Ensaio entregue pelo autor a 20/01/2006 para inclusão no site, dividido em partes conforme melhor fosse.

PETRÓPOLIS - A SAGA DE UM CAMINHO (12)
Gênese e Evolução do Território Petropolitano


Carlos Oliveira Fróes

Capítulo 13

O Início do Período Colonial Petropolitano e a Fase Koeler

O Imperial Decreto Nº 155 de 16.III.1843 representou o marco de transição entre o fim do Período Pré-Colonial Petropolitano e o início do Período Colonial Petropolitano.

A decisão de "criar - através de um Imperial Decreto - uma Povoação na Serra da Estrella" constituiu um fato incomum no Brasil. Até então, somente Nova Friburgo tivera sua origem a partir de um Ato Oficial, fato esse que, na conceituação de Milliet de Saint Adolphe, teria sido "uma povoação feita por antecipação na serra do Morro Queimado". (1)

(1) - Ver em Fontes Bibliográficas, referência 35.
35. MILLIET de SAINT ADOLPH, J. C. R. "Dicionário Geográfico, Histórico e Descritivo do Império", Tradução de Caetano Lopes de Moura.


E o mesmo estava por acontecer na Serra da Estrella.

Normalmente no Brasil, constatava-se "um movimento espontâneo de povoamento" quando numa certa localidade tinha início um processo de aglutinação gradativa de determinados indivíduos, em torno de um objetivo comum. A partir daí, aquela comunidade embrionária prosseguia, passo a passo, em busca dos patamares mais elevados de uma cadeia evolutiva, passando pelas situações de Arraial - ou Povoação -, Villa e Cidade.

Esta era a dinâmica tradicional do processo de povoamento, que nos foi repassada pelos ensinamentos do grande mestre Capistrano de Abreu.

Com base em tal teoria, tentaremos mostrar de maneira prática como, via de regra, fenômenos dessa natureza vinham se desencadeando na Capitania - depois Província - Fluminense:

a primeira manifestação concreta seria quando residentes ou freqüentadores habituais de uma determinada localidade passavam a sentir necessidade de uma "igrejinha" onde fosse possível o cumprimento - imprescindível naquela época - dos "deveres religiosos";

inexoravelmente, em torno dessas "igrejinhas" tinham origem as primeiras interações sócio-religiosas locais;

o indício de que, ali, estava havendo uma evolução mais intensa surgia quando tais habitantes manifestavam a vontade de pleitear que a citada "igrejinha" fosse elevada à natureza de Capella Autorizada;

a etapa seguinte era alcançada quando, com o correr dos tempos, despontava a necessidade de pleitear "em caráter excepcional o direito ao uso da Pia Batismal";

um pouco mais adiante ocorria o mesmo em relação à ereção da citada igrejinha em natureza de Capella Curada; e

chegado o momento oportuno os habitantes locais passavam a propugnar pela instalação de uma Freguesia e das instituições públicas necessárias a uma comunidade em formação.

Dentro deste raciocínio, não era difícil verificar quando uma certa localidade já possuía os requisitos básicos para sua homologação em nível de Arraial (termo das "Ordenações Filipinas" já caindo em desuso) ou em nível de Povoação (nomenclatura em implantação após a Constituição de 1824), termo esse que foi empregado, mais de uma vez, no Imperial Decreto de 16.III.1843.

Via de regra, essas comunidades passavam a constituir um Distrito de Freguesia, os quais, em alguns casos, gozavam do privilégio de instalação de uma Subdelegacia e um Juizado de Paz.

Na "Paragem do Córrego Secco" foi bem diferente, pois, num raio de uma légua em torno dela, não existia localidade alguma capaz de configurar qualquer processo em nível significativo de povoamento.

Porém, o Decreto Imperial Nº 155, além de "estabelecer por antecipação a criação de uma Povoação", fixou as condições para sua implantação e, certamente, orientou e estimulou o desenvolvimento inicial.

E tudo isso expresso em forma sutil e inteligente, com ênfase à aprovação de um "plano" e ao "arrendamento de uma Imperial Fazenda a um empresário, súdito de SMI".

Outro aspecto interessante desse Ato foi a não inclusão dos termos "colônia" ou "colonos" em nenhuma de suas partes, apesar do "plano citado no caput desse Decreto", nada mais ser do que o "Plano de Koeler", especificamente elaborado para o estabelecimento de uma Colônia de Estrangeiros na Serra da Estrella.

Tudo leva a crer que tal Ato, tão habilmente estruturado, além de definir com precisão as metas planejadas, procurou evitar quaisquer conflitos com as disposições legais vigentes e, sobretudo, com políticos, proprietários rurais e opinião pública.

Ressaltamos, ainda, as sábias e imprescindíveis ingerências do Mordomo nesse episódio, não só para o convencimento do "jovem Imperador" mas, principalmente, para a solução da série de problemas políticos e administrativos que, forçosamente, teriam de ser superados visando ao equacionamento harmônico dessa delicada questão, relativa à implantação de uma colônia que não havia sido submetida previamente à aprovação dos órgãos provinciais competentes, cuja locação estava prevista numa área pertencente à Imperial Casa.

Entendemos, a priori, que não deveria ser muito simples o enquadramento das subentendidas pretensões à Lei Provincial Nº 226, de 30.V.1840, principalmente no que se referia aos dois pontos que mostraremos a seguir:

competência exclusiva do Presidente da Província para "contratar com empresários, ou companhias, que se organizarem, o estabelecimento de colônias agrícolas e industriosas na Província, segundo os planos que forem propostos pelos ditos empresários ou companhias"; e

a exigência de que "os bens dos contratados deveriam permanecer hipotecados durante a validade do acordo".

A fim de facilitar uma análise mais objetiva quanto à possibilidade de enquadramento à citada Lei provincial, resolvemos dissecar o Imperial Decreto Nº 155, especificando o elenco das inúmeras decisões e instruções nele contidas:

autorização conferida à Imperial Casa para o arrendamento da Imperial Fazenda Córrego Secco a Koeler;

determinação para reserva de uma área destinada à construção de um palácio, com dependências e jardins, para uso de SMI;

determinação para reserva das áreas destinadas à Povoação;

determinação para reserva de áreas destinadas ao aforamento de datas residenciais;

determinação para reserva de uma área específica destinada ao aforamento de datas a particulares, situadas nas duas faixas adjacentes à pista da variante da Estrada Geral projetada para cortar a Fazenda Córrego Secco;

doação de áreas para construção de uma Igreja sob invocação de São Pedro de Alcântara e de um Cemitério para a futura Povoação; e

instruções gerais para formalização do arrendamento, das doações efetuadas e dos ajustes necessários.

Em que pese a problemática que imaginamos, notou-se uma postura muito empática por parte do Vice-Presidente da Província do Rio de Janeiro, João Caldas Vianna, então no exercício da Presidência, quando prontamente desencadeou uma série de providências no sentido de viabilizar a concretização do planejamento em tela.

Deixando de lado a questão supra e voltando a atenção para o setor viário, verificamos que, ainda no decurso do mês de março de 1843, foi estabelecida uma linha de navegação entre o Cais dos Mineiros e o Porto de Estrella.

E, em seguida, o Governo Provincial contratou com Albino José da Siqueira, em 27.III.1843, a conservação da Estrada Geral da Estrella, no trecho entre o Porto de Estrella e Raiz-da-Serra. E, em 31.III.1843, foi contratada idêntica tarefa relativa ao trecho restante, até Parahybuna, com Antonio Dias Braga. (2)

(2) - Antonio Dias Braga instalou sua residência no Alto da Serra.


Daí por diante, os fatos, fenômenos e episódios relativos à formação do "burgo imperial serrano" desenvolver-se-iam através de processos intensos, diversificados e até mesmo entrelaçados, tornando quase impossível a manutenção da nossa proposta inicial de apresentação deste Ensaio em forma seqüencial.

Assim sendo, fomos compelidos a omitir alguns fatos considerados não tão importantes e reduzir o detalhamento sobre outros.

Na Portaria de 5.VII.1843, encaminhada por Caldas Vianna à 2ª Seção, registramos a primeira citação oficial neste sentido, qual seja a menção direta à "fundação da Povoação de Petrópolis, no alto da serra".

Por nova Portaria, datada de 8.VII.1843, a 2ª Seção foi incumbida de uma série de tarefas, visando à agilização das obras da área do Arraial de Estrella, além das quais foi determinada a construção de três peças de madeira - duas cruzes e um poste - com as seguintes inscrições:

"Cruz de São Pedro de Alcântara de Petrópolis";

"Cruz da Capella dos Finados de Petrópolis"; e

"Petrópolis".

Esta última peça deveria ser um "poste alto e elegante, com uma placa" contendo, em letras grandes, a inscrição "Petrópolis", o qual deveria ser fincado no "lugar do antigo Córrego Secco", mostrando nitidamente a intenção do Presidente em fazê-la representar o símbolo do Poder Civil da Povoação, na realidade, um resquício do "pelourinho". (3)

(3) - Não se tem certeza onde essas peças foram fincadas, porém podemos encontrar na pg. 93 da “Iconografia Petropolitana” de Gilberto Ferrez, a reprodução de um desenho, a lápis, de Otto Reimarus, Nº do Catálogo 48, mostrando a Praça de Coblenz, notando-se do lado esquerdo uma cruz do citado tipo, provavelmente colocada por ocasião da celebração da Primeira Missa Campal de Petrópolis. Consta que uma outra cruz foi colocada no Morro do Cruzeiro. E nada existe a respeito do “alto Poste”.


Da mesma forma, a "Cruz de São Pedro de Alcântara" representava o símbolo da componente Eclesiástica da Povoação e deveria ser fincada no prazo reservado para a construção da futura Matriz de São Pedro de Alcântara ou noutro local planejado para instalação da Capella da Imperial Fazenda de Petrópolis. Entretanto, ao que tudo indica, tal cruz seria fincada, em caráter provisório, na futura Praça de Coblenz.

Essa foi a fórmula que Caldas Vianna teria encontrado, ainda que tacitamente, para "batizar com o nome de Petrópolis" essa nova Subdivisão Civil da Província, especificamente criada para atender à pretensão de SMI, citada como Povoação no Imperial Decreto N° 155/1843.

Não há como saber se essas medidas estavam atendendo a algum interesse direto da Imperial Casa. O que nos parece mais lógico é que Caldas Vianna, não querendo se omitir em relação às suas atribuições legais estaria tomando a iniciativa para assegurar uma harmonização à legislação vigente, através da institucionalização gradativa da "Povoação de Petrópolis", dentro do processo tradicional para o estabelecimento de uma Povoação ou Arraial.

Entendemos que tudo isso seria muito mais simples se a "Povoação" já existisse realmente e não fosse constituída por uma propriedade particular do Imperador. Cabe, ainda, admitir que, uma vez instituída, ela deveria ficar subordinada à Câmara Municipal de Parahyba do Sul, conforme estava legalmente previsto.

Por outro lado, a "questão das Colônias de Estrangeiros" ainda era um tema delicado, envolvendo o repúdio dos grandes proprietários rurais, que as viam como fortes competidoras, enquanto que as correntes escravagistas as consideravam uma ameaça.

E, até mesmo, no âmbito daqueles que viam com bons olhos as Colônias de Estrangeiros, havia grande divergência sobre a origem étnica ideal para a seleção de colonos, o que levava a intermináveis discussões sobre a conveniência de serem eles:

latinos, católicos e de uma só origem;

latinos, católicos e de diversas origens;

europeus católicos de uma só origem;

europeus católicos de diversas origens;

católicos de diversas origens;

uma só origem, porém não necessariamente de católicos; ou

diversas origens, porém não necessariamente católicos.

Certamente, qualquer projeto envolvendo colonos germânicos (não exclusivamente católicos) geraria muita celeuma, principalmente, por parte do Clero e das correntes mais conservadoras.

Neste sentido, desde 1835, a postura dos Presidentes da Província do Rio de Janeiro e dos mais atuantes Vice-Presidentes, no exercício da Presidência, era bastante heterogênea.

Caldas Vianna, durante a gestão de Honório Hermeto Carneiro Leão, respondeu mais de uma vez pela Presidência da Província, ficando reconhecido como um dinamizador das Colônias de Estrangeiros, notadamente as do Norte Fluminense e Paraty. Parece interessante mencionar que, pouco tempo antes, ele havia determinado a Koeler a realização de estudos sobre produção de óleos vegetais e cultura de plantas exóticas, visando à aplicação dos resultados nas Colônias Fluminenses.

Entretanto, com base nas contratações de colonos, até então realizadas por ele, pudemos inferir que suas preferências pendiam para colonos de origem latina oriundos de regiões tradicionalmente católicas, como era o caso de açorianos, franceses e franco-belgas.

Em 26.VII.1843 foi assinado o "Termo de Arrendamento da Imperial Fazenda Córrego Secco ao Major-ICE Júlio Frederico Koeler".

Anexo a esse documento havia um Termo Adicional que basicamente "previa as condições para aforamento na referida propriedade", o qual, pouco depois, foi complementado por um segundo Termo Adicional, datado de 30.X.1843, contendo "alguns acréscimos propostos pelo arrendatário".

É oportuno acentuar que no Artigo 15 desse segundo Termo Adicional foi feita uma citação explícita a "colonos agrícolas para Petrópolis", sendo essa a primeira vez que a Imperial Casa associava publicamente a idéia de colonização à Povoação de Petrópolis.

Podemos afirmar que tais ações constituíram os primeiros passos para a efetivação das deliberações e orientações contidas no Imperial Decreto Nº 155.

A 4.IX.1843 foi celebrada na Corte a confirmação do casamento de SMI D. Pedro II com SA D.Thereza Christina de Leuchtenberg.

No mês seguinte, o geólogo, zoólogo e etnólogo francês Francis de La Porte Castelnau passou uma temporada na casa-sede da Imperial Fazenda Córrego Secco.

Apesar do pouco que se pôde aproveitar da parte do seu relato de viagem referente a Petrópolis, causou grande confusão um registro sobre:

a inesperada chegada ao Córrego Secco, no dia 17.X.1843, de "um funcionário do Setor de Engenharia dos Paços Imperiais", trazendo a notícia de que "as obras deveriam começar no dia seguinte e a casa deveria ser desocupada prontamente".

Além do constrangimento que o ilustre hóspede externou, tal fato levou muitos pesquisadores ao cometimento de um grande equívoco, quando inferiram que "as obras anunciadas" se referiam às "obras de edificação da Povoação de Petrópolis". Porém o que estava sendo anunciado, realmente, eram "obras na casa sede da fazenda", que deveriam ser iniciadas no dia seguinte, ou seja, em 18.X.1843.

Era evidente que a missão desse funcionário só poderia dizer respeito a obras da casa-sede da fazenda, pois SMI D. Pedro II e a Imperatriz D. Thereza Christina estavam pretendendo realizar, dentro em breve, uma visita à Fazenda Córrego Secco, onde ficariam hospedados.

Assim, a antiga residência dos Vieira Affonso, que se encontrava em péssimo estado, foi restaurada - praticamente reconstruída - e consideravelmente ampliada.

Quanto às "obras da povoação", elas só seriam oficialmente iniciadas cerca de dois anos mais tarde.

Contudo, podemos afirmar que Koeler dedicou o semestre em curso às tarefas preliminares de reconhecimento, demarcação e levantamento da área total, com vistas à confecção da "Planta de Petrópolis".

Naquela ocasião, estava em ritmo acelerado a construção do segmento da Estrada Normal da Estrella, entre a Raiz da Serra e Alto da Serra, que deveria substituir a "vetusta Calçada de Pedra". Ao final desse trecho, "a partir da casa do José Dias", foi projetada a abertura de uma variante - prevista para cruzar a frente da casa-sede da Imperial Fazenda Córrego Secco - a qual, passando pela confluência do Rio Quitandinha com o Córrego Secco, deveria buscar o Marco dos Sete Caminhos, local esse junto ao Rancho do Córrego Secco, onde estava projetado o reencontro com o trecho original da Estrada Geral da Estrella.

Alertamos que tal variante foi mencionada no Imperial Decreto Nº 155 como "parte da Estrada Geral que corta aquela fazenda". Ao longo desta, SMI determinou a reserva das "duas faixas laterais, subdivididas em datas ou prazos para aforamento a particulares", o que demonstra a intenção de vinculação dessa via ao projeto de urbanização de Koeler como a espinha dorsal viária de seu plano, prevista para cortar a Villa Thereza e a Villa Imperial.

Como tivemos ocasião de mencionar anteriormente, nas proximidades do supracitado Marco dos Sete Caminhos, havia um pouso que, desde 1772, vinha sendo citado pelos viajantes como "Rancho do Córrego Secco".

Em 1843, Antônio José da Costa Dantas explorava esse estabelecimento. Era ele o proprietário de uma área situada no extremo sul da Fazenda Itamaraty que confrontava com a Imperial Fazenda Córrego Secco. Esta propriedade foi textualmente citada no contrato de arrendamento celebrado com Koeler, a qual pode ser interpretada como uma confrontante pelo norte do primitivo "território da colônia".

Tendo em vista que muitos viajantes se referiam em seus relatos, a esse local como "Córrego Secco", "localidade do Córrego Secco" ou "lugar do Córrego Secco", diversos estudiosos, pesquisadores e, até mesmo alguns renomados historiógrafos, confundiram-no com o "local da casa-sede da fazenda", que dali distava cerca de 400 braças, lugar esse por onde, até então, as tropas e os demais viajantes jamais transitavam, devido à inexistência de uma via de acesso - nem mesmo uma incipiente picada - que, a partir do Alto da Serra, passasse em frente da referida casa-sede. (4)

(4) - Na excelente obra “D. Pedro – Jornada a Minas Gerais em 1822”, de E. Canabrava Barreiros, pág. 25, o cartograma relativo à Fig. 14 mostra uma “variante da Fazenda Córrego Secco”, em traçado pontilhado, a qual só passaria a existir depois de 1844. Outrossim, na pág. 23, as Figuras 12 e 13 são apresentadas pelo autor como se fossem no mesmo local, porém, na realidade são em locais diferentes. A Fig. 12 refere-se ao Rancho do Córrego Secco, ao lado do Marco dos Sete Caminhos, e a Fig. 13 à casa-sede da Fazenda Córrego Secco, após sua reconstrução.


Para melhor entendimento sobre a situação do tráfego para Minas Gerais pelas terras petropolitanas, decidimos recapitular alguns pontos relativos à "modernização do Segmento Fluminense da Nova Estrada Geral de Minas Gerais", denominado oficialmente pelo Governo Fluminense como "Estrada Normal da Estrella":

como vinha ocorrendo desde 1809, o tráfego para Minas Gerais no trecho entre o Porto de Estrella e o Alto da Serra vinha se processando ao longo do segmento da antiga Estrada Geral da Estrella na Baixada e do seu complemento cognominado Calçada de Pedra; e

desse ponto até Parahybuna - passando por Parahyba do Sul - o tráfego se processava pelo trecho restante da Estrada Geral da Estrella - Serra Acima - que já fora razoavelmente melhorado em alguns locais.

Em torno da virada para o ano de 1844 foi anunciada a prontificação da "picada base da variante da vetusta calçada no trecho de subida da serra", já projetada no padrão de "Estrada Normal".

Naquela mesma fase, Caldas Vianna estava examinando diversas propostas para contratação de colonos europeus. Dentre elas, conforme citado em seu Relatório Anual assinado em 1844, havia uma que foi apresentada pela Casa Charles Del Rue & Co, relativa à contratação de 600 colonos destinados a Petrópolis.

Essa iniciativa deveria ser preocupante para Koeler em virtude de que todas as contratações de imigrantes estrangeiros efetivadas por aquele Presidente foram, na maior parte, referentes a açorianos e, em menor escala, a belgas e franceses.

Enquanto isso, Caldas Vianna prosseguia a passos largos para completar a instituição de Petrópolis como Povoação.

Assim, foi baixada a Deliberação de 29.III.1844, cujos trechos mais importantes são transcritos a seguir:

no Artigo 1º da Deliberação - "criada na Freguesia de São José do Rio Preto, do termo de Parahyba do Sul, mais uma Subdelegacia de Polícia, que se denominará do 2º Distrito, ou de Petrópolis";

ainda no artigo 1º da Deliberação foram fixados os limites da Subdelegacia, ficando estipulando que "correrá a linha das divisões pelo espigão da Serra Geral dos Órgãos ou da Estrella, desde o March, nas cabeceiras do Rio Paquequer Pequeno até encontrar com a rocha que na margem dele forma ramal da Serra da Manga Larga, vulgarmente, dita - Alto Pegado - e topar com o Morro do Taquaril; pelo espigão da Serra deste nome até ir ao Território do Ribeirão de Santa Rita que verte no Paquequer Pequeno, compreendendo-se na Subdelegacia toda a bacia desse rio e do ribeirão desde a sua barra cima até a Serra Geral"; e

no Artigo 3º da mesma Deliberação consta que "haverá igualmente um Juízo de Paz" que "terá os mesmos limites da Subdelegacia".

Através de uma análise mais objetiva, é possível inferir que os limites do Distrito Petrópolis foram definidos com precisão, ficando, assim, afastada definitivamente a absurda interpretação do Piabanha como divisor entre as Freguesias de São José do Rio Preto e Paty do Alferes.

E, através desse Ato, Caldas Vianna homologou Petrópolis como Povoação - 2º Distrito da Freguesia de São José do Rio Preto, termo de Parahyba do Sul -, medida essa que se enquadrava integralmente à doutrina alinhavada pelo Presidente Paulino José de Souza, que foi apresentada no tópico "Estatística", do Relatório Anual de 1838, versando sobre a "Divisão Civil, Judiciária e Eclesiástica" na Província do Rio de Janeiro.

Este foi um acontecimento de suma importância para os Fundamentos da História de Petrópolis. Na realidade, o que estava sendo implantado era o Território da Povoação de Petrópolis, ou seja, o "embrião do futuro Território Municipal de Petrópolis".

Com a criação da Subdelegacia e do Juizado de Paz do Distrito Petrópolis, ficou faltando, apenas, a implantação de uma componente eclesial, ou seja de um Curato pelo menos, para estruturação plena da Povoação de Petrópolis.

Podemos constatar que Caldas Vianna não imaginou o Distrito Petrópolis restrito, apenas, à área da Colônia de Petrópolis, mas sim a todo o território abrangido pela parte da Micro-Região da Bacia do Piabanha definida pela citada Deliberação como termo do novo Distrito.

Entretanto, apesar de não dispormos de um registro sobre uma possível reclamação, entendemos que o supracitado Ato configurou uma interferência do Governo da Província em relação à Villa de Parahyba do Sul, pois pelo Art. 55 da Lei de 1º.X.1828, somente à sua Câmara caberia a iniciativa para promover "repartições" (subdivisões) em sua jurisdição e somente após tais decisões é que as resoluções decorrentes deveriam ser submetidas à aprovação do Governo Provincial. Ademais os Distritos da Freguesia de São José do Rio Preto já haviam sido homologados pela Câmara de Parahyba do Sul.

No final do primeiro trimestre de 1844, pouco depois de Caldas Vianna ter sido efetivado na Presidência da Província, a Sede da Povoação de Petrópolis se encontrava em fase final de estruturação física, com seus acessos provisórios em razoáveis condições. Quanto ao número de habitantes locais, apesar de não ser muito elevado, já era suficiente para justificar o status de Povoação. E, no sentido de aumentar consideravelmente essa população prosseguiam em ritmo acelerado as articulações para contratação de colonos estrangeiros.

Porém, antes mesmo de concluir o processo que iniciara com tanta premência, Caldas Vianna foi exonerado em 1º.IV.1844. Na mesma data, Aureliano de Souza e Oliveira Coutinho foi nomeado para o cargo de Presidente da Província do Rio de Janeiro, tendo sua posse ocorrido em 12.IV.1844.

Com vistas a certos aspectos do interesse de Koeler, relacionados à formação de Petrópolis e à implantação de sua Colônia, essa investidura de Aureliano foi providencial, principalmente pelo prestígio do novo titular junto ao Imperador e seu grau de relacionamento com o Mordomo.

E os primeiros resultados positivos surgiram rapidamente.

A 27.VI.1844 a Província assinou contrato com a Casa Del Rue & Co para a vinda de 600 colonos europeus - "portugueses ou belgas, franceses, italianos, alemães ou suíços" - , "acompanhados de suas famílias", e "com capacidade nos ofícios de carpinteiro, canteiro, ferreiro, pedreiro, cavouqueiro e trabalhadores de estrada ". E tudo isso convinha plenamente àquilo que Koeler idealizara.

Como podemos notar, por óbvias razões, não estava cogitada a arregimentação de camponeses, nem menções taxativas que denotassem preferência exclusiva por migrantes não germânicos.

De acordo com o que seria confirmado mais tarde, tal contrato - inicialmente, alinhavado por Caldas Vianna - passou por renegociações, redefinições, reajustes e, finalmente, ficou estabelecido segundo os critérios abaixo:

exclusiva nacionalidade germânica para os contratados;

inclusão de seus familiares; e

arregimentação de uma grande parte desse contingente no Grão Ducado de Hesse, justamente onde Koeler, pelo menos três anos atrás, havia estabelecido contatos diretos.

As ações preliminares sobre a vinda de colonos germânicos para Petrópolis foram tratadas com certo sigilo, evidentemente, para evitar conflitos com certos opositores do liberal Aureliano, tais como, Honório, Caldas Vianna e outros membros de facções mais ortodoxas. Assim, na forma em que tal processo estava caminhando, seria bastante previsível o surgimento de interpretações fantasiosas ou equivocadas.

No final do ano em curso, Aureliano criou a "Comissão para Dirigir os Serviços de Colonização da Província do Rio de Janeiro" e mandou instalá-la em Niterói, nas proximidades da Ponta da Armação, em um grande galpão destinado a funcionar como Depósito de Colonos, com capacidade para alojar numerosas levas de migrantes, justamente, do porte daquelas que estavam sendo esperadas a partir de fevereiro do ano seguinte.

Entretanto, com base nos dados que hoje dispomos, podemos inferir que tudo estava sendo planejado e executado criteriosamente, não dando margem a quaisquer interpretações dúbias.

Desde que assumiu a Presidência, Aureliano procurou dar maior autonomia ao setor de Obras Públicas da Província, extinguindo a antiga Diretoria e criando, em seu lugar, uma Junta, subdividida em seis Distritos de Obras. A Estrada Normal da Estrella estava incluída no 3º Distrito de Obras Públicas.

Por sua vez a Estrada Normal da Estrella foi subdividida em três Seções:

a 1ª Seção, sob a direção do Engenheiro Carlos Riviere, estendia-se do Porto de Estrella até a Raiz da Serra;

a 2ª Seção, sob direção do Major-ICE Koeler, estendia-se da Raiz da Serra ao Alto Pegado; e

a 3ª Seção, sob a direção do Tenente Coronel-ICE Galdino Pimentel, estendia-se do Alto Pegado até Parahybuna.

Podemos observar que, naquele momento, Koeler retornara ao serviço provincial, sendo integrado ao 3º Distrito de Obras Públicas, onde assumiu a chefia da 2ª Seção de Obras da Estrada Normal da Estrella, no trecho em que esta cortava a Povoação de Petrópolis.

Adiantamos que dois anos mais tarde os Municípios de Estrella, Magé e Parahyba do Sul seriam desvinculados do 3º Distrito de Obras, passando a constituir o 7º Distrito de Obras Públicas, com sede em Petrópolis.

Dentre uma pletora de medidas preliminares em andamento, SMI D. Pedro II promulgou o Imperial Decreto Nº 183 de 15.I.1845, baixando ordens para execução do "Projeto de Construção do Imperial Palácio de Verão de Petrópolis", da autoria de Koeler, ao qual se referiu como "Um Palacete na minha Imperial Fazenda de Petrópolis". Podemos ainda inferir do teor original desse Ato que o Imperador estava autorizando o início das obras da edificação de Petrópolis

No dia 31.I.1845 Koeler assinou um documento que denominou "Exposição", contendo todas as informações pertinentes ao plano que idealizara para Petrópolis, bem como as decisões que já haviam sido tomadas por SMI para torná-lo exeqüível.

O texto integral desse minucioso relato foi publicado na edição de 17.II.1845 do "Jornal do Commercio", juntamente com o "Projeto de Estatutos para a Companhia de Petrópolis".

Vejamos algumas informações mais expressivas contidas nas duas supracitadas matérias, as quais julgamos oportuno selecionar:

"SMI acaba de ordenar a construção do seu palácio de verão na Petrópolis (sic)";

"SM o Imperador tem mostrado desejo de ver colocada, em Petrópolis e nos arredores, uma colônia agrícola e industriosa alemã";

afirmação de que Koeler "mantinha relações abertas com Grão Ducado de Hesse para este fim"; e

afirmação de que o Imperador visualizou "uma povoação, e para este fim ordenou que se arrumasse uma porção de terreno para edificação dos fundamentos de uma futura cidade - Petrópolis - e que, para isso, SMI permitira, ali, a formação de uma companhia".

Muitas revelações e esclarecimentos da maior relevância puderam ser resgatados a partir dos termos da referida "Exposição" e do "Projeto de Estatuto".

E, assim, com base na apreciação e análise dessa matéria, foi possível alinhavar uma idéia geral sobre alguns pontos, ainda obscuros, do "Plano de Koeler para Petrópolis", o qual, na realidade, era um plano global para o desenvolvimento simultâneo de uma Povoação e de uma Colônia, abrangendo os segmentos essenciais a uma comunidade em formação.

Sentimos que a "Companhia de Petrópolis" fora idealizada para atender ao Artigo 1º da Lei Nº 226 de 30.V.1840, o qual estipulava que "O Presidente da Província é autorizado a contratar com empresários, ou companhias (o grifo é nosso), que se organizarem, o estabelecimento de colônia agrícola e industriosa na província, segundo os planos que forem propostos".

Podemos, ainda, imaginar que tal empresa, também, tivesse sido prevista para tornar auto-sustentável o "empreendimento Petrópolis".

Também seria possível admitir que em janeiro de 1845, o projeto de urbanização da Povoação de Petrópolis já estivesse pronto, com base na configuração apresentada na "Planta de Petrópolis".

Estavam notados, na supracitada planta:

os Quarteirões especiais Villa Imperial e Villa Thereza;

os onze Quarteirões Coloniais - Palatinato Inferior, Palatinato Superior, Rhenania Inferior, Rhenania Central, Castellanea, Simmeria, Bingen, Ingelheim, Mosella, Nassau, Westphallia.

caminhos, ruas, praças, demais logradouros públicos;

a "parte da Estrada Nova do Porto da Estrella a Minas Gerais";

os rios e córregos locais; e

as áreas destinadas ao Palácio Imperial, aos prazos de aforamento, ao Cemitério e à Igreja.

Atendendo a um convite de Koeler, SMI D. Pedro II e a Imperatriz D. Thereza Christina chegaram a Petrópolis no dia 11.V.1845, para uma rápida visita e ficaram hospedados na Fazenda Córrego Secco, cuja casa-sede fora totalmente reformada.

Naquela oportunidade, Koeler discutiu com SMI sobre uma premente alteração no projeto, quanto à locação do Palácio de Verão, pois, na área escolhida anteriormente, foi encontrada uma pedreira duríssima cuja remoção fora julgada impraticável naquela fase.

Ao que tudo indica, a locação inicial fora cogitada numa concepção que previa o bloco principal voltado para a Rua do Imperador, possivelmente em posição centrada entre o final projetado da referida rua e a Praça do Imperador. Diante de tal pressuposto, fica perfeitamente claro que seria recomendável uma alteração da locação inicial para o "canto da Praça do Imperador". Realmente, no canto oposto, por ocasião do prolongamento da Rua do Imperador e canalização do Rio Palatino os trabalhos foram suspensos devido à existência de tal enorme pedreira - que se estendia até a margem oposta do Rio Palatino - a qual iria impedir, por mais de uma década, a continuação das obras. Além disso ela preenchia uma substancial parte da área destinada ao Palácio de Verão, a qual apesar de seu tamanho não fora identificada logo de início por estar encoberta por uma camada de terra e densa vegetação.

Após os exames in loco, ficou patente a necessidade de deslocamento da locação do prédio no sentido do "canto da Praça do Imperador" e, conseqüentemente, promover um giro de 90° no projeto inicial, fazendo com que a fachada principal ficasse voltada para a Rua da Imperatriz.

No decurso desse primeiro semestre as obras de urbanização já começavam a mostrar alguns resultados, tais como:

construção de cinco pontes;

abertura dos primeiros Caminhos Coloniais de Acesso aos Quarteirões;

construção do Engenho de Serrar, do Quartel das Obras Provinciais, dos Quartéis de Bragança;

construção de um Hotel;

início da retificação dos Rios Quitandinha, Palatino e Piabanha; e

delineamento das ruas da Imperatriz, Thereza, de Aureliano, de D. Amélia, do Imperador, do Mordomo e do Honório.

Ressaltamos que as seis últimas ruas da supracitada relação constituíam a espinha dorsal viária da Povoação de Petrópolis que atravessava a Villa Imperial e a Villa Thereza, trajeto este que coincidia com o da nova variante da Estrada Normal da Estrella, projetada para substituir o trecho entre a "casa do José Dias no Alto da Serra" e o Marco dos Sete Caminhos".

Evidentemente, a abertura desse segmento, custeada por verbas provinciais, representaria uma grande cooperação para as "obras da povoação".

Concomitantemente, Koeler administrava as obras de construção do Imperial Palácio de Verão e todas as demais referentes à implementação urbana da Povoação, contando para isso, apenas, com mão-de-obra precária e insuficiente, constituída por escravos, africanos livres, outros imigrantes e, alguns poucos, germânicos remanescentes da "Pseudocolônia do Itamaraty".

Um fato memorável aconteceu em 13.VI.1845, quando aportou no Rio de Janeiro o Brigue Virginie com quase uma centena de migrantes germânicos, contratados com a Casa Delrue & Co no ano anterior, cujo destino era sabidamente Petrópolis.

Prontamente, essa primeira leva de migrantes foi conduzida para o Depósito de Colonos da Província, em Niterói, e não para os depósitos na Corte.

Logo em seguida, confirmou-se a notícia de que muitas outras levas estavam para chegar nos próximos dias e meses, o que totalizaria mais de dois mil migrantes.

Não há dúvida alguma de que todo esse planejamento foi criteriosamente elaborado pelas autoridades e pessoas diretamente envolvidas. Todavia, em virtude do seu elevado grau de sigilo, esse episódio causou um grande impacto junto à opinião pública, dando origem a interpretações fantasiosas, equivocadas ou, até mesmo, especulativas.

Para os políticos e o povo em geral, foi bem aceita a versão de que "o Magnânimo Monarca, avocando a solução desse súbito problema, oferecera suas extensas terras do Córrego Secco para acolher tão numeroso contingente".

Infelizmente as crônicas da época não foram suficientes para um esclarecimento mais sensato.

Aproveitamos esta oportunidade para manifestar que consideramos desastrosas as informações, sobre tão auspicioso acontecimento, publicadas por Henri Raffard. Até hoje, com base em seus relatos inconseqüentes, iniciantes na área da pesquisa histórica petropolitana vêm imaginando versões totalmente equivocadas sobre fatos passados cujas memórias já haviam sido integralmente resgatadas.

No nosso entender, apenas existem três fontes primárias, capazes de trazer alguma luz para elucidação do episódio em pauta. São elas:

Relatório que Paulo Barbosa encaminhou, em junho de 1846, a seu substituto na Mordomia da Imperial Casa, José Maria da Costa Velho;

Relatório Anual da Presidência da Província, assinado por Aureliano Coutinho em 1º.V.1846; e

Ofício de 23.VII.1845 que Koeler remeteu ao Vice-Presidente no exercício da Presidência da Província do Rio de Janeiro, Candido Baptista de Oliveira.

Paulo Barbosa apreciou essa questão sob enfoque político, visando a afastar quaisquer suspeitas a cerca de possíveis interferências por parte do Imperador e da Imperial Casa nas gestões preliminares para a vinda dos colonos germânicos. Ao mesmo tempo, ele deu grande realce à sugestão que fez, em nome de SMI, ao Vice-Presidente, no exercício da Presidência, Candido Baptista de Oliveira, para contratar tais migrantes para as "obras da Serra e colocá-los em Petrópolis". Mister se faz alertar que esses pronunciamentos de Paulo Barbosa referiam-se, apenas, à contratação desses migrantes para "trabalharem nas obras públicas", o que poderia ser visualizado como um legítimo interesse do Governo Provincial.

Já o depoimento de Koeler é mais técnico e objetivo. Afirmou ele que tais colonos "foram mandados vir para as Obras da Província" e "em Petrópolis eles serão empregados em Obras Provinciais porque neste lugar mandou o Conselho, por deliberação anterior, que mereceu aprovação de V. Exa. proceder-se à construção da Estrada Nova, e, aliás, mui próxima a Serra Nova, onde por um ou dois anos, e portanto por maior espaço de tempo eles podem achar obras, do que lhes será preciso para amortizar as dívidas contraídas com o Governo Provincial (sic)".

O terceiro desses depoimentos, prestado por Aureliano, foi abrangente, explícito, fidedigno e conclusivo. No Relatório que elaborou sobre os dois primeiros anos de sua gestão, 1844 e 1845, justamente o período no qual ocorreram as renegociações, a assinatura e a execução do contrato com a Casa Delrue & Co (1844), ele descreveu minuciosamente todas as alterações informalmente processadas nos termos originais. Analisou claramente os fracassos do seu antecessor nas tentativas de colonização com a contratação individual de trabalhadores belgas, franceses e açorianos. Além disso, citou: "considerando mais, que alguns casais de colonos empregados na importante Obra da Serra Normal da Estrella podiam melhor aclimatar-se ali, e ir formulando o núcleo de uma colônia na povoação denominada Petrópolis". Mais adiante, taxativamente, ele citou: "contratei com a Casa de Mr. Charles Delrue, negociante de Dunquerke, e ali Vice-Cônsul do Brasil (o qual havia feito proposições ao governo) a introdução de 600 casais de colonos alemães (o grifo é nosso), e oficiais dos ofícios de que mais se podia precisar, debaixo das condições explícitas, e restritas, que se acham no contrato datado de 17 de junho de 1844". Explicou Aureliano as razões que o fizeram concordar com a vinda de "famílias mais numerosas, com alguns membros ultrapassando a idade limite de 40 anos". E procurando harmonizar essas atitudes que assumira aos pronunciamentos de Paulo Barbosa e Koeler disse que: "SM o Imperador, sempre solícito pela prosperidade, e engrandecimento do seu império, logo que chegou de Dunquerke o primeiro navio Virginie trazendo a seu bordo 160 d'esses colonos, não só autorizou o seu Mordomo a oferecer ao Governo da Província as suas terras de Petrópolis para nelas se estabelecerem logo os mesmos colonos, visto que eram destinados aos trabalhos da Serra da Estrella (sic)".

Inequivocamente Aureliano estava assumindo publicamente a responsabilidade pela vinda de tais colonos alemães, descartando claramente qualquer hipótese de imprevisão ou casualidade.

Poucos dias antes do encerramento do semestre em curso, a primeira leva de imigrantes germânicos foi conduzida ao Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, a fim de aguardar o traslado para Petrópolis.

Ao referido cais, compareceu SMI D. Pedro II que, de viva voz e em alemão, apresentou votos de boas vindas ao grupo, exortando a todos com palavras carinhosas. Outrossim, assegurou-lhes todo o apoio de que poderiam necessitar e, finalmente, anunciou a concessão de uma ajuda pecuniária que ele estava oferecendo naquele momento. Ao terminar sua alocução, o Imperador foi retribuído com uma grande ovação.

Após tão tocante evento, essas pioneiras famílias partiram, cheias de esperança, para a serra que, voluntariamente, escolheram para viver dali por diante.

Fazendo pernoites no Porto de Estrella e na Raiz da Serra, o primeiro contingente de migrantes germânicos chegou a Petrópolis na tarde de 29.VI.1843. No entanto, em virtude dos Quartéis de Bragança e do Quartel das Obras Provinciais não estarem ainda concluídos, os colonos foram alojados provisoriamente no Rancho do Córrego Secco e no Quartel de Obras da Estrada Normal da Estrella no Alto da Serra, instalações essas improvisadas por Koeler, as quais cognominou de "barracas no Córrego Secco".

Nos dias posteriores os colonos tomaram conhecimento dos prazos que lhes competiriam, tendo Koeler o cuidado de procurar assentá-los, prioritariamente, nos Quarteirões cujos nomes estivessem relacionados com suas terras de origem.

O segundo contingente chegou ao Rio de Janeiro, em levas sucessivas - de 13.VI.1845 a 26.VI.1845 - que haviam sido transportadas a bordo dos Brigues Marie, Leopold, Curiex, Agripina e Maria Louise, perfazendo um total de cerca de mil migrantes.

Tendo em vista a chegada, quase simultânea, de tão numeroso contingente, Koeler acelerou a prontificação dos Quartéis de Bragança e do Quartel da 2ª Seção de Obras da Província, os quais deveriam estar prontos até o final do mês de agosto.

Com as providências tomadas, anteriormente, para tapar (isto é, fechar) as laterais dos Ranchos do Alto da Serra e do Córrego Secco, a capacidade de aquartelamento em Petrópolis subiu para cerca de mil migrantes.

No período de 11.VIII.1845 a 7.IX.1845, chegaram ao Rio de Janeiro os Brigues Jeune Leon, George, Mary Queen of Scots e Odin, trazendo mais um contingente, estimado em cerca de setecentos e setenta migrantes.

Finalmente, chegaram ao Rio de Janeiro no mesmo dia, 17.IX.1845, os Brigues Pampas e Fyen, trazendo o último contingente, estimado em cerca de duzentos migrantes.

O traslado destas corajosas famílias para Petrópolis constituiu uma verdadeira epopéia que está, há tempos, aguardando algum poeta que num estro homérico possa narrá-la à altura de sua grandeza. Muitos não resistiram às agruras do translado. Alguns desses desistiram e outros faleceram. Afinal de contas era flagrante a diferença entre a situação de dificuldades que passaram na Europa a contundente realidade tropical da inóspita Baixada.

Sobre este ponto exponencial dos Fundamentos da História Petropolitana, ainda há muito que estudar e analisar. É imprescindível resgatar plena e definitivamente a verdade histórica sobre tão caro episódio, eliminando de uma vez só o mito, o equívoco e as paixões.

É animador saber que dois pesquisadores e historiógrafos locais de grande calibre - Francisco de Vasconcellos e Paulo Roberto Martins de Oliveira - têm mergulhado fundo nas pesquisas pertinentes a esse tema. O primeiro deles (5) no que diz respeito à execução do contrato com Charles Del Rue & Co e o translado para o Brasil. E o segundo, em busca de esclarecimentos sobre o número exato de famílias chegadas a Petrópolis, bem como a exata identificação de seus componentes, locais onde foram assentados e o destino tomado por aqueles que se afastaram da Colônia.

(5) - O Dr. F. de Vasconcellos esteve em Dunquerque no ano de 1982, efetuando pesquisas in loco sobre as partidas das embarcações que transportaram para o Brasil os migrantes germânicos contratados para a Colônia de Petrópolis.


Consta que, ainda, no mês de agosto de 1845 um grande número de colonos havia se mudado para suas próprias moradias. E, até o final do ano em curso, estariam assentadas em seus respectivos prazos todas as famílias que confirmaram o engajamento em Petrópolis.

Como resultado das injunções promovidas pelo Mordomo Paulo Barbosa, o Bispo do Rio de Janeiro, D. Manoel do Monte Rodrigues de Araújo, baixou a Provisão de 1º.VIII.1845 que, dentre outras formalidades eclesiais, erigiu na natureza de Curato a "Capella da Imperial Fazenda de Petrópolis" e mandou "demarcar e murar a área que SMI concedeu para ereção do Cemitério".

Tal Ato não pode ser visualizado apenas sob ponto de vista religioso.

Dentro de uma realidade político-administrativa, a criação do Curato de Petrópolis completou a estruturação tripartite do poder na Povoação de Petrópolis e em todo o 2° Distrito da Freguesia de S.José do Rio Preto, no qual já haviam sido instalados um Juizado de Paz e uma Subdelegacia.

Entretanto, esse Curato só poderia existir no papel, pois, tanto na Imperial Fazenda de Petrópolis, como na área restante do termo estabelecido pela Provisão de 1º.VIII.1845, quaisquer capelas ou oratórios - devidamente autorizados - que pudessem, em curto prazo, ser homologados, o seriam como Capella Provisória. Outro problema criado por essa Provisão, de um certo modo intempestiva, foi a determinação de que o Cemitério de Petrópolis deveria ser destinado somente para "nele se sepultarem as pessoas católicas", o que causou grande constrangimento aos colonos não católicos.

No terceiro trimestre da Década em curso foi baixada a Resolução de 30.X.1845 que, sem qualquer menção específica, alterava o teor da Deliberação de 29.III.1844, como poderemos observar através do que constou nos seus dois artigos, citados a seguir:

Artigo 1º - "Fica subdividido em dois o Segundo Distrito de Paz, e a Subdelegacia de Policia criados na Freguesia de São José do Rio Preto, da Villa de Parahyba do Sul, pela Deliberação de 29.III.1844."; e

Artigo 2º - "Este Distrito de Paz, e Subdelegacia se chamarão de Petrópolis e terão a numeração de 3º da mencionada Freguesia, sendo seus limites a Serra Geral da Estrella, Rio Santo Antônio abaixo, Serras de Magé, Manga Larga, Maria Comprida, Santa Catharina, Serra Geral, Tacoará e Estrella (sic)".

À primeira vista, pode parecer que a Resolução de 30.X.1845 tenha sido uma quase repetição da Deliberação de 29.III.1844. No entanto, existiam significativas diferenças entre elas, as quais podem ser apreciadas em maiores detalhes no Capítulo 20.

Contudo, podemos adiantar que como resultante desses dois Atos podemos considerar que:

a nomenclatura de "2º Distrito - Petrópolis" foi modificada para "3º Distrito - Petrópolis";

houve uma radical alteração quanto ao limite norte do Distrito Petrópolis, anteriormente fixado pela "crista da Serra do Taquaril", o qual passou a ser considerado pelo "Rio Santo Antônio abaixo"; e

as linhas de limites pelos setores oeste e sul foram definidas topônimos mais atualizados, mostrando claramente que as "terras dos Altos Valles dos Rios Araras, da Cidade e Piabanha" deveriam ficar dentro do termo do Distrito Petrópolis.

Entendemos que não houve tempo para aplicação imediata dessa Resolução, não tendo a menor repercussão a alteração de 2º para 3º Distrito. Quanto ao novo limite norte - pelo Rio S. Antônio - constatamos sua aplicação nos anos subseqüentes.

Em meados do mês de novembro do ano de 1845, o Presidente da Província do Rio de Janeiro, Aureliano de Souza e Oliveira Coutinho, foi recebido em Petrópolis pelo Mordomo Paulo Barbosa e pelo Major-ICE Koeler.

Ao que tudo indica, essa vinda a Petrópolis não seria apenas uma simples visita oficial.

Cabe supor que ela tenha sido programada, especialmente, para buscar uma compatibilização entre a implementação de uma "inusitada colônia de estrangeiros", estruturada em terras da Imperial Fazenda de Petrópolis e a edificação simultânea de uma Povoação já institucionalizada por Caldas Vianna.

Porém os efeitos de tal visita que, cerca de dois meses mais adiante, começariam a se manifestar, confirmam o verdadeiro sentido do citado evento, assegurando que toda a problemática estrutural da Colônia fora avaliada e as soluções cabíveis alinhavadas.

Em depoimentos posteriores, Aureliano referir-se-ia a tais fatos e descreveria com grande detalhamento tudo que observou em relação à Petrópolis e à Colônia.

No dia 15.XI.1845 os Colonos Evangélicos promoveram uma celebração religiosa na Praça de Coblenz, à qual conferiram o caráter de ecumênica. A esse culto, oficiado pelo Pastor Avé Lallemant, teriam comparecido o Presidente Aureliano Coutinho, o Mordomo Paulo Barbosa, o Vigário Luiz Gonçalves Dias, outras figuras de destaque e um grande número de Colonos Evangélicos e Católicos. Entretanto, tal Ato Religioso não teria sido prestigiado pelo Bispado do Rio de Janeiro, bem como pela Comunidade Católica Tradicional da Povoação, fato esse que teve grande repercussão na Província.

Sem nenhuma razão aparente vinculada ao supracitado fato, o Presidente Aureliano Coutinho, logo ao chegar a Nictheroy, foi informado sobre um complô, cujo propósito era assassinar o Mordomo, durante seu regresso para a Corte.

Foram tomadas as providências policiais cabíveis e a ameaça não foi concretizada.

Porém, nada ficou apurado sobre tão desagradável fato.

Os amigos e correligionários do Mordomo, a fim de resguardar sua integridade física, o aconselharam a deixar o País por algum tempo, sugestão essa prontamente apoiada por SM o Imperador.

Pelo Decreto Imperial de 13.XII.1845 Paulo Barbosa foi designado para cumprir missão diplomática na Europa, como Enviado Extraordinário.

Contudo, ele não se afastou imediatamente da Mordomia, protelando por seis meses a partida. Ao que tudo indica, teria pesado consideravelmente para a tomada dessa decisão a necessidade que via em acompanhar a aplicação e consolidação de todas as medidas visando à legitimação de uma "Colônia de Germânicos em Petrópolis".

Muito sintomática foi a série de cinco Atos Provinciais relativos a Petrópolis, baixados entre janeiro a outubro de 1846. Constatamos que todos eles foram assinados por Aureliano, inclusive durante seus afastamentos temporários.

Vejamos quais foram esses importantíssimos Atos:

Deliberação de 10.I.1846 - Instituiu a "Caixa de Socorro e Utilidade Comum da Colônia de Petrópolis", criando um fundo para prestar assistência médica e social aos "doentes, viúvas e órfãos pobres da colônia e fazer-se as despesas de enterros, de edificação de templos, de casas para escolas, enfermarias públicas e de outros estabelecimentos de utilidade comum". As receitas do fundo "deveriam provir das contribuições dos colonos, ajudas de SMI e concessões provinciais";

Deliberação de 21.I.1846 - Redefiniu as funções provinciais no âmbito da área de interesse da Colônia de Petrópolis, estabeleceu uma única Seção de Obras da Estrada Normal da Estrella e confirmou na chefia desses dois órgãos, respectivamente, o Major-ICE Koeler e o Tenente Coronel-ICE Galdino Pimentel, ato esse que pode ser considerado como a compatibilização plena da sui generis Colônia de Petrópolis com os preceitos da Administração Provincial;

Deliberação de 16.IV.1846 - Estabeleceu nova subdivisão para a Estrada Normal da Estrella, criando a 2ª Seção, compreendida "no espaço que corta as Sesmarias do Córrego Secco e Tamaraty", colocando-a sob a direção do Major-ICE Koeler. Manteve sob a direção do Tenente Coronel-ICE Galdino Pimentel a 1ª Seção constituída pelos trechos Estrella até o Alto da Serra e Marco do Tamaraty até Parahybuna. Criou, ainda, o Conselho Diretor da Estrada Normal da Estrella, órgão destinado a coordenação das obras da 1ª e 2ª Seções.Tal Ato foi um aperfeiçoamento da Deliberação de 21.I.1846, que conferiu mais autonomia a Koeler para administrar as obras provinciais em execução na área de interesse direto da Colônia;

Lei Nº 397 de 20.V.1846 - Criou a Villa da Estrella, elevou o Curato de São Pedro de Alcântara à categoria de Freguesia, vinculando esta, ao termo do novo Município de Estrella. Foi deliberado, ainda, que o Presidente da Província ficava autorizado para mandar proceder à demarcação dos limites da Freguesia de São Pedro de Alcântara. Adiantamos que essa determinação foi cumprida dezoito dias após, ficando mantidas as mesmas delimitações fixadas para a Subdelegacia;

Deliberação de 22.X.1846 - Aprovou o "Regulamento da Colônia de Petrópolis e da 2ª Seção de Obras da Estrada Normal da Estrella", através do qual foram estabelecidas as estruturas administrativas e as incumbências desses dois órgãos. No Artigo 2º dessa Deliberação foi prevista uma consignação mensal para as "obras da 2ª Seção e das despesas privativas da Colônia" com a ressalva de que a escrituração - contabilidade - deveria ser feita separadamente. E, dentre outras categorias, foi previsto pessoal, para as áreas de saúde, instrução e segurança.

Ao mesmo tempo, a Mordomia da Imperial Casa promoveu um reajuste total na estrutura da Imperial Fazenda de Petrópolis, até então oficialmente composta pela Fazenda Córrego Secco que estava arrendada a Koeler, com vistas à sua exploração pela Companhia de Petrópolis:

no mês de abril, Koeler propôs a doação da Fazenda Quitandinha a SMI D. Pedro II;

dando continuidade às medidas para regularização territorial da Colônia, foram baixados, no mesmo dia, dois Decretos Imperiais:

Imperial Decreto Nº 261 de 14.VI.1846 - por este Ato o Major-ICE Julio Frederico Koeler foi nomeado Superintendente da Imperial Fazenda de Petrópolis, ficando definido que por Imperial Fazenda de Petrópolis deveria ser entendida a "Fazenda Córrego Secco e as demais que se lhe forem anexadas"; e

Imperial Decreto Nº 262, também de 14.VI.1846 - a Mordomia foi autorizada a promover as medidas para anexação da Fazenda Quitandinha, oferecida por Koeler;

a 22.IV.1846 foi executada a rescisão consensual do contrato de arrendamento da Fazenda Córrego Secco; e

em 3.VI.1846 foi lavrada a Escritura de Doação da Fazenda Quitandinha à SMI D. Pedro II, a qual foi anexada ao Patrimônio da Imperial Casa, passando a constituir com a Fazenda Córrego Secco a Imperial Fazenda de Petrópolis, providências essas imprescindíveis para que toda a área colonial ficasse definida em nome da Imperial Casa.

Tendo em vista toda essa série de Atos e medidas em relação à Colônia de Petrópolis, podemos constatar que, realmente, ela foi institucionalizada e capacitada para funcionar na conformidade da legislação vigente e em harmonia com o "Plano de Koeler".Conseqüentemente, a Companhia de Petrópolis entrou em processo de dissolução.

No final de junho, justamente quando tudo estava equacionado, o poderoso Mordomo deixou o Brasil. O seu afastamento da Mordomia e do País constituiu uma grande perda para Petrópolis.

O Conselheiro José Maria Velho da Silva, "o mais antigo Gentil Homem da Imperial Casa", foi designado para ocupar, interinamente, a Mordomia.

Logo ao tomar posse, o novo Mordomo baixou o "Regulamento para Medição e Demarcação dos Prazos de Petrópolis", assinado em 25.VI.1846. Por essa normativa, foi determinada a abertura de um "livro especial para assentamentos dos termos de aforamento concedidos", sem dúvida alguma, uma substancial redução na autonomia do Superintendente Koeler.

Podemos inferir que o Mordomo Velho da Silva estava tomando medidas para controlar mais efetivamente a Superintendência da Imperial Fazenda de Petrópolis, coisa que até então não preocupara muito a Paulo Barbosa.

Neste ponto do Ensaio, cabe um esclarecimento bastante oportuno. No nosso entender, na forma sui generis com que foi, finalmente, institucionalizada a Colônia de Petrópolis, ficou patente uma total diferenciação em relação às demais colônias do Império, tendo em vista a inexeqüibilidade de sua total compatibilização à Lei Provincial do Rio de Janeiro de Nº 226 de 30.V.1840, que normatizava o "Estabelecimento de Colônias Agrícolas e Industriosas na Província do Rio de Janeiro".

Enfim, era uma colônia especial ou, quem sabe, uma "imperial colônia", a qual, apesar de ainda não ter sido reconhecida pelo Governo Provincial como tal, fora oficialmente implantada. Até então, toda a documentação oficial vinha se referindo a ela como "Colônia de Petrópolis".

Com base na concepção do esclarecido ex-Presidente Paulino José de Souza sobre a tríplice estrutura do poder -"civil, judiciária e eclesiástica"- , podemos considerar que Petrópolis já atendia a todos os requisitos básicos para constituição de uma Subdivisão Administrativa da Província do Rio de Janeiro, no nível de Arraial ou Povoação. Inclusive, já estava com os seus termos de Freguesia, Subdelegacia e Juizado de Paz bem definidos e coincidentes.

Vinculada ao termo do Município de Estrella, fazia as seguintes confrontações:

ao Norte com o Curato de Sebollas e a Freguesia de São José do Rio Preto;

ao Leste com a Freguesia de Magé;

ao Sul com a Freguesia de Estrella; e

ao Oeste com a Freguesia de Paty de Alferes.

Cabe assinalar que esse termo não se referia, apenas, à área da "Povoação-Colônia" de Petrópolis, abrangida pelas primitivas Fazendas Córrego Secco e Quitandinha. Na realidade incluía toda a parte do TPCP, ao sul de São José do Rio Preto e Sebollas, território esse criado como o 2° Distrito Petrópolis da Freguesia de São José do Rio Preto.

Quanto à estruturação da componente Eclesial local, o primeiro passo já fora dado com a criação de Freguesia, restando apenas a sua estruturação em torno de uma Sede Paroquial, a fim de que pudessem ser estabelecidos os seus elementos tradicionais, tais como, a Irmandade, a Mesa Paroquial e a Junta de Qualificação, órgãos esses indispensáveis, não só com referência aos aspectos Eclesiais, mas também aos Administrativos, inclusive quanto aos elementos para execução do processo eleitoral na comunidade.

O Vigário de Freguesia de São Pedro de Alcântara era o Cônego Luiz Gonçalves Dias Correa da Silva Goulão que acumulava esse encargo com o de Vigário Geral da Vara Eclesial de São José do Rio Preto. Até então, nenhuma providência fora dada para o estabelecimento de uma Sede-Paroquial Provisória.

A Subdelegacia passou a ser chefiada pelo Major-ICE Koeler que contava com um ajudante, o Vice-Diretor da Colônia Alexandre Cirne. A sua sede foi instalada em uma das dependências do "Quartel da Província", na Rua do Imperador.

Apesar de não haver um Juiz de Paz residente, as questões judiciais deveriam processar-se por Estrella, inconveniente esse bastante minimizado pela proximidade à Sede da Comarca, na Villa de Estrella.

Nesta altura podemos asseverar que as medidas iniciais tomadas por Caldas Vianna - criação da Subdelegacia, Juizado de Paz e Curato, no 2º Distrito Petrópolis da Freguesia de São José do Rio Preto - eram absolutamente pragmáticas e não se restringiam, apenas, ao atendimento de determinados requisitos para criação de uma "Povoação-Colônia implantada na Imperial Fazenda de Petrópolis".

Entretanto, tal postura complicaria consideravelmente o desenvolvimento da "Colônia de Petrópolis", fato esse que teria pesado bastante para o repentino afastamento de Caldas Vianna da Presidência Efetiva da Província, em março de 1844.

Voltando à questão da componente Eclesial em Petrópolis, não podemos deixar de assinalar que a demora para sua estruturação era perfeitamente cabível, pois todos sabiam quão complexos e lentos eram os processos para instalação de uma Freguesia ou, até mesmo, de uma simples igreja.

E, no caso específico de Petrópolis, essa questão era bem mais complicada, pois resultara de um processo evolutivo artificial, envolvendo uma delicada questão religiosa, ante o elevado número de Colonos Evangélicos que se fixou no local.

No "Plano de Koeler" - por determinação expressa de SMI no Imperial Decreto Nº 155 - estava prevista uma grande área para construção da Matriz de São Pedro de Alcântara, a qual teria que passar por um trabalhoso, demorado e dispendioso processo de preparação do terreno através de obras de "desmorramento e terraplenagem", até que fosse possível dar início à construção, propriamente dita.

E a Capella da Imperial Fazenda, citada na Provisão de 1º.VIII.1845, como Sede do Curato, estava apenas em fase inicial de planejamento de construção no Prazo nº 124 da IFP.

Naquele período o Vigário da Freguesia de São Pedro de Alcântara, Pe. Luiz Gonçalves Dias Correa da Silva Goulão prestava, informalmente, assistência religiosa na capela particular de sua residência na Fazenda Samambaia - situada fora da área colonial - da mesma forma como vinha procedendo anteriormente, quando desempenhava o papel de Coadjutor da Freguesia de São José do Rio Preto.

Em 30.VI.1846 foi realizado o primeiro Ato Público Católico em Petrópolis, constante da celebração de uma Missa Campal na Praça de Coblenz, a qual foi oficiada pelo Núncio Apostólico Monsenhor Bedini e assistida pelo Vigário da Freguesia de São Pedro de Alcântara, Cônego Luiz Gonçalves Dias. Participaram dessa cerimônia autoridades provinciais e locais e um grande número de fieis.

Cerca de vinte dias após, foi celebrado na mesma praça um Culto Campal Evangélico, o qual também foi muito concorrido.

Porém, sentimos que teriam de ser vencidos, ainda, muitos obstáculos, não só para aceitação das pretensões espirituais dos colonos, mas também para o ajustamento da crítica estrutura religiosa local.

No final do mês de setembro do ano em curso a escritora austríaca Ida Pfeifer, na viagem que empreendeu a Minas Gerais, visitou Petrópolis, sobre a qual prestou um interessante depoimento, do qual selecionamos os seguintes trechos:

"Uma única rua existia então na cidade";

"Ali havia então pequeno renque de casas";

"Em grande área recentemente roçada armava-se o arcabouço de um edifício de proporções até certo ponto avultadas, a casa de campo do Imperador... as portas de acesso, baixas e estreitas, formavam estranho contraste com as janelas altas e largas";

"Em torno da residência Imperial crescia a cidade";

"Pelas diversas gargantas e vales da vizinhança já se multiplicavam as choupanas dos colonos alemães";

"Aos operários e artífices e aos negociantes procurava a administração da fazenda imperial localizar nos arredores do Paço"; e

"Aos agricultores se concediam prazos maiores a duas ou três gueiras francesas, em posição mais afastada".

Esse oportuno e bem formulado relato propiciou uma realista visão panorâmica da Colônia naquela fase pioneira.

Infere-se que a Rua do Imperador, com um significativo renque de casas já edificadas, dava idéia de uma configuração "de cidade", ressaltando o contraste dessa área com a dos Quarteirões, onde ficavam as "choupanas dos colonos alemães".

Do Palácio de Verão, ela só poderia ter visto a ala direita (de um observador colocado na testada), cujas paredes já estavam levantadas. Sobre o citado "estranho contraste entre as portas de acesso e as janelas", entendemos como um julgamento precipitado feito por quem não conhecia o projeto global, pois as referidas portas faziam parte da estrutura interior do prédio - comunicavam a ala direita com o "hall" de entrada e não ficariam à vista após a construção do bloco central.

Após três dias de permanência na serra, a ilustre viajante regressou à Corte.

Por um desses caprichos da crônica sensacionalista, Ida Pfeifer ficou famosa pelo atentado que sofreu na subida da Serra da Estrella, praticado por parte de um escravo foragido. E as excelentes informações registradas por ela ficaram em segundo plano, e muito pouco exploradas.

Em janeiro de 1847 a "colônia da Serra da Estrella" completou dois anos, a partir do seu lançamento em torno da Companhia de Petrópolis.

Podemos constatar, nesse tão curto período, uma extraordinária evolução quanto à urbanização e aos demais setores da "Povoação-Colônia".

O depoimento da lúcida escritora Ida Pfeifer apresentado anteriormente mostra nitidamente como um europeu visualizava Petrópolis que, segundo ela, já exibia uma imagem - guardadas as devidas proporções - de cidade.

Com base no resultado de um rápido balanço sobre a evolução da Colônia nos dois últimos anos - complementado pelas supracitadas informações - tentaremos apresentar uma idéia geral sobre o estágio em que se encontrava o processo de urbanização de Petrópolis:

a ala direita do Imperial Palácio de Verão (vista da testada) estava praticamente pronta, faltando, apenas, alguns detalhes de acabamento, as unidades de apoio e serviços e a rede de abastecimento d'água;

os trabalhos de abertura, nivelamento e retificação de canais das ruas do Imperador, da Imperatriz, de D. Maria II e de D. Affonso já estavam bastante adiantados, bem como aqueles das ruas Thereza, de Aureliano, de D. Januária, do Mordomo e do Honório, vias essas que, juntamente com um longo trecho da Rua do Imperador, constituíam o novo segmento da Estrada Normal da Estrella que cortava a Villa Imperial e a Villa Thereza;

quanto aos Quarteirões Pioneiros, verificamos que seus Caminhos Coloniais já estavam abertos e algumas das primitivas habitações passavam por substanciais melhoramentos;

para sediar a Diretoria da Colônia, foi improvisado o "Quartel da Província", na Rua do Imperador, que também abrigava as outras repartições provinciais existentes;

o Engenho de Serrar, de grande porte, que a Superintendência da Imperial Fazenda de Petrópolis instalou, em 1845, no Prazo Nº 1430 da IFP, na Rhenania Inferior, funcionava a plena carga;

e um novo contrato acabara de ser assinado, com o Engenheiro Gustavo de Frontin, para a construção da Capella Católica no Prazo Nº 124 da Rua da Imperatriz;

quatro grandes prédios residenciais de alvenaria estavam sendo concluídos. E o Hotel, mencionado por Koeler nos Estatutos da Companhia de Petrópolis, já se encontrava edificado no Prazo Nº 1 da IFP da Rua do Imperador, defronte à esquina da Rua do Mordomo e, provavelmente, já teria sido arrendado a fim de alojar o Hotel Suisso;

para a assistência médico-hospitalar, Petrópolis contava com o Hospital da Colônia, assim batizado por Koeler após ter mandado "rebocar e endireitar os Quartéis de Bragança", onde dois anos antes ele instalara, provisoriamente, as três "Enfermarias Provisórias" que atenderam aos recém-chegados colonos. Esse hospital não era custeado pelas verbas orçamentais provinciais e suas despesas deveriam correr por conta da Caixa de Socorro e das doações; e

a Instrução na Colônia de Petrópolis vinha sendo, desde o início da chegada dos colonos, uma preocupação constante para Koeler. Em agosto de 1845 ele improvisou no Quartel de Bragança a primeira escola informal para crianças alemães da Colônia. E pela Deliberação Provincial de 26.X.1846, foram criadas as duas primeiras Escolas Públicas locais - uma para meninos e a outra para meninas - destinadas a ministrar instrução primária às crianças da localidade. Ambas demorariam, ainda, algum tempo para entrar em funcionamento.

Mesmo diante desse tão positivo quadro de realizações, sentimos que algo de estranho pairava sobre a atuação de Koeler na Diretoria da Colônia, havendo rumores de possíveis descontroles em sua gestão.

Por outro lado, todos reconheciam que tão ciclópico desenvolvimento era devido unicamente ao extraordinário espírito realizador de Koeler, que acumulando quatro cargos em Petrópolis esbanjava competência e dedicação, atributos esses indispensáveis para a consecução dos seus grandiosos projetos.

Todavia, ele não dispunha de auxiliares, na qualidade e na quantidade, suficientes para cuidar do acompanhamento contábil financeiro dos seus encargos.

Koeler jogou tudo nesse seu empreendimento e, até mesmo, "os seus próprios cabedais", como se dizia na época.

A crise que se avizinhava não traria maiores conseqüências se Koeler pudesse contar com o competentíssimo Paulo Barbosa que, certamente, evitaria todos os possíveis problemas. Entretanto, ele nada poderia esperar do novo Mordomo Velho da Silva que parecia não concordar muito com suas atitudes dinâmicas e eficientes que sempre levaram seus empreendimentos ao sucesso.

Outra questão que também teria suscitado rumores foi o apoio que, supostamente, Koeler prestara ao Visconde de São Salvador de Campos, José Alexandre Carneiro Leão, por ocasião da Eleição Extraordinária para preenchimento de uma Cadeira no Senado, à qual também concorria Saturnino de Souza e Oliveira, irmão do Presidente Aureliano Coutinho.

Tal atitude de Koeler, que jamais poderá ser comprovada ou afastada, selou o rompimento com o antigo admirador e aliado Aureliano.

Verdade ou não, esse fato carreou grandes problemas para Koeler.

Surgidas aleatoriamente, ou provocadas insidiosamente, as acusações de "supostas irregularidades" apontadas nas gestões de Koeler à frente da Colônia e da 2º Seção de Obras da Estrada Normal da Estrella surtiram efeitos desastrosos.

Em nenhum momento Aureliano manifestou qualquer tipo de apoio, ou mesmo, condescendência para com o acusado, evidenciando um cabal rompimento.

Ao contrario do que vinha ocorrendo habitualmente, todos os Atos referentes à Colônia de Petrópolis passaram a ser assinados pelo Vice-Presidente em exercício, José da Silva Paranhos.

E assim aconteceu com o "Novo Regulamento da Imperial Colônia de Petrópolis", aprovado pela Deliberação de 26.V.1847, em cujo caput constava:

"Tendo a experiência mostrado que os regulamentos e ordens que ora regem a Imperial Colônia de Petrópolis e as obras da 2ª Seção da Estrada Normal da Estrella, dão abertas a alguns abusos e faltas que muito convém remover e evitar...".

Tais "abusos e faltas" poderiam ter seus fundamentos na transferência de verbas oficiais de uma repartição para outra, a fim de possibilitar o atendimento de necessidades julgadas mais prementes, sem as devidas autorizações superiores e os cuidados para evitar o descontrole na contabilidade dos órgãos por ele geridos, principalmente naquilo que se referia à Caixa de Socorro.

Essa última irregularidade era mais grave, pois foi detectado um possível alcance, devido ao não recolhimento, ou emprego indevido, de recursos provenientes das taxas dos aforamentos cobrados pela Imperial Fazenda de Petrópolis, em favor da citada Caixa de Socorro.

No decorrer do dia 1º.VI.1847 Koeler deixou de assinar os Termos de Aforamento processados na Superintendência e, a partir do 15º registro daquela data, o Vice-Superintendente, Alexandre Cirne, passou a assiná-los. Não há como comprovar se tal alteração teria partido de uma decisão do próprio Koeler ou de uma determinação do Mordomo.

E, pouco depois, a 30.VI.1847 foi criado pela Mordomia o "Livro de Ordens das Obras do Imperial Palácio", evidentemente visando a propiciar um controle mais efetivo na contabilidade daquele setor.

Tais fatos mostram que a gestão de Koeler na Superintendência da Imperial Fazenda também estava sendo intensamente vigiada.

No âmbito da Administração Provincial foram efetuadas investigações mais acuradas, porém nenhuma acusação formal foi apresentada. Todavia, o dano causado à reputação de Koeler, durante o terceiro trimestre de 1847, foi muito pesado.

A Deliberação de 16.IX.1857, também assinada pelo Vice-Presidente José Maria da Silva Paranhos, estourou como uma bomba na serena Petrópolis. O Governo Provincial, alegando medidas de contenção, decidiu aglutinar as funções de Direção das duas Seções da Estrada Normal da Estrella, determinando que o cargo de Diretor, da recém-instituída Seção Única da Estrada Normal da Estrella e o de Diretor da Imperial Colônia de Petrópolis passassem a ser exercidos cumulativamente.

O, então, Diretor da 1ª Seção, Tenente Coronel-ICE Galdino Justiniano da Silva Pimentel, que ocupava um posto acima de Koeler na hierarquia militar, assumiu, na data de 17.IX.1847, o recém-criado cargo unificado, ficando subentendida a dispensa de Koeler em ambas funções que ocupava.

Essa teria sido a sutil solução diplomática para o a afastamento do extraordinário idealizador e realizador da "Colônia da Serra da Estrella".

O Governo Provincial não moveu nenhuma medida judicial ou administrativa contra Koeler. Tampouco, nenhum pronunciamento eximindo-o de culpa foi feito.

A partir daí, Koeler continuou exercendo, apenas, a função de Superintendente da Imperial Fazenda e, ao que tudo indica, merecendo ainda o respeito por parte de SMI.

No dia 23.IX.1847 a Imperial Colônia de Petrópolis engalanou-se para receber a Família Imperial que pretendia gozar uma longa temporada na serra.

SMI D. Pedro II foi recebido pelo novo Diretor da Imperial Colônia de Petrópolis, Tenente Coronel-ICE Galdino Pimentel.

Essa temporada seria muito longa e estender-se-ia até 12.III.1848. Durante ela, SMI passaria diversos curtos períodos na Corte para atendimento da Agenda Imperial e, em Petrópolis, ele receberia visitas ou despacharia com inúmeros dignitários e autoridades brasileiros e estrangeiros.

Este bem sucedido episódio que se tornaria um hábito, foi o marco de uma longa série de outros acontecimentos semelhantes que caracterizariam Petrópolis como "estância serrana de clima ameno e salubre", "refúgio da Família Imperial" e, ainda, "a Segunda Corte do Império".

A Família Imperial ficou alojada na "casa-sede do Córrego Secco" que vinha, desde outubro de 1843, sofrendo consideráveis reformas e ampliações, a fim de oferecer plenas condições de habitabilidade em situações semelhantes, enquanto a Ala Direita do Palácio de Verão (vista da testada) não estivesse plenamente terminada e aparelhada.

Durante os inúmeros passeios, visitas e inspeções, que se estenderam até meados do mês de novembro, SMI foi sempre acompanhado pelo Superintendente da Imperial Fazenda de Petrópolis. E, na tarde do dia 27.IX.1847, D. Pedro e a Imperatriz visitaram a chácara onde Koeler estava residindo com sua família, no Quarteirão Rhenania Inferior, cuja área era superior a 35.000 braças quadradas.

Tendo em vista essa carinhosa atitude para com Koeler, conclui-se que os desagradáveis fatos ocorridos não comprometeram as relações pessoais e funcionais de SMI com o seu preposto na Imperial Fazenda de Petrópolis.

Na fatídica data de 21.XI.1847, um triste acidente, levou à morte o Major-ICE Julio Frederico Koeler.

Nem mesmo em seu "calvário" Koeler foi poupado, em face de inúmeras insinuações de que teria sofrido um atentado ou cometido suicídio.

Muitos pesquisadores tentaram elucidar esse delicado enigma, cujas versões variavam entre atentado, suicídio ou acidente.

A competente historiógrafa Thalita Casadei manifestou-se pelo suicídio, aliás, uma hipótese perfeitamente possível. Entretanto, para que tal versão pudesse ser aceita, seria necessário o conluio de todas as testemunhas oculares do possível acidente no sentido de ocultar um ato tão desesperado por parte do arrojado e equilibrado Koeler.

O cuidadoso pesquisador e historiador Gabriel Kopke Fróes escreveu alguns artigos intitulados "Quem Matou Koeler?", defendendo a tese do acidente casual, que teria sido provocado por Francisco Alves de Britto. Do último artigo de Gabriel Kopke Fróes sobre a questão em tela, publicado na edição de 1984 da "Revista do Instituto Histórico de Petrópolis", páginas 39 a 47, extraímos os seguintes comentários do autor:

"Foi aí pelos idos de 1940 que Frei Estanislau Schaette OFM - sacerdote virtuoso e historiador emérito - dirigiu-se a Magé e lá descobriu numa montanha de papéis de velho cartório, documento da mais transcendental importância para a história de Petrópolis: os autos do processo policial e judicial da morte de Koeler (sic)"; e

"E a 10 de novembro de 1840, Pequena Ilustração publicava sob os títulos Breves Notícias Petropolitanas de Tempos Imemoriais e Major Koeler, o depoimento bomba do sempre lembrado franciscano sobre o assunto", texto esse que será integralmente transcrito mais adiante.

Vejamos o que G. K. Fróes transcreve a respeito da matéria de Frei Estanislau Schaette publicada na supracitada edição da Pequena Ilustração:

"As atas do processo tiveram início na residência do Major Koeler a 21 de novembro de 1847 e narram a triste cena da morte desse grande engenheiro e benemérito de Petrópolis. O Subdelegado estava às portas da morte e o 1º substituto José Alexandre Alves Pereira Cirne redigiu o inquérito policial. Funcionaram como peritos os drs. Cândido Borges Monteiro e Tomás Charbonnier";

"O moribundo Major Koeler relatou o drama na presença das testemunhas Cirne, Pedro José da Câmara, Silvestre J. de Pinho Carvalho, José Gomes de Araújo e Leopoldo Henrique Botelho";

"Francisco Alves de Britto que tinha dado o malogrado tiro foi absolvido em Petrópolis a 27 de novembro de 1847 e na Villa de Estrella no dia 1º de dezembro do mesmo ano"; e

"Os insetos impiedosos cavaram furos e verdadeiros corredores em todas as direções pelos papéis dessas atas que relatam circunstâncias do desenlace daquele a cujo talento e energia, a linda cidade serrana deve grande parte de sua beleza e fama (O grifo é nosso)".

Mais adiante, Gabriel Kopke Fróes comentou no supracitado trabalho que:

"Hosana! Mencionava-se pela 1ª vez - e de maneira a não deixar dúvidas - o nome do verdadeiro matador de Koeler, Francisco Alves de Britto".

"É de se concluir, logicamente que tenha sido Francisco Alves de Britto Maia, o amanuense";

"Que ligação teria, no entanto, o nosso Francisco Alves de Britto Maia - se, ao que tudo indica, se trata do mesmo Francisco Alves de Brito mencionado por Frei Estanislau - com Maria Isabel Alves de Brito, aquela menina que Koeler já no estertor da morte, solicitou à esposa que conservasse em sua companhia? Não é, também, de se presumir tratar-se de parente - até de filha quem sabe - de Britto Maia (o grifo é nosso)"; e

"É pouco, como se vê, o que se sabe sobre o indigitado responsável pelo acidente de 21 de novembro de 1847". Pouco, mas suficiente para deixar claro que Koeler tendo reconhecido a casualidade do tiro que o feriu, perdoou ao amigo a terrível negligência (o grifo é nosso).

Como podemos constatar, G. K. Fróes nada afirmou categoricamente, deixando transparecer algumas dúvidas sobre a cabal identidade do autor do disparo fatal.

Arrematando sua tese, G. K. Fróes argumentou o seguinte:

"A grande revelação de Frei Estanislau, em conclusão, deixou esclarecido definitivamente:

o nome do matador de Koeler;

que foram cumpridas as formalidades legais por ocasião do acidente fatal;

que o réu, submetido a julgamento em Petrópolis e na Villa de Estrella, foi absolvido; e

que o próprio Koeler reconheceu a casualidade do disparo feito por Francisco Alves de Britto, perdoando-o".

Conforme estamos vendo, de forma alguma, Gabriel Kopke Fróes mencionou taxativamente o nome de Francisco Alves de Britto Maia como autor do disparo.

Ademais, o título do artigo, apresentado na forma interrogativa, parece sugerir um caso de dúvida.

Mais recentemente, o historiógrafo itabapoanense, Desembargador Dr. Antonio Isaias da Costa Abreu, publicou o livro, "Koeler", resultante de um infatigável trabalho de pesquisa em busca de novas fontes primárias sobre o tema. Numa parte de sua obra confirmou a hipótese de que Koeler fora vitimado por acidente e provou que o autor do disparo fora um quase homônimo de Francisco Alves de Britto Maia, chamado Francisco Alves de Britto.

A prematura e trágica morte de Koeler o elevou, num relance, ao status de herói.

Esta tragédia apagou a memória sobre as pequenas irregularidades que, fatalmente, seriam altamente exploradas, caso ele não tivesse morrido tão cedo. Bloqueou, também, invejas e ressentimentos que poderiam redundar em novas calúnias.

E, talvez, isto tudo tenha constituído o aval para prosseguimento do Plano de Koeler, tal qual fora organizado.

Na data de 24.XI.1847, Alexandre Cirne assumiu, interinamente, o cargo de Superintendente da Imperial Fazenda de Petrópolis.

O restante do ano foi melancólico para a Colônia que por força da Deliberação de 26.V.1847 passou, definitivamente, à denominação de "Imperial Colônia de Petrópolis".

Essa alteração não resultou apenas de uma casualidade ou de um mero preciosismo.

Ela foi introduzida deliberadamente, a fim de ressaltar a especificidade dessa Colônia, desenvolvida em terras particulares do Imperador.

Com o intempestivo desaparecimento de Koeler, encerrou-se a bela e produtiva fase iniciada em meados dos Anos 30, após a chegada à Serra da Estrella desse extraordinário engenheiro militar e homem público, a qual terminou por ocasião de sua morte, no exato momento em que se consolidava a etapa embrionária de implantação da "Povoação-Colônia", exatamente como seu idealizador havia planejado e executado.

É verdade que muitas medidas e decisões positivas em relação aos fundamentos de Petrópolis foram tomadas por autoridades da Província e do Império. Porém, na maior parte desses casos pudemos sentir a influente, inteligente e persistente ação de Koeler que agindo, até, pelos bastidores, sempre conseguia o que pretendia. Mas em momento algum deixou transparecer que buscava colher para si os méritos pela autoria dessas realizações.

Estamos certos que a nova fase que estava sendo inaugurada pelo Tenente Coronel-ICE Galdino Justino da Silva Pimentel, também contaria com a influência de Koeler, absorvida durante o harmônico e produtivo relacionamento que os dois mantiveram nas Obras Provinciais e no Conselho Diretor da Estrada Normal da Estrella.

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