Ensaio entregue pelo autor a 20/01/2006 para inclusão no site, dividido em partes conforme melhor fosse.

PETRÓPOLIS - A SAGA DE UM CAMINHO (10)
Gênese e Evolução do Território Petropolitano


Carlos Oliveira Fróes

Capítulos 10 e 11

Capítulo 10

O TPCP na Década de 20

A Terceira Década do Século XIX foi marcada por eventos que iriam provocar profundas alterações no Brasil.

Também para o TPCP seria um período de transformações, que culminaria com um ato - de natureza particular - praticado por SMI D. Pedro I que iria condicionar o futuro dessa micro-região serrana.

Voltando nossa atenção para a, então, mais importante área do TPCP - "as terras dos Correa" - verificamos que, logo no início do ano de 1820, D. Archangela Joachina da Cunha Barbosa deixou, definitivamente, o Rio de Janeiro para residir na fazenda do irmão, Pe. Correa. Esse fato aconteceu quando sua última filha solteira, D. Maria Inez, se casou com José Marques de Sá. Além da companhia e assistência que essa irmã poderia prestar ao Pe. Correa, a vinda foi oportuna, porque doravante ela poderia dar mais atenção ao "embrião da Fazenda Olaria" que lhe coubera por herança.

Pelo Alvará de 4.IX.1820, foi criada a Villa de Paty do Alferes que, juntamente com as Villas de Magepe e Cantagallo, iria envolver o TPCP e condicionar o estabelecimento futuro do seu termo.

Antes de darmos prosseguimento, cabe prestar alguns esclarecimentos necessários à compreensão do processo de estruturação territorial do TPCP que estava se iniciando.

Assim sendo, ressaltamos que, até então, as Cidades e as Villas constituíam os elementos da Divisão Civil de uma Capitania ou Província e os Arraiais eram os elementos das Subdivisões, os quais, sem obedecer a uma norma rígida, podiam ser considerados como Distritos. Porém as Freguesias, em determinados casos, também funcionavam como Subdivisões das Cidades e Villas

Dentro dos critérios vigentes no Setor Eclesiástico, as Freguesias constituíam os elementos da Divisão Eclesial de um Bispado. Os "Curatos" eram os elementos das Subdivisões das Freguesias, mas em situações especiais atuavam como Divisões das Freguesias. Tanto as Freguesias como os Curatos podiam ser designados Distritos das Freguesias.

Quanto às "Divisões do Setor Judicial", a situação era bem mais complexa, pois sua estrutura baseava-se num sistema independente, cujos elementos básicos das Divisões eram as Comarcas. E os Juizados - também citados como "Juízos" - eram as Subdivisões das Comarcas, cujas jurisdições ou termos, nem sempre acompanhavam aqueles adotados nas "Divisões ou Subdivisões" dos outros dois Setores.

Acentuamos que essa era uma época de transição marcada pelo ocaso da Tradição Filipina e o despertar da Nova Realidade do Império, o que somente seria solucionado a partir de 1828, através das regulamentações dos dispositivos da Constituição de 1824.

Até então, os Arraiais, Villas e Cidades vinham sendo homologados segundo os critérios das Ordenações Filipinas - ou do Reino - não vigorando, ainda, o conceito de Município. Na Capitania do Rio de Janeiro, tal qual nas demais congêneres, competia ao Governo Geral baixar os Atos de criação dos elementos das "Divisões Civis".

Entretanto, os processos de fixação dos respectivos termos - áreas de jurisdição - impostos nos Atos de Criação corriam pelo Setor Judicial, ao invés de serem conduzidos pela Administração Civil.

Nos processos de Criação das Villas, via de regra, a definição das divisórias dos respectivos termos, os Auditores nem sempre levavam em conta os "limites naturais", priorizando uma harmonização com os termos dos Juizados.

No presente caso da criação da Villa de Paty do Alferes, como também naqueles pertinentes às criações das Villas de Magepe e Cantagallo, verificamos que todos os três processos de delimitação foram desastrosos, devido às indefinições e má escolha das divisórias. (1)

(1) - Até então, as fixações dos limites para as Divisões Civis vinham sendo processadas pela autoridade competente do Setor Judicial. Somente a partir de 1828, com a regulamentação do conceito de Município, tal responsabilidade passaria para as Câmaras Municipais, cujas Deliberações a esse respeito deveriam ser submetidas à aprovação da Administração Provincial.


Com base numa consulta feita à Ouvidoria do Rio de Janeiro, foram diretamente estipulados no Alvará de 1º.IX.1820 os limites da nova Villa de Paty do Alferes, cujo termo foi fixado pelos seguintes limites:

pelo norte a Serra da Mantiqueira e o Rio Parahybuna;

pelo leste a Villa de São Pedro do Cantagallo;

pelo sul o "seguimento da Serra do Mar e a Cordilheira do Tangoá (sic)"; e

pelo oeste a Villa de São João do Príncipe.

No mesmo Ato, constou um esclarecimento, citando que deveria ser "excluída do mesmo termo a Freguesia de Nossa Senhora da Glória de Valença, que já foi servido mandar erigir em Villa (sic)".

Ficou explícito no Alvará supra que Paty do Alferes deveria limitar ao leste com o extremo oeste do termo da Villa de Cantagallo, o que somente seria factível no trecho do Piabanha, entre sua barra no Parahyba e a Barra do Rio Preto, ponto esse onde findava o "Território Serra-Acima de Magepe", cujo limite ocidental ficara estabelecido pelo "do Córrego Secco e do Piabanha". Outrossim, o limite norte fora fixado pelo Rio Preto e o oriental pelo Rio Paquequer Pequeno.

Ocorre que Cantagallo só poderia limitar com Paty do Alferes a partir da Barra do Rio Preto no Rio Piabanha e o Rio Parahyba, pois a jusante da Barra do Rio Preto até a "paragem do Córrego Secco", estaria interposta a parte Serra-Acima do termo da Villa de Magepe, cujos limites com a Villa de Cantagallo estavam explicitamente descritos no Ato de 9.V.1815, da Ouvidoria Geral do Rio de Janeiro.

Mas havia, ainda, um outro problema muito mais complexo a respeito dos reais limites leste da Villa de Paty do Alferes com a Villa de Magé, devido à absurda fixação do limite ocidental da Villa de Magepe pelos "seguimentos dos Rios Inhomirim, Secco e Piabanha (sic)", o que, certamente, iria acarretar uma série de conflitos em futuro próximo.

Em março de 1821, o diplomata e mineralogista inglês, Alexander Caldcleugh, passou pela Estrada Geral da Estrella e do seu relato selecionamos cinco depoimentos que podem dar uma idéia bastante realista sobre as principais ocupações do TPCP, notadamente, a "localidade do Córrego Secco" e a Fazenda do Pe. Correa, bem como, sobre a Estrada Geral e as cargas procedentes de Minas Gerais que transitavam por ela:

a respeito do trajeto entre as Fazendas Mandioca e a do Pe. Correa, ele afirmou que era uma "estrada relativamente boa";

ao entrar nas terras pré-petropolitanas ele fez o registro de uma "pequena fazenda chamada Córrego Secco";

quando ele divisou a Fazenda Tamaraty, mencionou que "as aparências de cultura já eram mais freqüentes";

sobre a Fazenda do Pe. Correa, onde pernoitou no dia 30, citou: "uma extensa propriedade, em excelente ordem, produzindo anualmente grande quantidade de milho" / "plantou grandes extensões de pêssegos e uva" / "tratamento do ferro para confecção de ferraduras pelo método russo e não mais pelo sueco"; e

sobre as cargas procedentes de Minas Gerais disse que elas vinham "por extensas tropas carregadas de algodão, milho e panos grosseiros".

Alguns historiógrafos queixaram-se da frieza com que Caldcleugh teria apresentado seus relatos. Contudo, entendemos que as informações que ele nos repassou sobre o TPCP, apesar de tão concisas e diretas, foram de grande valia.

No início do ano de 1821, foi iniciada a construção da Ponte de Parahybuna, uma das prioridades do plano de adequação da Estrada Geral de Minas Gerais. Essa obra foi conduzida pelo "Inspetor das Estradas do Rio de Janeiro", José Antonio Barbosa Teixeira - o Capitão Tiramorros - e sua prontificação estava prevista para ocorrer no prazo de três anos.

No final do ano em curso, SMR D. João VI regressou para Portugal, deixando um saldo bastante favorável em relação às perspectivas do TPCP.

Com toda justiça, esse Monarca merece ser considerado um benemérito do TPCP, pois ousou transformar o vetusto "Caminho Novo" - incluindo o Atalho - numa Estrada Geral, chegando bem perto desse intento.

Ademais, ele revigorou a relação bipolar Minas Gerais - Porto do Rio de Janeiro, o que foi extremamente providencial para as terras pré-petropolitanas.

Seu primogênito, SA D. Pedro de Alcântara, na qualidade de Príncipe Regente, assumiu provisoriamente o Governo do Reino Unido Brasil.

O primeiro contacto - devidamente comprovado - de SA D. Pedro com o TPCP ocorreu em 1822 durante a viagem que fez para Villa Rica a fim de conquistar o apoio político dos mineiros, considerado imprescindível para a consecução de seus pretensiosos planos em relação à autonomia do Brasil.

No trajeto de ida, cruzou - do sul para o norte - todo o TPCP.

E, no dia 25.III.1822, hospedou-se e pernoitou na Fazenda do Pe. Correa, da qual teria levado uma excelente impressão.

Pouco se soube a respeito do trajeto de volta, porém consta que SA, a partir da localidade de Encruzilhada, teria preferido utilizar o "Caminho de Terra-Firme", por Pau Grande, Morro Azul, Tinguá e Iguassu.

A Proclamação da Independência do Brasil e a instalação de um Governo Imperial, estritamente voltado para os problemas brasileiros, foram episódios de inestimável valor para o TPCP, tendo em vista a pequena distância que o separava da futura Corte Imperial.

Mas isso não iria provocar efeitos imediatos, tampouco em curto prazo, ficando óbvio que resultados positivos só poderiam ser colhidos após a consolidação do novo regime.

No mês de janeiro de 1823, o naturalista francês, Augustin François César Prouvençal de Saint-Hilaire cruzou o TPCP, fazendo o primeiro pernoite na Fazenda Tamaraty, o segundo no Rancho do Sumidouro e o terceiro na Fazenda do Secretário.

Extraímos do livro "Viagem às Nascentes do Rio São Francisco", escrito por esse notável viajante, homem de ciências e excepcional cronista as seguintes citações, direta ou indiretamente, ligadas ao TPCP:

Fazenda Tamaraty - "o rancho da Fazenda Tamaraty que se encontrava atulhado de tropeiros e mercadorias";

Fazenda Samambaia - "bela fazenda chamada Samambaia";

Fazenda do Pe. Correa - "a fazenda propriamente dita foi construída, num vasto espaço entre os morros, ao nível da estrada" / "o aspecto desse valle, tão bem cultivado entre as ásperas montanhas que cercam, é algo que surpreende e encanta o viajante";

Sumidouro - "rancho extremamente modesto";

Fazenda do Secretário - "o povoado mais importante que encontrei entre Sumidouro e Boa Vista da Pampulha, onde pernoitei"; e

Caminho do Rio Preto - "há muito tempo que esse caminho vinha sendo usado como um atalho, mas unicamente por viajantes a pé, por ser menos longo que a estrada de Villa Rica. Por ocasião de minha viagem, fazia seis anos que tinha sido inteiramente aberto ao público".

Os excelentes depoimentos sobre as fazendas e localidades do TPCP não carecem de qualquer tipo de comentários.

Quanto às menções sobre o "Caminho do Rio Preto" - aparentemente nada tendo a ver com o TPCP - nós as consideramos de capital importância para elucidação das origens da via marginal citada documentalmente em 1750 como "o caminho novo que abriu o Pe. Felipe Teixeira Pinto" que se desenvolveu, a partir das "terras do sul de Minas", em busca do "Caminho de Terra-Firme", no Vale do Rio Ubá. (2)

(2) - Ver no Capítulo 4, uma importante menção a “esse caminho” e sua conexão ao “embrião do Caminho do Sardoal”.


Parece oportuno mencionar que uma das ramificações dessa via conectava-se ao Caminho do Sardoal. Com as informações prestadas por Saint Hilaire, a respeito de que o franqueamento do Caminho do Rio Preto teria ocorrido por volta de 1812 e que ele "era usado há muito tempo (sic)", fica patente a remota existência daquele "embrião de caminho", sobre o qual nos referimos anteriormente, quando relatamos fatos ocorridos na Banda Oeste do Atalho, durante o Terceiro Quartel do Século XVIII.

No ano seguinte, o Brigadeiro Raymundo João da Cunha Mattos também cruzou o TPCP, passando pela Estrada Geral da Estrella. No dia 12.III.1823, ele fez seu primeiro pernoite, Serra-Acima, no "modesto Rancho do Almeida", situado nas proximidades da Fazenda do Alto Pegado. Do seu Diário de Viagem, reproduzido no livro "Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará" extraímos valiosas informações que foram apresentadas num linguajar técnico muito preciso. (3)

(3) - Ver “Diário de Viagem do Brigadeiro Raymundo João da Cunha Mattos”, em Fontes Bibliográficas, referência 7.
7. Cunha Matos, Raimundo J. da. "Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará", in Revista do IHGB, 1839, Tomo I.


Vejamos aquelas que nos pareceram mais elucidativas e pertinentes:

sobre a "Calçada de Pedra" - "a calçada é de pedras irregulares, assentada a seco, em ramais ou zig-zag de diversas extensões, aos seios das montanhas e inclinações de suas abas" / "Os primeiros lanços são demasiado abaulados, e de súbito ásperos" / "a decida é enfadonha, pois que as bestas escorregam a cada passo, mas apesar de alguns defeitos, talvez irremediáveis, ou filhos da economia, promete muita duração e pode servir para carros de boi com juntas dobradas";

sobre a "paragem do Córrego Secco" - "sítio (pequena fazenda e rancho) do Rio Secco" / "habitação do Major José Vieira Affonso";

sobre a "paragem de Tamaraty" - "Tamaraty ou Itamaraty" / "ponte de madeira" / "lugar agradável e elevado" / "à sua margem direita existem grandes casarias" / "adiante deste fica um sítio";

sobre a Fazenda Samambaia - "Fazenda Belmonte ou Samambaia" / "assentada sobre um pequeno córrego que precipitando-se, forma belas...;

sobre a Fazenda do Pe. Correa - "agora conhecida por este nome (Correa) e antigamente pelo de Posse" / "nos roteiros constava o nome Manoel Correa" / "montanhas cobertas de matos virgens, capoeiras e capoeirões" / "planície tratada com o máximo desvelo e cuidado" / "propriedade assentada no ângulo ou confluência nos rios Morto e Piabanha" / "boas pontes de madeira" / "alto morro de granito" / "nas encostas vicejava um exército de cafezeiros" / "pomar com pessegueiros e marmeleiros de ótima qualidade" / "edifício assobradado, cujo pavimento superior tem uma varanda de quatro arcos e dez janelas" / "as salas e quartos de visitas são mobiliados" / "Capella de Nossa Sra. do Amor Divino" / "na frente da casa fica a hospedaria dos viandantes" / "o rancho dos passageiros e tropeiros é muito grande, sobre esteios de madeira, e está aberto por dois lados"; e

sobre as "paragens seguintes" - "a ponte do Pai Amaro que é o primeiro córrego que se encontra na jornada" / "Magé... rancho... pequena casa de sobrado... loja de ferrador" / "Rancho do Almeida, aberto e imundo" / "Fazenda do Secretário".

Pelo Alvará de 26.IV.1823, a Capella de São José da Serra foi erecta na classe das Perpétuas e a Freguesia de São José do Rio Preto homologada como de natureza Colativa. Esse Ato também fixou, em linhas gerais, para termo dessa Freguesia:

"todo o território da Serra, entre as Freguesias do Alferes, de Parahyba e de Cantagallo", ficando o Bispado do Rio de Janeiro incumbido da demarcação dos seus limites. Esta área correspondia ao "Distrito Serra-Acima de Inhomirim".

Em 1824, SMI D. Pedro I realizou sua segunda viagem pela Estrada Geral da Estrella, a fim de inaugurar a Ponte de Parahybuna. Essa visita ficou restrita às imediações da referida obra, construída sob a direção do competente Coronel José Antonio Barbosa Teixeira - "Capitão Tiramorros" - que, desde os tempos de Reino Unido, vinha exercendo o cargo de Inspetor das Estradas do Rio de Janeiro.

Não tivemos acesso a fontes confiáveis que pudessem esclarecer sobre os itinerários percorridos, tanto no ida como na volta, durante essa viagem.

Até o final da Década em curso, iriam ocorrer muitas e importantes alterações patrimoniais nas terras do TPCP.

No mesmo ano de 1824, foi registrada a morte do Pe. Antonio Thomaz de Aquino Correa da Silva Goulão, o respeitável Pe. Correa. Este ilustre pré-petropolitano nato foi, sem dúvida alguma, a personalidade local de maior destaque durante o Primeiro Quartel do Século XIX, o qual personificava a integração perfeita de sacerdote, fazendeiro e hoteleiro.

Sua irmã, a viúva D. Archangela Joachina da Cunha Barbosa Correa da Silva Goulão que herdara, anteriormente, o "embrião da Fazenda Olaria", passou a gerir a Fazenda Rio da Cidade e a Fazenda do Pe. Correa, justamente no momento em que esta última se encontrava no auge do desempenho e fama e a primeira em franca decadência.

Ainda no ano de 1824, foi também registrada a morte de outro ilustre sacerdote e competente fazendeiro, o Pe. Antônio Leal Pennafiel, proprietário da Fazenda do Secretário. Ele desenvolveu em seu vasto domínio diversas atividades como a pecuária e a agricultura mais sofisticada, notadamente a do café, bem como o processamento da cana-de-açúcar, através de um engenho que ele mandara construir no início do Século e que fora modernizado em 1815.

A sua filha de criação, D. Marianna Rosa de Jesus, casada com o Capitão João Manoel Rodrigues Caldas - o "Capitão Candelária" - e mãe de numerosa prole, herdou a propriedade. Daí por diante, esse casal que, desde algum tempo atrás, vinha assistindo o Pe. Pennafiel na administração da célebre propriedade, deu efetiva continuidade ao seu processo de desenvolvimento.

Na Banda Oeste do TPCP, a Fazenda dos Martins que pertencera seqüencialmente ao fundador Pedro Martins Coimbra, à sua viúva Sebastiana Martins de Abreu e a Mateus Antonio Bello, foi vendida para José Antonio Lisboa, antes de 1824.

Em 1825 faleceu a viúva D. Catharina Josepha Vieira Affonso Costa Bravo de Jesus e sua Fazenda Córrego Secco, foi legada aos filhos. O primogênito, Major José Vieira Affonso, que já detinha um vasto patrimônio no Apêndice Nordeste, adquiriu todas as partes que couberam aos demais herdeiros.

Pela Provisão de 3.X.1825, o Bispado do Rio de Janeiro definiu os limites da Freguesia de São José do Rio Preto, da seguinte forma:

na Banda do Norte "o Rio Parahyba";

na Banda do Leste "o Rio Paquequer Grande, em sua extensão desde sua primeira e menor vertente na ponta mais setentrional da serra da Sebastiana até fazer barra no Parahyba"; (4)

na Banda do Sul "pela Cordilheira da Serra dos Órgãos, desde os terrenos que principiam a verter suas águas para o Rio Parahyba"; e

na Banda Oeste "o Rio Piabanha desde suas cabeceiras até entrar no Parahyba, junto com o Rio Preto no sítio Três Barras".

(4) - Não confundir com o Rio Paquequer Pequeno. O pesquisador Carlos Alberto Limongi esclareceu que se tratava do Rio do Frade.


Como podemos verificar essa delimitação, extrapolou àquilo que fora determinado pelo Alvará de 26.IV.1823. Conforme ficou estabelecido na Provisão Episcopal supra, o termo da nova Freguesia deveria preencher, além da área global do "Distrito Serra-Acima da Freguesia de Inhomirim", todas as terras ao norte dela até o Rio Parahyba.

Tão logo o Governo Imperial superou as dificuldades iniciais mais prementes, começaram a tomar corpo as ações para o fortalecimento econômico da jovem Nação e seu ingresso, o mais rápido possível, na Era Industrial.

Nesse contexto, estava embutida a necessidade de um rápido aumento de população, o que somente poderia ser concretizado através de um processo maciço de imigração.

Essa linha de ação poderia, concomitantemente, atingir mais dois objetivos, quais fossem, a possibilidade de substituição da mão-de-obra escrava pela livre e a disponibilidade de trabalhadores mais qualificados, tanto para as atividades "agrícolas", como para as "industriosas".

Entretanto, isso era inaceitável para os grandes proprietários rurais, os quais viam o sistema escravagista como o único que poderia lhes convir.

Em contrapartida, fortalecia a idéia de explorar determinadas áreas, ainda incultas, por meio de "colônias de imigrantes estrangeiros".

Nesse mister, SMI D. Pedro I tomou a iniciativa ao baixar o Imperial Decreto de 2.XII.1825. Nota-se uma postura muito pessoal do Monarca nesse documento, que pode ser inferida do que foi citado em seu caput:

"Querendo aumentar a povoação deste Império, como se faz necessário à grande extensão de seu território, hei por bem criar uma Comissão para organizar e propor-me um Plano Geral de Colonização que sirva com uniformidade a todas as Províncias (sic)".

Dentro de uma expectativa geopolítica, tal fato pode ser alinhado como mais um determinismo político, vinculado aos destinos pré-petropolitanos.

No ano de 1826, faleceu a Imperatriz D. Leopoldina.

Em torno do mês de abril de 1827, SMI D. Pedro I, já viúvo, hospedou-se na Fazenda do Pe. Correa, desta feita acompanhado da Marquesa de Santos e dos filhos que tinha com ela.

Essa foi a única visita, documentalmente comprovada, que o Imperador teria feito à referida fazenda, em companhia de sua amante.

Todavia, sempre foi dada grande notoriedade às versões fantasiosas sobre as "inúmeras e freqüentes visitas que SMI D. Pedro I fazia à Fazenda do Pe.Correa, sozinho ou junto com a Marquesa".

Aliás, esse tema vem sendo freqüentemente explorado de forma sensacionalista ou especulativa. Porém, até que surjam novas fontes concretas e mais confiáveis, provando o contrário, acreditamos que apenas um reduzidíssimo número de visitas dessa natureza poderia ser levado em conta.

Em 3.VII.1827, foi assinada a Escritura de Venda da Fazenda dos Martins a Felisberto Fernandes da Cunha, um português de nascimento que vivera longo tempo na Inglaterra, recebendo por isso a alcunha de "o inglês". A partir de então, essa pioneira propriedade do Médio Valle do Rio da Cidade passou a ser cognominada "Fazenda do Inglês".

Faltando poucos anos para o final da Década em curso, parece que a Administração Geral voltou seus olhos para as estradas do Império. E, através da Lei de 29.VIII.1828 baixou uma "Normativa para as Obras Viárias do Império", diploma esse que o ilustre historiógrafo Francisco de Vasconcellos classificou, em um de seus trabalhos, como o agente desencadeador do "Amanhecer do Sistema Viário Fluminense".

Também, no ano de 1828, foi criado o Distrito de Paz da Freguesia de São José da Serra, cujo termo cobria os Valles dos Rios Preto e Piabanha. (5)

(5) - Já em cumprimento às novas normas estabelecidas em 1828 para estabelecimento dos Juizados de Paz.


Ainda nesse mesmo ano, durante o mês de setembro, ocorreu um fato da maior relevância para o futuro da área pré-petropolitana, consubstanciado pela chegada ao Brasil do migrante germânico Jules Friedrich Koeler.

No período de 20 a 21 de dezembro desse ano em curso, SMI D. Pedro I hospedou-se na Fazenda do Pe.Correa - desta vez em companhia da Imperatriz, SA D. Amélia de Leuchtenberg - com quem se casara pouco tempo antes.

No ano de 1829, faleceu a viúva D. Maria Brígida Gonçalves Dias Correa da Silva Goulão. E as suas três propriedades passaram para seus filhos, cada um deles herdando a fazenda que lhes fora estipulada na Partilha:

a Fazenda Samambaia - ou Belmonte, como foi referida algumas vezes, título esse que, pouco tempo depois, cairia em desuso - passou para o Pe. Luiz Gonçalves Dias Correa da Silva Goulão;

a Fazenda da Engenhoca passou para o Dr. Thomaz Gonçalves Dias Correa da Silva Goulão; e

a Fazenda-Arca-de-Noé passou para D. Brígida Maria, que era casada com o Coronel José Candido Fragoso.

Mister se faz reiterar que, desde muito tempo atrás, esses herdeiros vinham assistindo à mãe nas suas atividades de fazendeira, os quais na realidade estavam assumindo, pouco a pouco, a administração das propriedades que lhes teriam sido destinadas.

Naquela altura, a Fazenda Samambaia já gozava de grande notoriedade como uma excelente propriedade da Estrada Geral da Estrella, sendo mencionada pela quase totalidade dos ilustres viajantes que passaram por ela nas últimas decênios, alguns dos quais foram pródigos em elogios.

Evidentemente a Fazenda Samambaia vinha melhorando a cada dia, enquanto era visível o declínio que se observava na Fazenda do Pe.Correa, após a morte do seu famoso dono.

Também a Fazenda Tamaraty experimentava uma fase bastante crítica.

Algum tempo antes, Thomaz Gonçalves Dias Correa da Silva Goulão já havia dado partida a seu projeto nas "terras do Retiro de São Thomaz e São Luiz", fundando naquela área a Fazenda Engenhoca, cuja casa-sede foi estabelecida no setor norte da propriedade, numa colina situada na margem oposta da Barra do Córrego da Grota Funda no Piabanha. Quanto à parte sul, nada foi programado de imediato, ficando ela intocada, talvez, pelas muitas e agradáveis reminiscências relativas à infância de seu proprietário.

A Fazenda Arca-de-Noé, herdada recentemente pela neta de Manoel Correa, D. Brígida Maria Fragoso Gonçalves Dias Correa da Silva Goulão, foi agregada á propriedade contígua, conhecida como o "Engenho de Santo Antonio de Benfica", que pertencia a seu marido José Cândido Fragoso.

Esse engenho, situado na área anteriormente ocupada pela antiga Fazenda da Ponte, foi adquirido, por volta do início do Século XIX, por Bento Lopes da Cunha Velho e D. Paula Gomes da Conceição, os avós maternos do esposo de D. Brígida Maria, José Candido Fragoso. Mais tarde, uma parte do referido engenho coube por herança a Candido Fragoso, o qual adquiriu as partes dos demais herdeiros, tornando-se o único dono da propriedade.

Juntas, essas duas datas, cada qual com meia légua de testada por meia légua de fundos, perfaziam uma apreciável área retangular de 4.500.000 braças quadradas.

Ao que tudo indica, o Coronel José Candido Fragoso - nessa época o Juiz de Paz da Freguesia de São José da Serra - morou por algum tempo no Engenho de Santo Antonio de Benfica e construiu uma imponente residência na contígua Fazenda Arca-de-Noé, onde foi residir definitivamente.

No ano de 1829 a Princesa D. Paula Mariana, filha do primeiro casamento de SMI D. Pedro I, ficou hospedada por longo período na Fazenda do Pe. Correa, recuperando-se de uma enfermidade que a afligia desde tenra idade.

Não há registro algum de que ela tenha sido conduzida, até ali, por seu pai. Sabe-se, apenas, que estava sendo assistida pela Camareira-Mor da Imperial Casa, D. Maria Carlota, em companhia de seus irmãos.

Durante esse período - provavelmente no mês de novembro - o Pastor Protestante, Reverendo R. Walsh, que regressava de uma viagem para Minas Gerais, pernoitou na Fazenda do Pe.Correa.

Do seu relato alinhamos o seguinte:

referindo-se indiretamente à presença de D. Paula Mariana e dos seus irmãos na fazenda, ele mencionou que, "a qualquer momento, SMI estava sendo esperada para visitá-los ou buscá-los";

sobre a Fazenda do Pe. Correa, ele a descreveu sucintamente - "às margens do Piabanha" / "é bastante célebre pela sua plantação de café" / "a casa é um edifício grande e baixo, construído no meio da espaçosa área verdejante, no centro da qual está uma figueira";

sobre a Fazenda Samambaia, fez uma citação bastante duvidosa e, ao que tudo indica, deveria referir-se à Fazenda do Pe. Correa - "um estranho ruído que parecia ser produzido por rãs... porém que tal barulho nada mais era do que as pancadas do martelo da forja, para fabricação de ferraduras" / "muitos negros trabalhando bastante nessa indústria"; e

sobre o trecho de descida da Serra da Estrella, ele elogiou "o calçamento da celebre estrada".

Confirmando o que fora dito pelo Reverendo Walsh, SMI D. Pedro I chegou à Fazenda do Pe Correa, no mês de dezembro.

Durante essa estadia, SM o Imperador teria proposto à D. Archangela Joachina a compra daquela fazenda, recebendo uma resposta negativa.

Todavia, ele encontrou disponível a Fazenda Córrego Secco, pela qual se interessou. Prontamente, entabolou com o proprietário José Vieira Affonso os entendimentos preliminares para sua aquisição.

Durante, praticamente, todo aquele verão o Imperador ficaria hospedado na Fazenda do Pe. Correa, trocando farta correspondência com seu amigo e confidente, o Marquês de Barbacena, cujas cartas constituíram, praticamente, as únicas fontes desse importante episódio que estava se delineando.

Até o final da Década em curso, nenhum outro fato relevante, passível de influir na evolução do TPCP, foi registrado.

Mas todos esses últimos acontecimentos, desenrolados na "paragem do Córrego Secco" - "serra dos Correa" como dizia o Imperador - selariam o destino do TPCP.

A introdução de uma Imperial Fazenda naquela predestinada área que, inexplicavelmente, se conservara praticamente intacta, apesar de ter sido cortada pelo fabuloso "Caminho Geral do Ouro", via essa que, ao longo dos tempos, estava se mantendo como a mais importante da Colônia, do Vice-Reino, do Reino Unido e, finalmente, do Império.

Capítulo 11

D. Pedro I Proprietário no TPCP e o Início do Período Regencial

A Família Imperial passou a temporada do verão de 1830 na "Serra dos Correa" e o regresso para a Corte ocorreu somente no final de fevereiro. (1)

(1) - “Serra dos Correa” era como SMI D. Pedro I cognominava a área Serra Acima, em sua correspondência informal com o Marquês de Barbacena.


SMI D. Pedro I valeu-se dessa oportunidade para concluir os negócios relativos à compra da Fazenda Córrego Secco, cuja Escritura foi lavrada em 6.II.1830.

Uma outra transação havia sido feita com Antônio Correa Maia, relativa a uma estreita faixa de 50 braças de testada por 3.000 braças de fundos, contígua à divisória sul da Fazenda Córrego Secco que resultara de um desmembramento da Fazenda Alto da Serra, sendo que a competente Escritura foi lavrada a 28.V.1830. Consta que o Imperador, através desse pequeno acréscimo, situado no "tombo da Serra", pretendia assegurar que "jamais qualquer construção viesse prejudicar a esplêndida vista da Cidade do Rio de Janeiro, tão apreciada por ele".

Também foram feitas alusões a respeito da compra da "propriedade do Alto da Serra", cujos detalhes foram apresentados vagamente como a "aquisição de um sítio com casas situadas dentro da Fazenda Córrego Secco, cujo vendedor era Vicente da Cunha, suposto genro de José Vieira Affonso", o que, aparentemente, poderia significar uma terceira transação. Tendo em vista que nenhuma Escritura foi encontrada, surgiram muitas dúvidas sobre a localização e natureza daquele imóvel.

Assim, julgamos ser da maior importância a obtenção de dados mais concretos, capazes de solucionar esse enigma que, justamente, se verificava nas origens da fazenda que iria alterar radicalmente o destino das "Terras Serra-Acima da Estrella". (2)

(2) - Esta “propriedade do Alto da Serra” vem provocando muita curiosidade e especulações, em virtude de não se ter conhecimento de uma Escritura confirmando uma possível transação. A verdade é que tal documento nunca existiu, pelo fato de sua menção, somente, ter sido feita devido à reintegração de uma parte da Fazenda C. Secco que, após uma negociação entre os herdeiros, ficou na posse definitiva de José Vieira Affonso, juntamente com o restante daquela data.


Examinando o teor do Inventário, mandado organizar em 1827 pela mãe do vendedor, D. Catharina Josepha Vieira Affonso, veremos que na parte relativa à Fazenda Córrego Secco, estava mencionado que o "terreno da fazenda com 895 braças de testada e uma légua de fundos, meia légua para o nascente e meia légua para o poente, confrontando pelos fundos e pela parte sul com o herdeiro Sargento-Mor José Vieira Affonso e pela parte do norte com o Alferes João Correia de Mattos (o grifo é nosso)".

Com base nessa citação podemos deduzir seguramente que a Fazenda Córrego Secco, originalmente com 1.500 braças de testada, tivera sua parte sul apropriada pelo herdeiro José Vieira Affonso que sabemos ter negociado com os demais herdeiros o restante da data. Assim fica explicado como ela passou a ser considerada em duas áreas distintas:

a primeira delas, com 895 braças de testada, ocupava o setor da sede da Fazenda Tamaraty e confrontava ao norte com a propriedade do Alferes João Correa de Mattos; e

a segunda, localizada no Alto da Serra, há algum tempo pertencente a José Vieira Affonso, ocupava o setor sul da propriedade original numa extensão de cerca de 605 braças de testada e confrontava, pelo sul, com a Fazenda Alto da Serra.

Tendo em vista que as terras declaradas na Escritura de Venda da Fazenda Córrego Secco à SMI D. Pedro I perfaziam uma testada de 1.500 braças, fica bastante claro que todas as pendências foram regularizadas e a "propriedade do Alto da Serra" estava integralmente incluída na transação.

Aparentemente, os planos de SMI para com a área recém adquirida resumiam-se a uma estância de veraneio, onde pretendia construir o "Imperial Palácio da Concórdia". (3)

(3) - Visando a combater especulações, alertamos que o nome da Imperial Fazenda Córrego Secco jamais foi trocado por Imperial “Fazenda da Concórdia”, título esse que, apenas, figurou na imaginação de alguns historiógrafos mais poéticos.


As medidas preliminares para edificação desse prédio foram imediatamente desencadeadas e em 12.III.1830 o arquiteto dos Paços Imperiais, Pedro Pezerat, apresentou o "resumo do orçamento da construção", ficando evidente que, pelo menos, o anteprojeto da obra já fora elaborado.

Nada se soube acerca do projeto global, do qual se conhece, apenas, um detalhe de interior relativo à biblioteca.

Neste ponto, parece caber uma reflexão mais profunda sobre as verdadeiras intenções que teria SMI D. Pedro I em relação ao aproveitamento total da área que adquiriu, pois, não se pode deixar de levar em conta que suas dimensões eram, evidentemente, excessivas para uma simples estância de veraneio e que as terras disponíveis, apesar de inagricultáveis, eram de natureza Foral, portanto, ideais para a prática de Enfiteuse.

Entretanto, os planos para o Imperial Palácio da Concórdia jamais sairiam do papel.

A intensificação da crise política que ameaçava a Imperial Coroa Brasileira e os problemas sucessórios da Coroa Portuguesa fizeram abortar todos os projetos para a Serra da Estrella.

As duas últimas vezes que SMI D. Pedro I cruzou as terras pré-petropolitanas, ocorreram na ida e volta da malograda viagem que ele programou para Ouro Preto, iniciada nos últimos dias do ano de 1830.

No trajeto de ida, acompanhado da Imperatriz D. Amélia e da Imperial Comitiva, pernoitou nos dias 31.XII.1830 e 1º.I.1831 na Fazenda do Pe. Correa e, no dia 2.I.1831, na Fazenda do Secretário.

Nada ficou registrado a respeito da viagem de volta, porém, em virtude da premência em concluí-la, não fica a menor dúvida de que ela também se processou pela Estrada Geral da Estrella, com pernoite na Fazenda do Pe. Correa, opinião essa fundamentada nos preparativos, montados na Baixada pelo Marquês de Barbacena, para complementação do trajeto.

O percurso final até a Corte foi melancólico e a presença no Rio de Janeiro seria curta e bastante conturbada.

Realmente, os primeiros meses do ano de 1831, foram desastrosos para SMI D. Pedro I e o longo tempo passado na Província de Minas Gerais, em busca de uma providencial repetição do episódio de 1821, foi totalmente em vão.

A 7.IV.1831, SMI D. Pedro I abdicou em favor de seu primogênito, de apenas cinco anos de idade, o qual foi coroado Imperador do Brasil, com o título de SMI D. Pedro II. E nesse mesmo dia foi instituída a Regência Trina Provisória.

Finalmente, D. Pedro de Alcântara, não mais detendo o título de "SMI D. Pedro I", partiu para a Europa a 12.IV.1831.

E assim, ficou desfeito o lindo sonho de um "Palácio de Verão na Serra da Estrella", dando lugar a uma grande frustração para os proprietários das "terras Serra- Acima".

A 17.VI.1831, foi eleita a Regência Trina Permanente que, até segunda ordem, seria uma incógnita para os desígnios pré-petropolitanos.

No ano de 1832 a Imperial Fazenda Córrego Secco foi arrendada ao Dr. Thomaz Gonçalves Dias Correa da Silva Goulão. Essa transação foi processada através de Samuel Phillips & Co, a firma procuradora de SAR D. Pedro de Alcântara no Brasil.

Mas nem tudo estava perdido em relação aos destinos do TPCP e algumas compensações estariam por vir.

Na pauta de exportações brasileiras, o café acabava de atingir o nível de 30% e igualava-se ao dos derivados da cana-de-açúcar, com os quais passou a dividir a primeira posição.

E como já havíamos comentado e repetido em análises anteriores, isso seria muito bom para o TPCP, mais uma vez privilegiado por ser servido pela Estrada Geral da Estrella.

Naquela altura, as fazendas locais haviam atingido uma situação mais consistente, que as tornavam menos vulneráveis às flutuações do mercado externo, estabilidade essa decorrente do relativo sucesso obtido nos setores de horticultura, fruticultura, grãos, pequenas criações e produtos exóticos, cuja produção gozava de grande aceitação na Corte.

E os pousos ainda eram considerados excelentes fontes de receita, pois continuavam apoiando os tropeiros, viandantes e todos os demais transportadores e viajantes, sendo que essa clientela crescia vertiginosamente.

As experiências relativas à cafeicultura, feitas nas terras do Médio-Superior Valle do Piabanha (a jusante da Barra do Rio da Cidade) bem como no Médio Inferior Valle do Piabanha, foram bastante promissoras. Todavia, aquelas realizadas no restante do Médio Superior Valle do Piabanha, inclusive as realizadas na Fazenda Samambaia e na Fazenda do Pe. Correa, comprovadamente, não foram bem sucedidas.

Em compensação, desde algum tempo atrás, já haviam sido alcançados excelentes resultados no Apêndice Nordeste, no Médio e Alto Sardoal e nas Terras do Secretário.

Nesse inicio de fase, quando se começava a pensar em rodovias mais ousadas, ferrovias, hidrovias e embarcações movidas a vapor, estava sendo delineado o arcabouço do "Primeiro Plano Viário da Província de Minas Gerais", o qual previa a conjugação de todos esses citados elementos.

E, dentre todas as alternativas que foram aventadas, a melhor solução para o desenvolvimento da espinha dorsal do referido sistema, devido às limitações técnicas da época, não poderia fugir da opção de desenvolvimento pelo mesma "direção geral" da Estrada Geral de Minas Gerais, que vinha sendo mantida desde os tempos de Caminho Novo.

Em Território Fluminense, foi grande a repercussão desse plano nas áreas adjacentes à Estrada Geral, principalmente na micro-região nucleada na Freguesia de N. Sra. da Conceição de São Pedro e São Paulo da Parahyba, a qual vinha passando por um período de relativo progresso. Foi nessa conjuntura que a Povoação da Parahyba foi elevada à categoria de Villa, pelo Decreto Regencial de 25.I.1833.

E a jurisdição do novo Município foi definida pela integração dos termos da Freguesia de N. Sra. da Conceição de São Pedro e São Paulo, da Freguesia de São José do Rio Preto, do Curato de Matosinhos e do Curato de Sebollas, os quais foram desanexados da Villa de Cantagallo, conforme estipulava o Art. 6º do supracitado Decreto.

Logo numa de suas primeiras sessões, a recém criada Câmara Municipal de Parahyba do Sul deliberou que a Freguesia de São José do Rio Preto deveria ser subdividida em dois Distritos:

o 1º Distrito, ocupando toda a parte norte da antiga Freguesia; e

o 2º Distrito, compreendendo a área restante, na qual estava incluído o TPCP, com exceção das terras do Médio e Alto Sardoal, situadas no flanco oposto da Serra da Manga Larga (ex-Tamborapea, ex-Araras).

Porém a criação da supracitada Villa não constituiu um fato isolado. Na realidade fazia parte de um grande contexto, através do qual a Província do Rio de Janeiro - até então dividida em duas Cidades e dezenove Villas - foi totalmente reestruturada em vinte e quatro Municípios - duas Cidades e vinte e duas Villas -, medida essa responsável pela homologação de dezoito Villas - Sedes de Município - , criação de quatro Villas - Sedes de Município - e a extinção de duas Villas.

Nessa mesma oportunidade teve início o processo de regularização da subdivisão dos Municípios em Freguesias, no sentido de buscar uma harmonia entre os elementos das Divisões Civis com as Eclesiásticas e, por sua vez com as Judiciais.

Esse tema será apresentado em maiores detalhes no tópico "Formação e Limites do Território Municipal de Petrópolis", constante do penúltimo Capítulo do presente Ensaio.

No ano de 1833, registrou-se nas "terras do Atalho do Caminho do Sardoal" um surto de transações, certamente estimuladas pelas boas perspectivas da cafeicultura e a conseqüente possibilidade de escoamento desse produto pela via marginal que as cortava.

As Fazendas Morro Queimado, Vellasco e Quitandinha, que desde 1796 estavam na posse de um único dono, foram negociadas, quase que simultaneamente.

O proprietário delas, Francisco Guilherme Rodrigues [Branco ou Franco], vendeu as duas primeiras para Francisco da Costa e Silva que, poucos meses depois, as desmembrou. A Fazenda Morro Queimado foi vendida a José Hermano Christiano Tenbrink que, logo em seguida, a revendeu para Gregório José Teixeira.

No ano seguinte, a Fazenda Vellasco foi comprada por José de Azevedo Lemos, encerrando esse surto de transações que acabamos de apreciar.

Pela Lei de 12.VIII.1834, foi baixado o Ato Adicional da Constituição de 1824, promovendo a Primeira Emenda Constitucional, Ato esse que assegurou maior autonomia às Províncias do Império e, em especial, à Província do Rio de Janeiro, que, até então, vinha se mantendo atrelada à Administração Geral.

Com vistas aos propósitos do presente Ensaio, apenas iremos comentar sobre as conseqüências que esse Ato produziu em relação aos interesses e destino do TPCP, principalmente ao que se referia à Estrada Geral de Minas Gerais e à evolução da ocupação da Micro-Região da Bacia do Piabanha. Ocorre que, naquela época, diversas tarefas, em princípio inerentes à competência da Província do Rio de Janeiro, estavam sendo executadas pelo Ministério do Império, dentre elas os trabalhos preliminares para levantamento da "Carta Topográfica da Província do Rio de Janeiro" e o "levantamento das estradas da Serra da Estrella, Comércio, Polícia e outras".

Participava das equipes do Ministério do Império, incumbidas dessas supracitadas tarefas, o 1º Tenente-ICE Julio Frederico Koeler. No final de 1834, o 1º Tenente Koeler foi colocado à disposição do Governo Provincial.

Tais circunstâncias foram responsáveis pela providencial vinda de Koeler para "as paragens da Serra da Estrella", bem como ao restante do TPCP, área essa que seria perlustrada em todos os sentidos por aquele que já despontava como um dos mais competentes engenheiros da Província - quiçá do Império - no setor das Obras Públicas e Viárias.

Pela Lei Provincial de 11.4.1835 foram baixadas as "normas para a estruturação provisória da Província do Rio de Janeiro", nos moldes das demais congêneres do Império. Através desse Ato, foi instituída a Diretoria de Obras Públicas, composta de três Seções, sendo o 1º Tenente-ICE nomeado para a chefia provisória da 2ª Seção.

Por volta de abril do ano de 1835, o professor de caligrafia e desenho de SMI D.Pedro II, Louis Aléxis Boulanger, ficou hospedado no Córrego Secco - em local até hoje indefinido - para fins de tratamento da saúde, por um período que ocorreu por volta do mês de abril. A única informação interessante que se pode extrair desta passagem baseia-se na correspondência trocada entre Boulanger e o Mordomo Paulo Barbosa, através da qual ficamos sabendo que no Córrego Secco, além da casa-sede da fazenda, existia, pelo menos, mais uma propriedade com categoria para hospedar pessoas do nível de Boulanger e do irmão do Mordomo. Há indícios de que tal residência seria um dos prédios da "Propriedade do Alto-da-Serra", englobada na compra da Fazenda Córrego Secco, em 1831.

Indiscutivelmente, os dois primeiros Governos Regenciais concentraram esforços gigantescos para a entrada do Brasil na era industrial e dos transportes modernos, bem como na atualização da Administração Pública, sendo possível imaginar-se que muito pouco sobraria para o TPCP. Porém, contrariando todas as expectativas, verificamos que os quatro primeiros anos de Regência, podem ser considerados como bastante favoráveis aos desígnios dessa Micro-Região em pauta.

No âmbito das Províncias, teve lugar uma das mais ousadas realizações, para a época. Por Lei Provincial de Minas Gerais [de .. V.1835] foi promulgado o "Plano Viário da Província de Minas Gerais", o primeiro do Império nesse gênero, cujo anteprojeto vinha sendo alinhavado desde 1831. (4)

(4) - O anteprojeto dessa Lei Provincial foi apresentado à Assembléia Mineira por Bernardo Pereira de Vasconcellos.


Nesse plano, estava bem definido que a espinha dorsal do sistema previsto para cobrir todo o Território Mineiro com ferrovias, hidrovias e rodovias transversais e longitudinais, deveria ser uma "estrada larga e de boa qualidade, apta para carros de tração animal, promovendo a ligação entre o Rio das Velhas e a Corte".

Nos extremos dessa via - Porto de Traíras e Baía de Guanabara - estavam planejadas, respectivamente, conexões com a "hidrovia do Rio das Velhas - Rio São Francisco" e com a "hidrovia da Baía de Guanabara", ambas previstas para o emprego da navegação a vapor.

Assim, o Porto do Rio de Janeiro poderia interligar-se, através dessa rede intermodal, às Províncias do Centro e do Nordeste, via Minas Gerais.

Algumas correntes mineiras preferiam que tal via fosse planejada segundo um novo eixo de evolução, buscando outras rotas mais amenas que imaginavam existir. Porém, é importante ressaltar que não havia a menor possibilidade de ser alterado o eixo de desenvolvimento geral dessa via, o qual vinha, desde 1725, condicionando a "rota de Minas Gerais". Por tais razões ressaltamos que, mais uma vez, o TPCP continuaria sendo privilegiado.No entanto, a construção da "nova estrada" exigiria recursos vultosos para sua concretização e não havia a menor condição dela ser bancada pelos exauridos Cofres Imperiais.

Além disso, uma alternativa prevendo a participação direta das duas Províncias envolvidas, não parecia ser viável. Para os mineiros, era fundamental que sua execução ocorresse, rigorosamente dentro dos padrões fixados no seu Plano, mesmo sabendo que o segmento final estava fora de seu Território.

O Governo Regencial tentou aplicar uma solução mais flexível, através do estabelecimento de uma "política de incentivos a empresários - nacionais ou estrangeiros - que desejassem investir nos setores da indústria e transporte", forma essa ideal, não só para a captação de recursos financeiros, como também para importação de novas tecnologias, sendo uma delas o emprego do vapor como força motriz.

Uma vez aprovada a implantação da supracitada política, foram promulgados diversos Atos Imperiais, concedendo "privilégios a investidores - arrematantes - que pretendiam explorar determinadas vias e hidrovias".

Foi também promulgada a Lei nº 101 de 31.X.1835 que baixou as "normas para a construção - mediante a concessão de privilégios - de uma estrada de ferro, ligando a Corte às Províncias de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Bahia".

Em princípio, estava sendo tentada a criação de oportunidades para execução do "Plano Viário de Minas Gerais".

No ano de 1835, uma arrematação para "construção de uma estrada ligando o Porto de Estrella a Parahybuna", foi feita por José Peixoto de Souza. Conforme foi estabelecido nesse contrato, a via deveria prestar "cômodo serviço para o trânsito de carros e carruagens, conservando-se sempre isenta e livre de atoleiros". E também estipulava que "a ponte do Rio Parahyba deveria ser edificada de pedra". Tal contrato não vingou.

Ainda no ano de 1835, foi feita uma outra arrematação, desta vez pelo empresário e engenheiro teuto-português Guilherme Kopke, visando à exploração da hidrovia Rio das Velhas - Rio São Francisco, por meio da navegação a vapor. Merece destaque o ciclópico trabalho efetuado por esse arrematante, o qual levantou pessoalmente a "Primeira Carta Fluvial do Rio das Velhas", no trecho de Sabará até a Barra no Rio São Francisco e montou uma embarcação a vapor para os testes preliminares. (5)

(5) - No final da Década de 40, o Engenheiro Guilherme Kopke, a serviço do seu irmão, o Dr. Henrique Kopke, projetaria e construiria na Imperial Colônia de Petrópolis um prédio de três andares destinado a sediar o futuro Collégio Kopke.


Enfatizamos que essas duas arrematações, inequivocamente, estavam dentro dos planos da moderna via de ligação da Corte a Minas Gerais.

Entretanto, esses investidores não conseguiram levar a cabo seus projetos e não há notícias sobre outras arrematações pertinentes que tivessem chegado a resultados efetivos.

Em 21.XII.1835, Koeler foi dispensado das funções que exercia, cumulativamente, na "Comissão da Carta Topográfica da Província do Rio de Janeiro", sendo que, daí por diante, passaria a ficar vinculado, somente, à Diretoria de Obras Públicas, chefiando a 2ª Seção.

E isso era um bom sinal para os desígnios do TPCP.

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