emancipação não morreram ali. Amaro Emílio da Veiga estava decidido a continuar a luta na próxima Sessão Anual da Assembléia Legislativa.

E, antes de terminar o primeiro trimestre de 1857, surgiu uma valioso aliado seu que foi o recém-inaugurado periódico "Mercantil". O seu Diretor, Bartholomeu Pereira Sudré, apesar de monarquista autêntico, era partidário convicto da campanha de emancipação de Petrópolis.

Acreditamos que, ao término da gestão de Jacyntho Rebello, o movimento pela emancipação de Petrópolis já tivesse atingido o seu auge.

Vias de Interesse para Petrópolis - Várias realizações importantes para Petrópolis ocorreram durante a gestão em pauta.

Estrada União e Indústria - Em março de 1856, o Projeto da Estrada União e Indústria foi estendido ao Território Fluminense, mediante um acordo tripartite, celebrado entre o Governo Imperial, Província do Rio de Janeiro e o empresário Mariano Procópio Ferreira Lage. Através desse ato, ficou estabelecida a construção - nos mesmos moldes previstos no Decreto Imperial de 28.VIII.1852 - de um novo segmento da supracitada rodovia, que teria início na Imperial Colônia de Petrópolis e deveria chegar à Ponte de Parahybuna, passando por Três Barras. No dia 11.IV.1856, SMI D.Pedro II, o Vice-Presidente, no exercício da Presidência, Dr. Mello Franco e o empresário Mariano Procópio visitaram o local onde estava sendo aberta a picada-base da planejada estrada. No dia seguinte, 12.IV.1856, foi celebrado o início da construção da mais moderna estrada do Império. Esse fato, além de sua importância com vistas às boas perspectivas econômicas para Petrópolis, significou a certeza de que o predestinado Piabanha, finalmente, recuperaria o seu papel de "legítimo penetrador para Minas Gerais", não mais na miraculosa fase do Ciclo do Ouro, porém em pleno Ciclo Ouro Verde.

Estrada Normal da Estrella - A 25.I.1857, a Presidência da Província informou que todas "as obras da Estrada Normal da Serra da Estrella de Petrópolis ficaram completamente terminadas" e que "a obra de macadamização ficou bem acabada, e atesta o zelo do engenheiro que a dirigiu, o Major Sérgio Marcondes de Andrade".

Ligação Viária com Paty do Alferes - Nos primeiros dias de 1856, Jacyntho Rebello designou o Engenheiro Otto Reimarus para construir uma Picada - citada oficialmente pelo predicativo de "Picada Nova" - prevista para ligar Petrópolis a Paty do Alferes. O ponto de partida escolhido foi o final do Caminho Colonial do Quarteirão Woerstadt, onde tinha início o Caminho de Interligação com o Quarteirão Mosella, no local onde o Rio Piabanha infletia bruscamente em direção das suas nascentes, entre a Serra Negra e a Pedra do Retiro. A primeira etapa desse projeto estava prevista para atingir o sopé da Serra da Boa Vista, situado no flanco oposto da "garganta da Vargem Grande". Daí por diante, a Picada deveria seguir a direção geral do roteiro traçado por Malthe-Daun, mencionado no Capítulo anterior. As obras de abertura foram iniciadas no mês de março e SMI D.Pedro II fez uma visita ao local no dia 14.IV.1856. No final do ano em curso, já estava concluído um trecho com 4.500 braças (9,9 km) de extensão e os trabalhos prosseguiram em ritmo acelerado até maio de 1857.

Estrada Geral da Estrella - Em maio de 1857, os serviços de melhoramento e manutenção da Estrada Geral da Estrella, entre Pedro do Rio e Parahybuna, contratados com o empresário Mariano Procópio Ferreira Lage, foram concluídos. O trecho entre Parahyba e Parahybuna foi melhorado e alargado, tendo sido executados os desvios do Pegado e de Pampulha. O ponto mais crítico dessa estrada - a travessia do Rio Parahyba por barcaças - estava prestes a ser eliminado. As obras de construção da Ponte de Parahyba do Sul, a cargo da Empresa do Barão de Mauá, já estavam em vias de conclusão, faltando apenas a última das cinco seções de aço que estruturavam a pista de rolamento. O término da obra estava previsto para o final de 1857.

Estrada de Ferro de Petrópolis - No dia 15.IV.1856 foram realizadas, na Imperial Fábrica de Pólvora da Estrella, experiências com o "Sistema Milligan para Carris em Subidas Inclinadas", visando à possibilidade de seu emprego no terceiro trecho da ferrovia em pauta, entre a Raiz da Serra e Petrópolis. Tal sistema, que usava jato sólido de água para propulsão, não foi aprovado.

Em 16.XII.1856 foi inaugurado o segundo trecho - 1,8 km - da Estrada de Ferro de Petrópolis que se estendia da localidade de Fragoso até a Raiz da Serra, numa distância itinerária de 1,8 km. O percurso total dessa ferrovia perfazia a distância itinerária de 16,3 km.

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