Ensaio entregue pelo autor a 20/01/2006 para inclusão no site, dividido em partes conforme melhor fosse.

PETRÓPOLIS - A SAGA DE UM CAMINHO (13)
Gênese e Evolução do Território Petropolitano


Carlos Oliveira Fróes

Capítulo 14

Fase Galdino Pimentel

Síntese da Gestão - A 17.IX.1847, o Tenente Coronel-ICE Galdino Justiniano da Silva Pimentel tomou posse no cargo unificado de Diretor da Imperial Colônia de Petrópolis e Diretor das Obras da Estrada Normal da Estrella, em cumprimento ao Artigo 1º da Deliberação de 16.IX.1847.

Isento das pressões políticas, administrativas, étnicas e religiosas, o novo Diretor pôde concentrar toda a sua capacidade profissional - que não era pouca - em prol da consolidação da "Imperial Colônia".

Atuando há longo tempo no setor de Obras Viárias da Província do Rio de Janeiro, cujos dois últimos anos foram nas Obras da Estrada Normal da Estrella, ele estreitara uma harmoniosa e profícua relação com seu antecessor, o que seria uma garantia para a não interrupção do ousado plano de colonização serrana, concebido por Koeler.

A ação administrativa de Galdino Pimentel caracterizar-se-ia pela firmeza, serenidade e controle, atributos esses altamente convenientes, em face das últimas ocorrências.

O primeiro desafio que enfrentou foi a regularização contábil em cada um de seus encargos e a redefinição das tarefas específicas que deveriam competir à Província - Obras Coloniais e Obras da Estrada Normal da Estrella - e aquelas pertinentes à Superintendência da Imperial Fazenda de Petrópolis. (1)

(1) - Deficiência apontada no caput da Deliberação de 16.IX.1857.


Quanto aos débitos provenientes da gestão de Koeler, esse Diretor recebeu instruções superiores, no sentido que só deveria assumir a responsabilidade pelas despesas - empenhadas durante a gestão anterior - relativas às Obras Coloniais e as da Estrada Normal da Estrella que estivessem devidamente especificadas nas respectivas consignações orçamentárias de cada setor.

Assim sendo, quantias vultosas que haviam sido empregadas na gestão de Koeler para custeio do Hospital, Caixa de Socorro e de outras obras prementes não foram avalizadas e, conseqüentemente, repassadas para a Superintendência.

E a Mordomia da Imperial Casa, implacavelmente, imputou ao espólio de Koeler a responsabilidade pelo ressarcimento, levando o caso aos tribunais.

Essa atitude do Mordomo Velho da Silva evidenciou a sua insensibilidade em relação à obra daquele que fez "até o impossível" para tornar exeqüível a "Povoação-Colônia", luta essa na qual Koeler consumiu quase tudo aquilo que conseguira amealhar com o fruto do seu trabalho. E o pouco que sobrou para seus herdeiros seria arrestado brevemente. (2)

(2) - Detalhes mais completos sobre este assunto podem ser encontrados na obra constante da Ref. 2 das Fontes Bibliográficas.
2. ABREU, J. Isaias da Costa. "Koeler".


O que mais surpreende é que tal situação não foi plenamente elucidada na época oportuna no âmbito da Imperial Casa, postura extremamente simplística que, infelizmente, daria margem a uma interminável série de especulações, altamente prejudiciais à imagem de Koeler e ao resgate da memória histórica petropolitana relativa a tão importante fase.

Em contrapartida, o procedimento adotado por Galdino Pimentel para regularizar a "escrituração da Caixa de Socorro", além de extremamente eficaz, desenvolveu-se em clima de austeridade e dignidade absolutas.

Pelo fato de não estar dirigindo, cumulativamente, a Superintendência da Imperial Fazenda, ele perdeu grande parte da flexibilidade de que dispunha a administração anterior, mas, dentro do possível, tal problema foi minimizado pelo bom entendimento que estabelecera com o Superintendente Cirne.

Durante sua gestão, Galdino Pimentel não demonstrou qualquer envolvimento político, local ou provincial, mais intenso. Tampouco, teceu críticas à situação em que Petrópolis fora estruturada, limitando-se a cumprir ao pé da letra o que estipulava o "Regulamento da Imperial Colônia de Petrópolis".

Em 15.X.1850, o Governo Provincial atendeu a um pedido seu de afastamento do cargo de Diretor da Colônia - ao que tudo indica temporário - sob alegação de motivo de saúde. A partir daí, passou a responder pelo cargo o Engenheiro Civil José de Azeredo Coutinho, pertencente ao Quadro de Funcionários da Diretoria, o qual vinha dirigindo, desde 1847 e com grande empenho e proficiência, o Setor de Obras Coloniais.

Desconhecemos até agora qualquer Ato Oficial referente a essa alteração. Apenas, encontramos nos Relatórios de Presidentes da Província alusões relativas ao caráter de interinidade na gestão de Azeredo Coutinho.

Registramos, por mais de uma vez nesse período, consultas oficiais feitas a Galdino Pimentel a respeito das "obras da Serra da Estrella", evidenciando que ele apenas se afastara da Direção da Colônia, ficando mantido seu vínculo com a repartição responsável por tais tarefas.

A profícua atuação do Diretor Galdino Pimentel, durante pouco mais de três anos de efetividade, estendeu-se por todos os setores vitais da "Imperial-Colônia", conforme poderemos apreciar através dos tópicos específicos que serão apresentados a seguir.

Assistência Religiosa - Entendendo quão delicado era o problema religioso para os colonos germânicos católicos, Galdino Pimentel não perdeu tempo e empenhou-se decisivamente para apressar a vinda do Pe.Germânico - Católico - Franz Anton Weber que estava, há alguns meses no Rio de Janeiro, aguardando sua designação para Petrópolis.

Todas as celebrações natalinas de 1847 foram assistidas pelo Pe. Weber e no dia 7.I.1848 foi realizada uma missa no local onde estava sendo edificada a Capella da Imperial Fazenda de Petrópolis, na Rua da Imperatriz. O oficiante foi o Pe. Weber e a cerimônia contou com a presença da Família Imperial.

Enquanto aguardava o resultado de mais uma tentativa para contratação de um Pastor Evangélico Germânico, Galdino Pimentel conseguiu que o Dr. Julius Friedrich Lippold - Médico, Professor e Pastor Praticante - continuasse prestando oficiosamente assistência religiosa aos colonos evangélicos de Petrópolis, o que já vinha fazendo desde sua chegada, na gestão de Koeler.

No dia 8.X.1848, em cumprimento à Portaria de 6.X.1848, a Capella da Imperial Fazenda de Petrópolis foi homologada como Capella Curada e entregue ao Pe. Franz Anton Weber.

Entretanto, o Diretor da Colônia não se descuidara da comunidade evangélica. Por suas injunções, em 19.VI.1848, o Dr. Julius Friedrich Lippold foi nomeado "Cura dos Evangélicos de Petrópolis (sic)" .Logo após, Galdino Pimentel mandou reformar as instalações do Quartel da Província que, até então, tinham sido utilizadas pelos colonos católicos nas reuniões relativas ao seu culto. Assim que a reforma foi concluída, as instalações foram cedidas ao "Cura Evangélico".

Durante toda a gestão de Galdino Pimentel, tanto o Pe. Weber como o Pastor P. Lippold assistiram com grande proficiência e harmonia aos membros de suas comunidades.

O Pe. Luiz Gonçalves Dias Correa da Silva Goulão, Vigário da Vara Eclesial de S. José do Rio Preto e Vigário da Freguesia de S. Pedro de Alcântara, continuou assistindo, informalmente, a seus "fregueses" na Capella Particular de Nossa Senhora da Conceição de Samambaia, a qual, segundo Frei Estanislau Schaette, não teria sido oficializada pela Administração Eclesial da Província. Enquanto isso, devido à inexistência de uma Igreja compatível a uma Sede Paroquial, a Freguesia de São Pedro de Alcântara de Petrópolis não poderia ser erecta na natureza de Perpétua.

A paz que reinou no setor religioso da Colônia, durante a Fase Galdino Pimentel, deveu-se principalmente aos seus méritos pessoais, à colaboração prestada pelo Pe. Weber e pelo Pastor Lippold, bem como à postura resignada e diplomática do Pe. Luiz.

Assistência Médico-Hospitalar - O Hospital da Colônia, que até o final de 1849 se mantivera instalado no Quartel de Bragança, começou a dar sinais de insuficiência quanto à precariedade das suas instalações, aumento considerável da clientela, falta de recursos orçamentários e troca freqüente dos dirigentes.

Em atendimento aos apelos de Galdino Pimentel, a Província reconheceu o Hospital como Casa de Caridade, para a qual foi destinada uma consignação anual de 5:000$000.

Dentro da nova estruturação, o Hospital de Petrópolis foi entregue à administração do conceituado Dr. Antônio Pereira de Barros.

Assistência Social - Ante os desagradáveis acontecimentos do final da Fase Koeler, a Caixa de Socorro Mútuo entrara em colapso. Logo após ter assumido a Direção da Colônia, Galdino Pimentel determinou que fosse intensificado o prosseguimento da reconstituição da escrituração contábil da instituição, o que somente seria alcançado, com grandes dificuldades, em meados de 1748. Assim, foi constatado um alcance de, apenas, 2$200, cuja responsabilidade foi imputada ao ex-Tesoureiro Francisco Alves de Britto Maia.

Porém, configurou-se um problema bem mais sério, quando foi detectado o não recolhimento à Caixa de uma elevada quantia, superior a 2:000$000, proveniente da cobrança das taxas de confirmação de aforamentos.

Entendemos que Koeler estivesse gerindo essa quantia num fundo especial, controlado por ele próprio, com a finalidade de construção das capelas católica e evangélica, obras essas previstas no Artigo 1° do Regulamento da Caixa. E como prova disso, dentre os objetos pessoais de Koeler, foi encontrada uma "Caderneta" onde estavam registradas todas as cobranças de taxas - "luvas" - efetuadas por ele, as quais perfaziam um total de 2:280$0000. (3)

(3) - Devido à delicada situação Clero-Estado nessa fase do Império, tal hipótese somente poderia ser confirmada no caso de que essa questão estivesse se desenvolvendo no mais absoluto sigilo, a fim de afastar qualquer impressão de um possível comprometimento por parte de SMI.


E, ao que tudo indica, o próprio Imperador estaria ciente da existência de tal "fundo".

Dados colhidos em Registros Evangélicos Informais permitem admitir que SMI D.Pedro II, em meados da Década de 60, teria autorizado oficiosamente a utilização de recursos do "fundo em tela" para custeio da construção do Templo Evangélico no Prazo N° 1-IFP, na Rua do Imperador, o qual já estaria com as fundações levantadas, desde 1847. 

Evidentemente, essa postura do Imperador, caso pudesse ser confirmada, teria de ser mantida sob o mais absoluto sigilo, em prol da harmonia com o Setor Eclesial.

Nos Exercícios de 1849 e 1850 a Caixa de Socorro funcionou normalmente e com sua escrituração em dia, apresentando um saldo positivo.

Instrução - Pouco tempo após a posse de Galdino Pimentel, registrou-se um auspicioso fato na Colônia, marcado pela chegada à Petrópolis do empresário e engenheiro teuto-português, Guilherme Kopke, cuja missão era construir um majestoso prédio escolar, o primeiro edifício com três andares de Petrópolis, o qual fora encomendado por seu irmão, o Dr. Henrique Kopke que estava residindo em Sabará. Para atender a essa finalidade, foi comprada ao colono Guilherme Monken, a parte frontal do Prazo nº 620 da IFP, situado na esquina do Caminho Colonial de Nassau (4), na altura do seu ponto de encontro com o Piabanha. O projeto de arquitetura foi inteiramente elaborado por Guilherme Kopke, tendo ele mesmo dirigido a construção. As obras foram iniciadas nos primeiros dias de 1848 e concluídas no final do ano seguinte.

(4) - O Caminho Colonial de Nassau principiava na Praça de Nassau (hoje Praça Oswaldo Cruz), situada no final da Rua dos Artistas, e terminava na Praça de Koblenz.


Com o nome de "Collégio de Petrópolis", tal estabelecimento foi inaugurado em 1.I.1850. E, sob a direção do Professor Dr. Henrique Kopke, tornou-se "o primeiro collégio particular da Colônia" destinado à Instrução Primária e Secundária para alunos do sexo masculino, estando previsto em seu Estatuto o emprego dos mais modernos métodos de ensino utilizados na Europa. O seu Corpo Docente foi constituído por profissionais selecionados dentre os mais competentes professores da Corte.

Ainda no ano de 1850, foi fundado, sob a direção do Professor Callógeras, o segundo colégio particular, destinado a ministrar Instrução Secundária, para meninos, o qual foi instalado no grande prédio residencial, pertencente a Honório Hermeto Carneiro Leão Filho, situado no Prazo nº 2.111 da ICP, no Quarteirão Palatinato Inferior.

Quanto à instrução pública, verificou-se no exercício de 1849 o fechamento de duas das seis escolas primárias em funcionamento na Colônia, no intuito de reduzir, pouco a pouco, a instrução, exclusivamente, em língua germânica.

Quarteirões e Caminhos Coloniais - No final da Fase Koeler, o número inicial de onze Quarteirões, já havia sido acrescido de, pelo menos, outros quatro: Rhenania Superior, Suíço, Francez e Presidência.

E no final da fase Galdino Pimentel já estavam ativados mais cinco Quarteirões: Brasileiro, Woerstadt, Darmstadt, Worms e Princesa Imperial.

Essa divisão territorial da Colônia, constituída por duas Villas e vinte e um Quarteirões, não sofreria mais nenhuma alteração durante os próximos dez anos. No Plano de Koeler não estavam previstas ruas para os Quarteirões e, tampouco, uma estrutura urbana mais evoluída. Para acesso e circulação viária dessas divisões foram projetados Caminhos Coloniais - apenas um para cada Quarteirão - nos quais todos os prazos deveriam fazer testada, não havendo possibilidade da existência de vias transversais. E, apenas seria admitida a abertura de servidões, exclusivamente para acesso às possíveis subdivisões dos prazos.

Assim, os Caminhos Coloniais foram abertos conforme as necessidades de ocupação e, gradativamente, receberiam melhoramentos e readaptações até tornarem-se ruas ou estradas, conforme a natureza de suas utilizações futuras. Não estava previsto que as servidões fossem transformadas em ruas.

Dessa forma, cada Quarteirão, no momento em que fosse ativado, forçosamente, já deveria dispor de sua via de acesso específica, isto é, um Caminho Colonial.

Em sua gestão, Galdino Pimentel mandou construir o Caminho Colonial do Quarteirão Presidência e o Caminho Colonial do Quarteirão Westphalia, sendo que este último já foi preparado para o tráfego de carros de tração animal.

Também chamamos a atenção para o fato de que nem todos os Caminhos Coloniais mantiveram-se nessa categoria por longo período. Mais tarde, muitos deles tornaram-se ruas, quando o processo de urbanização se estendeu além dos limites das duas Villas.

Implementação Urbana - No presente Ensaio, a apreciação criteriosa sobre a implementação urbana da Colônia só se tornou viável a partir de 1847, quando a Província sistematizou a conduta para elaboração dos Relatórios Anuais dos órgãos subordinados.

Contudo, adiantamos que não será possível descrever, integralmente e passo a passo, o desenvolvimento de todas as obras realizadas.

Apenas mostraremos alguns pontos mais significativos julgados indispensáveis ao entendimento global do processo de formação da "Povoação" e da "Imperial-Colônia" que estava embutida nela.

E esta sistemática será adotada para todas as fases administrativas subseqüentes.

No triênio em curso, Galdino Pimentel, que dispunha de um excepcional Encarregado das Obras Provinciais, o Engenheiro Civil José Luiz de Azevedo Coutinho, completou a implantação da base da estrutura urbana da área planejada para instalação da Villa Imperial e da Villa Thereza, tarefa que fora iniciada em 1845. Além disso, deu forte impulso às obras de abertura e manutenção dos Caminhos Coloniais. Com relação às ruas principais que se desenvolviam ao longo dos rios, dedicou-se às suas complementações, através do aperfeiçoamento da abertura e retificação dos canais, construindo "faxinas de proteção e muralhas de contenção".

Ao mesmo tempo em que as vias laterais eram alteadas por meio de aterros, ou niveladas por "cavas", foi dado inicio à compactação das pistas de rodagem, nas quais foi tentado um processo de "macadamização simplificada", constante de empedramento com saibro e areia, pelo "método alemão", introduzido por Koeler.

Ao final do triênio, já estavam compactadas - macadamizadas ou empedradas - as Ruas da Imperatriz, Paulo Barbosa, do Honório, de D. Maria II, de D. Affonso, de D. Januária, de D. Francisca e a do Imperador, cujo prolongamento adiante da Rua de Paulo Barbosa - ex-Rua do Mordomo - ainda dependia da remoção de um grande bloco de granito que, também, impedia a abertura do canal de retificação do Rio Palatino. Essa era a mesma pedreira que, em junho de 1845, determinara a modificação da locação do Imperial Palácio de Verão. E estavam em processo final de abertura as Ruas de Bourbon, dos Protestantes e dos Artífices. Com a abertura, em 1858, da via de interligação da Rua de Joinville aos Caminhos Coloniais dos Quarteirões Nassau e Westphalia - embrião da Rua dos Protestantes - foi cancelada a abertura da Rua dos Engenheiros, projetada para ligar a Rua de D. Affonso à Praça de Coblenz.

Edificações Particulares - No início de 1850, Petrópolis já contava com 696 edificações particulares, algumas das quais de grande porte como, o Collégio de Petrópolis, o Hotel de Bragança, o Hotel Suísso, o Hotel de França, o Hotel do Inglês, a casa do comendador Pedro José da Câmara, a casa de Honório Hermeto Carneiro Leão Filho - alugada para instalação do Collégio do Professor Callógeras - e mais duas grandes casa residenciais.

Das edificações restantes, havia algumas dezenas de prédios menores, em alvenaria, enxaimel ou pau-a-pique, cobertos com telhas, tabuinhas ou zinco, destinados às moradias dos "colonos e extracolonos".

Sobre a evolução qualitativa das habitações dos colonos que se verificara nos últimos quatro anos, assim se expressou Galdino Pimentel: "grande número de palhoças informes, que a necessidade havia feito construir nos diversos quarteirões desta colônia, estão hoje transformadas em casas de bela aparência, cobertas com tabuinhas ou com telha".

No que tangia à distribuição física das construções não residenciais nas duas Villas, o referido Diretor citou: "concentrados na parte central da povoação, muitos prédios comerciais, depósitos e oficinas que compunham o panorama de uma comunidade em franca evolução".

Cemitério Público - Obedecendo aos ditames do Império, com forte influência do Poder Eclesial da época, o Cemitério de Petrópolis foi homologado pela Provisão Episcopal de 1.VIII.1845 (5), recebendo o nome de "Cemitério de São Pedro de Alcântara". Segundo tal Ato, o seu terreno deveria ser "murado e demarcado para nele se sepultarem as pessoas católicas (o grifo é nosso) que falecerem na dita Fazenda e Curato".

(5) - A mesma Provisão que criara o Curato de Petrópolis.


Esta seria uma situação normal para a quase totalidade das regiões do Império, porém para Petrópolis, onde quase um terço da população era evangélica, isso constituía um sério problema.

Além do mais, a área que foi colocada à disposição do Cemitério - entre a Rua dos Artistas e o Caminho Colonial de Nassau - era insuficiente e situada em local impróprio, trecho esse que estava sendo popularmente referido como "rua do Cemitério".

Apesar de não terem sido registradas polêmicas de maior vulto, a situação era constrangedora para os não católicos e a população já começava a reclamar da falta de um Cemitério Público maior, instalado em local mais apropriado.

Matadouro Público - Desde os primórdios da Colônia, o abate de gado para consumo da população era procedido "a céu aberto no largo de D. Affonso", área ainda alagadiça e bastante irregular situada no entroncamento das ruas de D. Affonso, de Bragança e de Bourbon e no início do Caminho Colonial do Quarteirão Presidência.

Com a realização das obras coloniais e a ocupação de prazos em suas imediações, começaram a surgir críticas de ordem estética e sanitária, dando lugar a propostas de mudança para uma área mais conveniente.

Abastecimento Público de Água - Até então, para captação da água necessária ao consumo em suas residências e estabelecimentos, os moradores locais vinham utilizando-se, apenas, das minas e poços particulares, bem como das fontes naturais.

Correio - Pelo Ato de 8.X.1848, a Administração Postal do Império criou a Agência dos Correios em Petrópolis, melhorando consideravelmente os serviços, até então, prestados oficiosamente pela Superintendência. A sede dessa Agência Postal foi instalada, provisoriamente, na residência do Agente, à Rua da Imperatriz e, menos de dois meses após, foi mudada para o Quartel da Diretoria da Colônia, situado na Rua do Imperador.

Agricultura, Indústria e Comércio - Galdino Pimentel foi a primeira autoridade a manifestar oficialmente que Petrópolis não tinha a menor condição de se tornar uma colônia agrícola, em face do seu limitado potencial nesse setor.

Ademais, visualizando bem o perfil profissional dos Colonos Alemães e as condições locais, elaborou um projeto para "estabelecimento de oficinas mecânicas", visando à reorientação das atividades da Colônia para o segundo termo da sua finalidade regulamentar, expressa pelo binômio "agrícola - industriosa".

Assim, ele desenvolveu cinco projetos bastante detalhados para implantação de uma Oficina Metalúrgica, uma Fábrica de Ferramentas, uma Marcenaria Mecânica, uma Fábrica de Extração de Óleos e uma Fábrica de Ferraduras, Cravos e Pregos. Tais projetos foram apresentados detalhadamente no Relatório Anual de 1849.

Em 1850, o comércio local, concentrado na Villa Imperial, mormente na Rua do Imperador, já atendia satisfatoriamente às necessidades locais, através de algumas dezenas de estabelecimentos.

Nessa fase, Petrópolis dispunha de sete hotéis cujos níveis variavam de razoável a excelente, sendo eles: na Rua do Imperador, os Hotéis Bragança, Suisso, de França, Moss e o do João Meyer (hospedaria); na Rua de Paulo Barbosa, o Hotel Inglês; e no Quarteirão Presidência, o Hotel Presidência. Existiam ainda algumas pousadas e estalagens de menor porte.

Cultura, Artes e Viajantes Ilustres - Na fase Galdino Pimentel, ainda não se poderia esperar o surgimento de significativas manifestações espontâneas de ordem cultural.

Entretanto, era bastante promissora a perspectiva de autoridades, dignitários estrangeiros e nacionais, bem como pessoas abastadas da Corte, serem atraídos para freqüentar Petrópolis na "estação calmosa", buscando refúgio e lazer, conforme fazia a Imperial Família.

Invariavelmente, todos os viajantes ilustres que passavam nas proximidades da Imperial Colônia de Petrópolis, incluíam-na como escala obrigatória.

Em paralelo ao que isso significava quanto a um estímulo ao desenvolvimento do turismo local, era evidente que a presença de tais visitantes e as interações decorrentes iriam contribuir decisivamente para a formação de uma sólida base cultural em Petrópolis.

Imperial Fazenda de Petrópolis - A 22.XI.1847 José Alexandre Alves Pereira Ribeiro Cirne tomou posse, interinamente, no cargo de Superintendente da Imperial Fazenda de Petrópolis e, alguns meses após, foi reconduzido ao cargo de Vice-Diretor da Imperial Colônia de Petrópolis, funções essas que passou a exercer cumulativamente.

Cirne, apesar de ter sofrido críticas severas por parte de Paulo Barbosa, quanto à sua competência profissional, saiu-se a contento no desempenho da função de Superintendente durante esta fase.

Serenamente, deu continuidade às obras do Imperial Palácio de Verão, cuja ala direita - de quem olha para a fachada - no início de 1849 já fora dada como habitável.

Sob os aspectos financeiros, a sua administração foi bastante correta e equilibrada. Todas as dívidas contraídas pela administração anterior foram regularizadas.

Área Territorial da Colônia - Ainda durante a gestão de Koeler, surgiu a necessidade de ampliação da base territorial da Colônia, até então formada apenas pelas fazendas Córrego Secco e Quitandinha, ambas decorrentes de desmembramentos de Sesmarias. O planejamento de novos Quarteirões fez voltar as atenções para as fazendas limítrofes: Vellasco, Morro Queimado e Itamaraty, todas elas também decorrentes de desmembramentos de Sesmarias.

Porém, todos os acréscimos pretendidos pela Colônia teriam de se ajustar aos interesses e possibilidades da Superintendência. Todavia, na fase em pauta, essas duas entidades envolvidas não eram mais administradas cumulativamente, o que tornaria mais trabalhosa a solução do problema.

Entretanto, Galdino Pimentel, logo após ter tomado posse, estabeleceu entendimentos com a Província e a Imperial Casa, mostrando a necessidade premente de anexação das supracitadas áreas.

E a 21.V.1849 foi comprado um pequeno desmembramento da Fazenda da Engenhoca e a 19.XII.1849 a parte da Fazenda Itamaraty compreendida na banda oeste da Estrada Normal da Estrella.

Naquela altura, os entendimentos para compra da Fazenda Morro Queimado já estavam em vias de conclusão.

Quanto à Fazenda Vellasco, por ser considerada "Terras da União", a Imperial Casa estava propondo sua anexação, através de uma troca ou simples cessão, com base no usucapião, tendo em vista inúmeros aforamentos que ali já haviam sido praticados.

Dessa forma, a Imperial Colônia de Petrópolis, através da expansão da Imperial Fazenda de Petrópolis, já estava ocupando legalmente uma área com cerca de 14.500.000 braças quadradas e em vias de crescer para um total de 19.000.000 braças quadradas.

Freguesia de S. Pedro de Alcântara, Distrito da Villa de Estrella - Durante toda a fase em pauta, Petrópolis constituía-se numa subdivisão administrativa da Villa de Estrella, denominada Freguesia de São Pedro de Alcântara, sendo que toda a Ação Político-Administrativo de Petrópolis era conduzida pela Câmara Municipal de Estrella.

Ao mesmo tempo, quanto à sua estrutura dentro do Setor Eclesial, a Freguesia de São Pedro de Alcântara de Petrópolis era diretamente subordinada à Vara Eclesial de São José do Rio Preto. Durante toda a gestão de Galdino Pimentel, o Padre Luiz Gonçalves Dias Correa da Silva Goulão ocupou o cargo de Vigário Geral.

Nesse período, o cargo de Subdelegado foi ocupado por José Alexandre Alves Pereira Ribeiro Cirne.

O cargo de Juiz de Paz Residente foi ocupado, de 1849 a 1850, por José Alexandre Alves Pereira Cirne. No ano de 1850 foi criado um segundo cargo de Juiz de Paz. Até o final desta fase, o cargo de 1° Juiz de Paz foi ocupado por Cirne e o de 2° Juiz de Paz por José Luiz de Azeredo Coutinho.

Ocorrências Importantes no Distrito de Petrópolis - Galdino Pimentel, conforme podemos inferir através de suas menções e ações, entendia que todos os colonos germânicos de Petrópolis deveriam ser naturalizados e que seus filhos passassem a ser alfabetizados e instruídos em escolas nacionais. Essa era a solução que Galdino via para uma integração rápida dos colonos e seus descendentes à Nação Brasileira. Em face dos argumentos apresentados por ele, foi baixado o Imperial Decreto nº 518 de 31.I.1850, estendendo aos colonos germânicos de Petrópolis os mesmos direitos de naturalização que haviam sido conferidos, quatro anos antes, aos colonos estrangeiros do Rio Grande do Sul. Provavelmente, em virtude dessa postura de Galdino Pimentel, verificou-se durante sua gestão a desativação de uma escola exclusiva para ensino em língua germânica.

Vias de Interesse para Petrópolis

Estrada Normal da Estrella - Na virada da Década de 40 para a de 50, a Estrada Geral da Estrella ainda estava longe de ser a Estrada Normal que complementaria em Território Fluminense a, tão almejada pelos mineiros, Estrada da Corte. Na realidade, somente o trecho entre a Raiz da Serra e o Alto da Serra aproximava-se dos padrões fixados para aquele empreendimento.

Com relação a essa parte, foi citado no Relatório Anual da Província do Rio de Janeiro de 1849 o seguinte:

"A seção do Engenheiro Rivière achava-se concluída";

"Quanto à porção da Estrada normal que ainda existe por fazer-se entre a Raiz da Serra e a Villa de Estrella, não é de imediata urgência e sua factura, não só porque o caminho atual, sendo bem conservado, presta-se ao trânsito contínuo de seges e carros sem o menor embaraço"; e

"Tendo o Senador Holanda Cavalcante de fazer nessa porção de terreno um caminho de ferro, desde que esse se realize, cessará a necessidade de se empreender nova obra".

Enquanto isso, o Governo Mineiro estava executando, às suas custas, o trecho entre Barbacena e Parahybuna.

Estrada do Mar de Espanha - Em 12.IV.1848 foi assinado um contrato com o fazendeiro João José Carneiro de Mendonça, para executar por três anos a conservação da Estrada de Mar de Espanha. Os usuários dessa via marginal queixavam-se da falta de manutenção do atalho que ligava o Porto Velho - Porto do Mar de Espanha - à localidade de Chiador que, pouco a pouco, estava se transformando num expressivo centro coletor de cargas de café e outras produções provenientes das terras ribeirinhas a leste de Três Barras, situadas nas duas margens do Rio Parahyba. As reclamações foram atendidas e esse trecho suplementar também foi melhorado. E isso era importante para Petrópolis, pois, devido ao seu posicionamento privilegiado, seria beneficiado pelo crescimento do fluxo dessas mercadorias em busca do Rio de Janeiro.

Ligação Viária com Paty do Alferes - As primeiras tentativas de ligação da Roça do Alferes com o Atalho de Bernardo de Proença (Caminho de Inhomirim) remontam ao Século XVIII, idos de 1728. Há provas documentais suficientes que comprovam essa assertiva, conforme poderemos apreciar em diversos tópicos sobre esse tema que constaram em Capítulos anteriores deste Ensaio. Outras tentativas foram efetuadas sem grande êxito. Verificamos que se consolidaram apenas o "Atalho de Paty do Alferes", o "Atalho do Caminho do Sardoal" e o "Caminho da Taquara". E, mais tarde, em rota bastante diferente, o "Caminho de Santa Catharina" que ligava a Ponte de Olaria às terras do Marco da Costa, passando por Araras, Fazenda do Malta "Serra Acima" e Fazenda Santa Catharina, até chegar ao entroncamento com o "Atalho de Paty do Alferes".

No Período Colonial de Petrópolis ressurgiu o interesse para melhoria dessas interligações.

Incentivado pela expansão do Território Colonial Petropolitano, através da integração das Fazendas Vellasco e Morro Queimado, o Diretor da Colônia e das Obras Viárias da Serra da Estrella, Galdino Pimentel, que havia determinado a abertura de Caminhos Coloniais para acesso aos novos Quarteirões, decidiu fazer mais uma tentativa para efetivação da interligação com as "terras de Paty do Alferes", através de uma rota mais direta, que melhor atendesse ao propósito almejado.

O Engenheiro Agrimensor da Colônia, João Christiano Moerken, foi designado para executar a seguinte tarefa: "Demarcação e abertura dos Caminhos Coloniais destinados a promover a ligação primitiva com a Fazenda do Inglês (ex-Fazenda dos Martins) e desta até a Fazenda Santa Catharina, pela rota do Mata Cavalo". (6)

(6) - Os termos originais empregados na redação dessa tarefa foram bastante confusos, sendo este autor obrigado a apresentá-la através de uma paráfrase.


As obras foram prontamente iniciadas e a Província aprovou tal projeto, acrescentando o requisito de que a pista deveria "ser capacitada para carros de tração animal".

Caminho da Taquara - No final da Década de 40, o vetusto Caminho da Taquara encontrava-se em estado lastimável, principalmente entre a Fazenda de Joviano Varella e o Alto do Imperador. Entretanto, apesar dessa via ter sido, mais uma vez, reconhecida pela Administração Fluminense como "de utilidade para a região por ela servida", não estava classificada como Caminho Geral, razão pela qual o custeio de suas obras de manutenção gozava de baixíssima prioridade no Orçamento Provincial. Assim sendo, os fazendeiros da Serra da Taquara organizaram uma subscrição que possibilitou melhoramentos razoáveis.

topo da página

índice de trabalhos

índice de autores