Ensaio entregue pelo autor a 20/01/2006 para inclusão no site, dividido em partes conforme melhor fosse.

PETRÓPOLIS - A SAGA DE UM CAMINHO (7)
Gênese e Evolução do Território Petropolitano

Carlos Oliveira Fróes

Capítulo 7 - Primeira parte

Capítulo 7
O TPCP no Limiar do Século XIX

No final do Século XVIII, esgotaram-se os últimos resquícios dos "miraculosos ciclos dos minerais preciosos". E a Coroa Portuguesa, com sua Política Ultramarina em relação ao Brasil reajustada à nova realidade, partia para a consecução das novas metas estabelecidas para sua mais importante Colônia que, na última Década de 60, fora elevada à categoria de Vice-Reino.

Dentre outros pontos de interesse mais geral, desejamos abordar as metas que foram estabelecidas, visando aos empreendimentos rurais seletivos de grande porte.

Naquela altura, o mercado europeu tornara-se altamente receptivo para os derivados da cana-de-açúcar, cujo índice, na pauta de exportações brasileiras para a Metrópole, atingia cerca de 40%.

E uma promissora novidade surgiu nessa listagem. Nela, figurou pela primeira vez o café, cuja participação, apesar de ter sido de apenas 2%, foi muito importante, tendo em vista uma flagrante tendência de crescimento para esse produto.

Ante à citada conjuntura - reiterando o que foi citado no Capítulo anterior - as férteis e ainda não exploradas "terras Sul-Mineiras" e as, contíguas, "terras Fluminenses do Médio Inferior Valle do Parahyba", receberam um forte estímulo para implantação da pecuária de maior porte, bem como da agricultura extensiva, principalmente, da cana-de-açúcar e, em menor escala, do fumo e do algodão. Concomitantemente, a cafeicultura começava a despontar de forma impetuosa, a partir das tentativas pioneiras na banda oeste da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em rápida evolução no eixo do Caminho de São Paulo, que atingiam os "valles do Ribeirão das Lages e do Rio Pirahy", em busca do Parahyba.

E tudo isso era bastante animador para todas as áreas adjacentes ao Caminho Geral de Minas Gerais que, cortando de norte a sul a Micro-Região da Bacia do Piabanha, continuava sendo a mais importante via do Vice-Reino Brasil.

Assim, tornava-se urgente a implementação de uma radical alteração do modelo viário vigente, pois, diante da esperada nova realidade, o volume específico das cargas deveria crescer vertiginosamente e os caminhos para tropas, mais cedo ou mais tarde, teriam de ceder lugar aos caminhos carroçáveis e às estradas mais modernas.

Ante tais circunstâncias, não mais teria sentido algum a imposição de uma via exclusiva e das suas "toleradas rotas alternativas" e, até mesmo, dos simples caminhos vicinais que, até então, eram proscritos ou muito controlados a fim de eliminar o risco da proliferação de descaminhos.

Portanto, vislumbravam-se melhores perspectivas, não só para o Atalho, como também para o Caminho do Sardoal e o "embrião do Caminho de Mar de Espanha", o que tornava cabível a previsão de um substancial incremento para as propriedades da Banda Oeste do Atalho e do Apêndice Nordeste, servidos por essas duas últimas vias.

Naquela altura, SA o Príncipe Regente D.João, de Portugal, já havia expedido ordens ao Vice-Rei, Conde de Rezende, para realização de reformas no Caminho Geral de Minas Gerais, a fim de modernizá-lo e capacitá-lo ao tráfego de carros de tração animal. (1)

(1) - Maior detalhamento no próximo Capítulo, através do assunto que discorre sobre as ordens de SM o PR D. João, contidas nas Cartas Régias, 21.X.1799 e 5.XI.1800.


Também deveriam ser esperadas grandes mutações quanto ao modelo de ocupação das terras dessa micro-região, cuja evolução, até então, vinha caminhando serena e ordenadamente, condicionada por metas menos ousadas.

Conseqüentemente, era bastante provável a intensificação do interesse para novas aquisições ou arrendamento de terras, o que certamente iria precipitar o processo de fracionamento das, ainda, extensas propriedades forais locais. E os efeitos nesse setor seriam imprevisíveis.

Por tais razões, julgamos ser esta a última oportunidade que temos para repassar aos leitores uma visão panorâmica - a mais realista possível - do TPCP, justamente quando ele estaria completando os primeiros setenta e cinco anos de existência virtual, preste a entrar no Século XIX.

No nosso entender, a melhor maneira de configurar tal situação, seria através de um conjunto de Sínteses Retrospectivas, apresentando - em forma de narrativa seqüencial - o histórico de cada uma das propriedades do TPCP, desde quando foram criadas, até o final do Século XVIII.

Outrossim, julgamos conveniente reapresentar nas citadas retrospectivas, as descrições topográficas dessas propriedades.

Finalmente, desejamos alertar que, em momento algum, tivemos a pretensão - ou veleidade - de afirmar que todas as informações produzidas para este tópico devam ser consideradas definitivas e inquestionáveis. Apenas podemos garantir que mais de 90% delas tiveram uma base documental sólida. E quanto aos 10% restantes, assumimos o compromisso de, nos momentos oportunos da narrativa, alertar os leitores sobre possíveis pontos discutíveis, demonstrando claramente nossas dúvidas. Em certos casos dessa natureza e, sempre que viável, tivemos de formular hipóteses, unicamente baseadas em indícios concretos.

Entendemos que esse procedimento poderá ser de grande valia para outros pesquisadores e estudiosos que pretendam completar, suplementar, aperfeiçoar ou aprofundar tais questões.

A seguir apresentaremos uma relação de todas Propriedades Forais do TPCP, existentes no dia 31.XII.1799 e, também, um conjunto de Sínteses Retrospectivas das propriedades em pauta:

Relação das Propriedades Forais do TPCP, existentes em 31.XII.1799:

Faixa de Quadras do Atalho

Embrião da Fazenda Alto-da-Serra
Fazenda Córrego Secco
Fazenda Tamaraty
Embrião da Fazenda Samambaia
Fazenda Rio da Cidade
Fazenda Araras
Fazenda Rocinha das Pedras
Roça do Secretário

Faixa de Sobrequadras Leste do Atalho

Embrião da Roça do Caxambu
Embrião da Roça do Bonfim
Fazenda do Manoel Correa
Fazenda Santo Antonio
Embrião da Fazenda Olaria (ainda não definido)
Fazenda da Ponte (Embrião do Engenho de S. Domingos de Benfica)
Embrião da Fazenda Arca-de-Noé (Sesmaria do Goulão)
Sesmaria ou Terras de Magé (Roça do Pe. Domingos Barbosa)
Roça do Pedro Martins
Embrião da Fazenda Retiro das Pedras
Embrião da Fazenda Alto Pegado

Faixa de Pós-Sobrequadras Leste do Atalho

Sesmaria do Goularte (locação definitiva)
Roça de José Gonçalves Rainho
Fazenda de Joaquim José Pegado
Roça de Caetano Manoel da Motta Ferraz

Faixa de Sobrequadras Oeste do Atalho

Fazenda Quitandinha
Fazenda Vellasco
Fazenda Morro Queimado
Fazenda dos Martins
Embrião da Fazenda do "Malta Serra-Acima"
Sesmaria de Leandro da Cruz Alvarez
Embrião da Fazenda Santa Rita
Embrião da Fazenda Santa Thereza
Fazenda dos Vieiras
Fazenda do Sardoal

Faixa de Pós-Sobrequadras Oeste do Atalho

Embrião da Fazenda Sta.Catharina (Sesmaria de José de Vargas Pizzarro)
Embrião da Fazenda Cachoeira (Sesmaria de José Luiz de Souza)
Embrião da Fazenda Santanna (Sesmaria de José Luiz de Souza)

Apêndice Nordeste

Sesmaria de Valério Gomes da Silveira (1749)
Demais Sesmarias do Apêndice Nordeste (em formação)

RETROSPECTIVAS DAS PROPRIEDADES DO TPCP EM 31.XII.1799:

Faixa de Quadras do Atalho

Embrião da Fazenda Alto da Serra

O "embrião da Fazenda Alto-da-Serra" originou-se da desvinculação da parte norte da Quadra-Padrão, outorgada no Século XVII aos irmãos Francisco de Mattos Filgueiras e João Mattos de Souza, pela Carta de Sesmaria de 22.VII.1686. Após a morte do Pe. Francisco de Mattos, o seu irmão José de Mattos tornou-se o único dono da Sesmaria, o qual, posteriormente, ao tentar transferi-la para seu filho, Pe. Francisco Xavier de Mattos, não obteve a competente confirmação. Essa Quadra foi repassada ao Pe. Antonio Pereira da Cunha pela Carta de Sesmaria de 19.VII.1727, cuja confirmação foi dada por SMR em 1.I.1729. E, em época que não se pode precisar, constatou-se que ela estava na posse de Felix da Cunha Ferreira e de Francisco Nunes da Silveira.

No final da Década de 50, o poderoso fazendeiro de Inhomirim, Manoel Gonçalves Malta, fundou a Fazenda Cordoaria, "nuns sobejos" entre a Raiz-da-Serra e a antiga Sesmaria do Fragoso, os quais ficavam contíguos, pelo sul, à citada Sesmaria. A veracidade desse fato poderá ser constatada através da "Carta Topográfica da Capitania do Rio de Janeiro - 1767, levantada pelo Sargento-Mor Manoel Vieira Leão", onde o local da dita fazenda figurou com a notação de "MALTA". Somente cerca de dez anos mais tarde, essa área, com 450 braças de testada no Rio Caioaba, seria regularizada, em nome de Malta, pela Carta de Sesmaria de 17.IV.1781.

Outrossim, ficou registrado em documentos pertencentes ao "antigo Arquivo da Imperial Fábrica de Pólvora" que Manoel Gonçalves Malta comprara efetivamente a Sesmaria dos Mattos. Constatou-se ainda que os peritos incumbidos da competente Medição Judicial notaram discrepâncias entre as referências contidas na documentação e os marcos primitivos encontrados. (2)

(2) - Fontes Documentais, Ref. 28. 
28. Coletânea de documentos sobre "posse e questões de terras na área - e nas demais circunvizinhas- onde foi instalada a Imperial Fábrica de Pólvora da Estrella. Cópias no Arquivo da Companhia Imobiliária de Petrópolis e originais no Arquivo da Fábrica de Pólvora da Estrela.


Ademais, o Pe. José Nunes Pereira ocupava, pelo menos desde 1742, a parte norte daquela data, situada acima da "paragem do meio da serra", sacerdote, esse, que seria um sucessor ou provável herdeiro do Pe. Antonio Pereira da Cunha, o terceiro titular da "Sesmaria dos Mattos". A prova desse importante dado foi colhida nos Livros Eclesiais de Inhomirim, num registro referente a "uma Cerimônia de Batismo, oficiada pelo Pe. Nunes Pereira no Oratório de sua residência, situada na paragem do meio da serra". (3)

(3) - Citação de um Batizado no Oratório do Pe. Nunes no “meio da serra”, em Fontes Bibliográficas, Ref. 23 p. 48. 
23. KROKER, Fr. Aniceto. "Inhomirim, 250 anos de Paróquia". Petrópolis, Editora Vozes, 1946.


Apesar das provas concretas de que comprara uma Sesmaria inteira, Malta reconheceu os direitos do Pe. Nunes Pereira. E não lhe restando outra alternativa, resolveu pleitear uma outra área equivalente. E, abandonando o eixo do Rio Caioaba, redirecionou sua demarcação para o eixo do Rio Taquara, em busca do limite sul da Sesmaria Távora / Vellasco, onde ainda havia terras devolutas.

Aos poucos, o Pe. Nunes Pereira e seus sucessores foram desenvolvendo na "propriedade do meio da serra" algumas modestas facilidades para pouso ligeiro. O ilustre viajante D. Luiz de Albuquerque, quando ali passou em 1772, a citou como "uma pequena roça no meio da serra". (4)

(4) - Citação sobre a “paragem do meio da serra” feita  pelo Gov. L. de Albuquerque, em Fontes Documentais, Ref. 34. 
34. "Diário de Viagem do Governador de Mato Grosso, Luiz de Albuquerque, do Rio de Janeiro a Paracatu - 1772", via Caminho Geral de Minas Gerais. In "Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás", [ ], pg. 223. Original a lápis no Arquivo dos Albuquerque, Casa da Ínsua, Portugal.


A definição e a demarcação dessa data somente tornar-se-iam viáveis na Década de 80, após a consolidação das divisórias norte e sul da Fazenda Córrego Secco no rumo ENE (067,5ºv), estabelecido como padrão para todo o TPCP.

Não há a menor possibilidade de se confirmar, ou até mesmo estimar, a época em que os sucessores do Pe. Nunes Pereira demarcaram essa data que se tornou o "embrião da Fazenda Alto da Serra", o qual pôde ser, assim, delineado:

em forma retangular;

e linhas de fundo medindo 750 braças, orientadas no rumo NNO (337,5º v);

linhas de lado norte e sul, medindo 1500 braças para cada lado do Atalho, orientadas no rumo ENE (067,5º v); e

confrontantes - pelo norte a Fazenda Córrego Secco, pelo leste os "sertões das nascentes dos rios Caxambu e Tamaraty", pelo sul uma parte da Fazenda Cordoaria e pelo oeste a Fazenda Quitandinha.

Nenhum registro mais significativo foi encontrado sobre o que aconteceu, durante o Último Quartel do Século XVIII, no "embrião da Fazenda Alto da Serra". Apenas, constou vagamente que Manoel Ferreira da Rocha teria sido seu proprietário, nas proximidades do final do período em tela. (5)

(5) - Citação muito vaga, obtida numa anotação encontrada na coletânea constante das Fontes Documentais, Ref. 23. 
23. Requerimento de [1733], do Capitão-Mor Bernardo Soares de Proença, dirigido a SMR de Portugal, "solicitando medidas para interrupção das obras de um novo caminho pela Serra do Mar que, à revelia do Governador, estava sendo aberto pelo Mestre de Campo Estevão Pinto". Arquivo Nacional, AHUL 7.832.


Esse "embrião de fazenda" gozava do privilégio de ser servido, diretamente, pelo Atalho. Todavia, como as demais áreas elevadas da Serra do Mar, vertentes para a Baixada, ele não podia ser considerado potencialmente apto para o desenvolvimento de uma propriedade rural. Em virtude de suas condições orográficas adversas, essa data prestava-se, limitadamente, para horticultura, fruticultura e pequenas criações domésticas que, em alguns casos, foram praticadas por arrendatários ou invasores.

Através da posterior demarcação dessa ocupação foi ampliada, a base topográfica sudeste do TPCP.

Seguia-se ao norte a Fazenda Córrego Secco.

Fazenda Córrego Secco

Conforme será relatado em maiores detalhes na Síntese Retrospectiva seguinte, por volta de 1772 Antonio Bernardo de Proença - neto de Bernardo Soares de Proença - desmembrou a metade sul da Sesmaria Tamaraty e a vendeu para Manoel Vieira Affonso.

Nessa grande área existia, apenas, um setor parcamente habitado onde funcionava o Rancho do Córrego Secco, local esse referido pelo ilustre viajante D. Luiz de Albuquerque como: "aonde chamam Rio Secco há um rancho que tem comodidades".

O citado rancho ficava localizado à beira do Atalho, numa várzea onde o Rio Secco inflectia bruscamente para a esquerda, em busca de sua barra no Rio Quitandinha, dali distante cerca de 220 braças.

Sem dúvida alguma essa era a localidade que os viajantes chamavam de "Córrego Secco". Porém, muitos historiógrafos confundiram esse local com os arredores da casa-sede da Fazenda C. Secco, o que vem gerando grandes equívocos. (6)

(6) - Fontes Pictográficas, Ref. 27. Muitos historiógrafos confundiram tal local com os arredores da casa-sede da Fazenda Córrego Secco. 


Em 1774 o comprador da Fazenda Córrego Secco, Manoel Vieira Affonso, de comum acordo com Antonio Bernardo de Proença, providenciou a realização de uma Medição Amigável para definição de sua divisória com a Fazenda Tamaraty.

Os trabalhos topográficos foram confiados ao Piloto João da Silva Mello e um "marco de pedra negra com uma cruz entalhada no topo" foi fincado junto ao Atalho, nas proximidades do Rancho do Córrego Secco, numa posição eqüidistante do Marco do Tamaraty e do Marco da Cruz de Pedra do Alto da Serra do Mar.

Consensualmente, ficou estabelecido que a linha divisória seria traçada sobre a perpendicular do rumo N-MQL-NE (019,5: v), isto é, no rumo 109, 5ºv. (7)

(7) - N-MQL-NE (Norte, Meia Quarta Larga de Nordeste) era uma antiga subdivisão da rosa dos ventos, correspondente ao rumo 019,5°v. Fontes Documentais, Ref. 27. 
27. "Termo da Medição de Terras e Amigável Composição, entre partes de D. Luiza Antonia de Proença e seu filho o Alferes Bernardo de Proença e da outra Manoel Vieira Affonso e sua mulher Catharina Josepha, em Caminho de Minas Gerais (sic), realizada em 22.IV.1774". Cópia no Arquivo da Companhia Imobiliária de Petrópolis.


Porém, de acordo com os critérios estabelecidos pela "Convenção dos Anos 40" e homologados pela "Grande Medição Judicial de 1762", esse acordo estava completamente errado, pois todas as divisórias do TPCP - traçadas sobre linhas de lado das propriedades confrontantes - deveriam ser orientadas no rumo ENE (067,5ºv).

Entretanto, a estranha postura imposta pelo vendedor e aceita pelo comprador, teria sido uma exigência por parte da mãe de Antonio Bernardo de Proença, D. Luiza Antonia de Proença, que de 1752 até 1766 administrara os bens do filho, durante sua menoridade. Tal senhora defendia renitentemente a forma de Quadra-Padrão para a Sesmaria Tamaraty, opinião essa que suscitara, alguns anos antes, a abertura de um processo judicial movido por foreiros vizinhos que ocupavam uma área nas proximidades da divisória norte da data em pauta, questão essa que o fazendeiro Manoel Correa da Silva, esteve atuando como "defensor dos Reclamantes".

Somente após a morte de D. Luiza Antonia é que tais desacertos foram superados e, a partir daí, a Fazenda Córrego Secco foi demarcada:

em forma de paralelogramo;

testada e linhas de fundo medindo 1.500 braças, orientadas no rumo N-MQL-NE (019,5º v);

linhas de lado norte e sul medindo 1.500 braças para cada lado do Atalho, orientadas no rumo ENE (067,5º v), sendo que as suas divisórias norte e sul foram fixadas, respectivamente, sobre o Marco do Alto-da-Serra e sobre o Marco de Pedra Negra (mais tarde Marco dos Sete Caminhos);

confrontantes - pelo norte a Fazenda Tamaraty, pelo leste o "embrião das Roças do Caxambu", pelo sul o embrião da Fazenda Alto da Serra" e pelo oeste a Fazenda Quitandinha; e

área total com cerca de 3.750.000 braças quadradas.

A Fazenda Córrego Secco era servida diretamente pelo Atalho, o qual não passava defronte à sua casa-sede. (8)

(8) - Enfatizamos que nessa fase – e ainda por muito tempo mais – a Estrada Geral não passava em frente ao local onde foi construída a casa-sede da propriedade.


Durante os primeiros vinte e cinco anos de existência, nenhuma alteração mais significativa ocorreu nessa área, período esse em que seu proprietário continuou residindo na Fazenda dos Vieiras, uma outra propriedade sua, existente no Médio Sardoal.

A Fazenda Córrego Secco, situada numa área bastante acidentada e inadequada para a agricultura, não alcançou o menor sucesso como propriedade rural e sua única atividade registrada foi a exploração do modesto Rancho do Córrego Secco, através de suas precárias instalações.

Com base em vagas citações, parece caber a suposição de que algumas ocupações irregulares já tivessem sido praticadas na referida data.

Somente nas proximidades do ano de 1800 é que Manoel Vieira Affonso veio a construir uma casa-sede, que foi locada numa aprazível várzea situada à margem direita do Rio Quitandinha, na distância de cerca de 100 braças da sua confluência com o Rio Secco. Em breve, ele e sua esposa, D. Catharina Josepha, passariam a ocupar a nova residência.

Ressaltamos que, até então, nenhuma medida havia sido tomada para desviar o trajeto do Atalho para o supracitado local.

Uma vez efetuada a demarcação definitiva, a Fazenda Córrego Secco constitui a base topográfica do Setor Sul do TPCP.

Seguia-se ao norte a Fazenda Tamaraty.

Fazenda Tamaraty

A Fazenda Tamaraty originou-se da Quadra-Padrão outorgada a Bernardo Soares de Proença pela Carta de Sesmaria de 11.XI.1721, a qual foi confirmada em 30.VII.1723.

Na parte norte dessa data - numa colina situada à margem direita do Rio Tamaraty e nas proximidades de sua confluência com o Rio Quissamã - foi edificada a casa-sede da Sesmaria. Ao pé da citada colina deveria passar o Atalho do Caminho Novo por Inhomirim, cuja construção havia sido contratada com o concessionário em pauta. Naquela "área de várzea" foram edificadas as instalações para pouso e plantadas roças de subsistência e apoio.

Essa foi a primeira fazenda estabelecida na Bacia do Piabanha e, durante os dez primeiros anos foi bastante efetivo o seu desempenho como pouso.

Com a morte de Bernardo Soares de Proença em 1735, a Sesmaria foi legada ao filho Antonio de Proença Coutinho Bittencourt que deu continuidade à obra do pai e um grande impulso à propriedade.

Por volta de 1750, Antonio de Proença citou em seu Testamento um pomar ao norte da sua data, descrito como "um sítio novo com seu paiol e árvores, no fim da quadra das minhas terras (sic)".

Ao que tudo indica a área desse "sítio novo" ficava situada no extremo norte da Sesmaria, a qual, mais tarde, foi aforada ou arrendada a terceiros e seria contestada judicialmente por posseiros provenientes da Sesmaria limítrofe.

Alertamos para o fato de que alguns historiógrafos confundiram esse "sítio novo" com a "paragem do Córrego Secco", situada no outro extremo - sul - da Sesmaria. (9)

(9) - Alguns historiógrafos confundiram esse “sítio novo” com a “paragem do Córrego Secco”. Porém, de acordo com informações colhidas nos Autos do Processo constante das Fontes Documentais, Ref. 32, a sua localização fica comprovada no outro extremo (norte) da Sesmaria.
 32.  Requerimento do Cap. Mor Francisco G. Ribeiro e outros, solicitando proibição da abertura de novas picadas para as Minas Gerais, alegando o dano causado "depois que o dito Estevão Pinto abriu aquelas infaustas picadas".


Com a morte de Antonio de Proença, ocorrida por volta de 1753, a Sesmaria Tamaraty foi legada ao filho Bernardo Antonio de Proença que, na ocasião, tinha apenas dez anos de idade. Em virtude da menoridade, a mãe de Bernardo Antonio, D. Luiza Antonia de Proença Cordeiro da Silva - excluída do Testamento do marido - acabou sendo designada para cuidar do patrimônio do filho, na qualidade de tutora. E, nesse encargo de administradora seria auxiliada, mais tarde, pelo seu segundo marido, Francisco Fagundes do Amaral, homônimo do concessionário pioneiro da Sesmaria Fagundes.

Durante essa gestão temporária surgiu uma questão envolvendo o supracitado "sítio novo" - já abordada na Retrospectiva anterior - que, segundo os reclamantes, estaria fora dos limites da Sesmaria Tamaraty.

Na realidade, o que deu início a esse litígio, que iria durar alguns anos mais, foi a posição intransigente - e errada - que D. Luiza Antonia havia assumido em relação à orientação no rumo divisório norte da Sesmaria Tamaraty, ao contrário daquilo que fora habilmente estabelecido e defendido por seu ex-marido na "Convenção dos Anos 40". Pelo que consta nos autos do processo que foi aberto, D. Luiza Antonia foi acusada de dificultar as averiguações e de esconder importantes documentos sobre a propriedade em pauta. (10)

(10) - Fontes Documentais, Ref. 32. 
32.  Requerimento do Cap. Mor Francisco G. Ribeiro e outros, solicitando proibição da abertura de novas picadas para as Minas Gerais, alegando o dano causado "depois que o dito Estevão Pinto abriu aquelas infaustas picadas".


Essa controvérsia somente seria superada após a morte de D. Luiza Antonia, o que iria ocorrer alguns anos mais tarde.

Em meados do ano de 1766, Bernardo Antonio de Proença atingiu a maioridade e assumiu a gestão de suas terras. Porém, continuou a receber grande assistência e forte influência por parte da mãe.

Em torno de 1772, foi executado o desmembramento da metade sul da Sesmaria original, como providência inicial para sua venda a Manoel Vieira Affonso. Após essa transação, a Fazenda Tamaraty ficou definida pela área restante, ocupando cerca de 3.750.000 braças quadradas.

Em 1774 foi realizada uma Medição Amigável para definição da linha divisória entre as duas propriedades. Essa operação constou em maiores detalhes na Síntese Retrospectiva da Fazenda Córrego Secco.

Bernardo Antonio de Proença faleceu em 1776 e D. Luiza Antonia, tomou a posse plena da propriedade, administrando-a por cerca de treze anos mais, isto é, até seu falecimento em 1789, quando todos os desacertos reinantes puderam ser esquecidos e corrigidos.

A demarcação final da Fazenda Tamaraty foi a seguinte:

em forma de paralelogramo;

testada e linhas de fundo medindo 1.500 braças orientadas no rumo N-MQL-NE (019,5º v);

linhas de lado norte e sul medindo 1.500 braças para cada lado do Atalho, orientadas no rumo ENE (067,5º v), sendo que suas divisórias norte e sul foram , respectivamente, fixadas sobre o Marco do Tamaraty (mais tarde Marco das Carrancas) e sobre o Marco de Pedra Negra (mais tarde Marco dos Sete Caminhos);

confrontantes - pelo norte o "embrião da Fazenda Samambaia" que estava em vias de ser desmembrada das Fazendas Manoel Correa e Rio da Cidade, pelo leste o "embrião da roça do Bonfim", pelo sul a Fazenda Córrego Secco e pelo oeste a Fazenda Vellasco; e

área total com cerca de 3.750.000 braças quadradas.

Apesar da Fazenda Tamaraty ocupar uma posição privilegiada, em virtude de ser servida diretamente pelo Atalho, não se pode afirmar que ela tivesse alcançado grande êxito como propriedade rural. Entretanto, durante seus primeiros trinta anos, foi o melhor pouso Serra-Acima, o qual mereceu do Governador Luiz de Albuquerque, em 1772, o predicativo de "bastante cômodo".

Até 1800, ela passou pelos seguintes titulares: João Leite Pereira de 1789 até 1793 e Jacob Mounier a partir de 1793.

Seguia-se ao norte o "embrião da Fazenda Samambaia", cuja área estava em vias de ser desmembrada e regularizada em nome dos herdeiros.

Embrião da Fazenda Samambaia

O "embrião da Fazenda Samambaia" resultou da fusão dos desmembramentos, das partes meridionais das Sesmarias Rio da Cidade / Paciência e Muniz / Manoel Correa, na configuração assumida por elas após a "Grande Medição Judicial de 1762", na ocasião em que as divisórias entre si e com a Fazenda Tamaraty foram redefinidas judicialmente. Assim sendo, a área prevista para a "futura Fazenda Samambaia", deveria ser um retângulo com linhas de fundo medindo 700 braças e linhas de lado medindo 6.000 braças, área essa cortada pelo Piabanha, no segmento compreendido entre o Marco do Tamaraty e a Barra do Rio da Grota Funda.

Em decorrência da sistemática idealizada por Manoel Correa em seu Testamento, tal área, situada na "paragem das samambaias", iria caber, por decisão posterior dos herdeiros de Manoel Correa, à filha Maria Brígida Gonçalves Dias Correa da Silva Goulão, casada com Pedro Gonçalves Dias.

Ao que tudo indica, antes mesmo de 1890, o referido casal passou a gerenciar essas terras que somente lhes seriam confirmadas pela execução do Formal Partilha.

Enquanto era aguardada a posse definitiva, foi dado início à plantação de roças e, num local mais elevado foi construída à beira do Atalho, num local não muito distante da margem direita do Piabanha, uma confortável residência, destinada a servir como casa-sede da fazenda que estava em processo de organização.

É provável que esse prédio tenha sido prontificado por volta de 1789, pois os Registros Paroquiais de Inhomirim referem-se, nesse mesmo ano, a uma "Capella de N. Sra.da Conceição em Samambaia" que seria, na realidade, o Oratório da propriedade.

Existe uma história, baseada na tradição oral da família Gonçalves Dias, que conta o seguinte: "Maria Brígida e Pedro, freqüentemente, sentavam-se à varanda de sua casa e, de lá acompanhavam os folguedos infantis dos filhos Thomaz e Luiz pelas terras da fazenda, os quais, freqüentemente, estendiam suas incursões até a outra banda do Piabanha, onde desapareciam naquelas, ainda, intocáveis matas que teriam inspirado o sensível casal a considerá-las como o Retiro de São Thomaz e São Luiz".

Podemos afirmar que antes do final da Década de 90, o "embrião" sobre o qual estamos discorrendo já atingira o nível de fazenda.

Enquanto era aguardada a execução do Formal de Partilha, o "embrião da Fazenda Samambaia" ficou delineado em forma de retângulo, medindo 700 braças por 6.000 braças, cuja base coincidia com as linhas de lado sul da Sesmaria Muniz / Manoel Correa e da Sesmaria Rio da Cidade Paciência.

No sentido longitudinal, essa faixa estendia-se, pelo rumo NNO (337,5ºv), desde o Marco do Tamaraty até o Córrego da Grota Funda. E, no sentido transversal, pelo rumo ENE (067,5ºv), desde as vertentes da Serra dos Órgãos até a crista da Serra Negra.

Desde muito cedo ficou bastante claro que apenas prevalecera o interesse de seus gestores, pela utilização das terras mais próximas ao Caminho Geral, entre o Maciço do Alcobaça" e a Pedra do Retiro, sendo descartadas as áreas das extremidades, constituídas por áreas predominantemente rochosas e por terrenos inagricultáveis.

Pedro Gonçalves Dias faleceu pouco antes do final do ano de 1799 e D. Maria Brígida tornou-se a titular dessa promissora área.

Prosseguindo na Faixa de Quadras do Atalho, seguia-se a Fazenda Rio da Cidade.

Fazenda Rio da Cidade

A Fazenda Rio da Cidade originou-se da Quadra-Padrão outorgada a Luiz Peixoto da Silva pela Carta de Sesmaria de 12.11.1721, confirmada por SMR em 12.7.1723. Porém essa confirmação foi cassada e tal data foi, finalmente, homologada para José Rodrigues Gomes - ou seu preposto - em 1725.

Porém, o concessionário inicial não "arredou o pé" da fazenda" que fundara, onde - numa pequena elevação situada ao lado do Atalho, distante cerca de 500 braças da confluência dos Rios Araras e da Cidade - construíra a sua casa-sede.

Conforme foi visto em tópicos anteriores, a ocupação em tela foi extremamente confusa, e as pendências sobre ela só foram resolvidas em 1733, quando Manoel Antunes Goulão, recém chegado de Portugal, comprou a área, assumindo a Fazenda Rio da Cidade e as demais partes da Sesmaria.

Por volta de 1749, Goulão iniciou a construção de uma igrejinha, ao lado da casa-sede de sua fazenda, a qual foi inaugurada em 1751, com o nome de Capella de Nossa Senhora do Amor de Deus.

Não há registros sobre o desempenho dessa fazenda durante a gestão de Goulão.

No final da Década de 50, o proprietário da fazenda contígua pelo nascente, Manoel Correa da Silva que - cerca de dez anos antes, havia se casado com a filha única de Goulão - comprou a Sesmaria Rio da Cidade / Paciência, nos termos constantes da Escritura lavrada em [1759].

Parece que essa transação entre sogro e genro, teria sido motivada pelo golpe sofrido por Goulão, ante a prontificação da Variante do Atalho e a conseqüente desativação do Caminho Geral pelas "terras do Rio da Cidade". E, em contrapartida, a oportunidade que teve Manoel Correa de se tornar proprietário - mediante alegação de dispor de grandes cabedais e não possuir terras - de uma área pela banda direita do Piabanha, servidas diretamente pela Variante do Atalho.

Para Goulão, a venda não foi de todo desvantajosa, pois não sendo mais concessionário de uma propriedade foral, poderia pleitear uma nova Sesmaria. E, justamente, foi isso que ele fez, ao requerer uns "sobejos de terras devolutas e sem dono", situadas nas "cabeceiras da fazenda chamada Rio da Cidade".

Antes de 1780, a Fazenda Rio da Cidade foi passada em vida para o Pe Antonio Thomaz de Aquino Correa da Silva Goulão, filho do casal Manoel Correa e D. Brittes.

No final da Década de 80, a parte sul das sesmarias Muniz / Manoel Correa e Rio da Cidade / Paciência - uma extensa faixa medindo 750 braças por 6.000 braças - foi colocada à disposição de D. Maria Brígida, casada com Pedro Gonçalves Dias, a fim de constituir o "embrião da Fazenda Samambaia" que lhes caberia por herança.

Todavia, essa desvinculação só poderia ser efetivada após a execução do Formal de Partilha da família Correa da Silva.

Naquela altura, a Sesmaria e a Fazenda Rio da Cidade se confundiam numa só propriedade. A demarcação definitiva só foi efetivada após a "Grande Medição Judicial de 1762", quando as suas divisórias norte e oeste foram redefinidas. Porém, a sua forma e dimensões estavam prestes a ser alteradas em face dos desmembramentos previstos para as áreas destinadas aos "embriões das Fazendas Olaria e Samambaia".

Apesar da competência de seus proprietários, a Fazenda Rio da Cidade não alcançou grande projeção como propriedade rural. Certamente, a causa principal desse insucesso deveu-se ao prematuro desvio das cargas transportadas pelas tropas de muares, provocado pela abertura da Variante do Atalho pelo Piabanha em 1750 e sobretudo, em 1760, quando foi definitivamente desativado o trecho do Caminho Geral de Minas Gerais, pelas "terras do Rio da Cidade" e pela Serra da Tamborapea (Araras).

Com a morte de Manoel Correa em 1784 a aceleração de seu declínio foi inevitável.

Entretanto, as atividades sócio-religiosas continuaram sendo mantidas em torno da Capella de Nossa Senhora do Amor de Deus que passara a ser assistida pelo Pe. Correa, após sua ordenação sacerdotal.

O acesso particular à área principal da fazenda Rio da Cidade - várzea da confluência dos Rios da Cidade e Araras - continuou sendo feito pelo desativado trecho do Atalho ou pelo "Caminho de Araras".

Seguia-se ao norte a Fazenda Araras.

Fazenda Araras

A Fazenda Araras originou-se da Sesmaria outorgada em 1723 a Luiz Antunes Álvares, cujas atividades principais - segundo Frei Estanislau Schaette - concentravam-se nas imediações dos limites da Fazenda Rio da Cidade.

Não encontramos nenhum dado sobre a época em que as "terras das araras" passaram às mãos do irmão de Bernardo Soares de Proença, Nicolau Viegas de Proença; sabe-se apenas que, por volta de 1738, ele vendeu para Domingos Rodrigues da Rocha a Sesmaria em pauta. Mais tarde, o comprador alegaria que também estava incluída na transação "a meia légua contígua pelo leste - situada além da margem direita do Piabanha - onde fora implantada a Fazenda da Ponte.

Somente através da análise do "Croqui Topográfico da Grande Medição Judicial de 1762" é que surgiram informações concretas sobre a área realmente ocupada pela Sesmaria Araras, ficando devidamente esclarecido que Nicolau Viegas de Proença era seu proprietário e que após os meados da Década de 30 ele a vendeu para Domingos Rodrigues da Rocha. Além disso, o supracitado documento, tornou possível a identificação da planta de situação da referida data (Sesmaria Araras) e da prova de que Domingos Rodrigues da Rocha estava ocupando a Fazenda da Ponte.

Em decorrência das decisões impostas pela "Grande Medição Judicial de 1762", a Fazenda Araras foi homologada para Domingos Rodrigues da Rocha, no mesmo formato, dimensões e orientações da Sesmaria Rio da Cidade / Paciência.

Assim, ela pôde ser demarcada definitivamente:

em forma de retângulo;

testada e linhas de fundo medindo 1.500 braças, orientadas no rumo NNO (337,5º v);

linhas de lado norte e sul medindo 1.500 para cada lado do Atalho orientadas no rumo ENE (067,5º v);

confrontantes - pelo norte a Fazenda Rocinha das Pedras, pelo leste a Fazenda da Ponte e parte das "terras de Magé", pelo sul a Fazenda Rio da Cidade / Paciência e pelo oeste o "embrião da Fazenda do Malta Serra-Acima"); e

área total com 6.852.000 braças quadradas, sem contar com a discutível Fazenda da Ponte.

Durante seus primeiros trinta e cinco anos, essa data foi cortada, em toda sua extensão, pelo Atalho. Com a homologação da Variante do Atalho pelo Piabanha até a "Ponte do Pedro Martins" e a conseqüente desativação do segmento original dessa via através da Serra das Araras (ex Tamborapea), ela sofreu os mesmos prejuízos das demais propriedades que deixaram de ser servidas diretamente pela rota primitiva do "Caminho Geral de Minas Gerais pelas terras do Rio da Cidade". Entretanto, auferiu uma certa compensação quando, no final da Década de 70, passou a se desenvolver por ela uma vereda de ligação com a Sesmaria de Boaventura da Cruz Alvarez (mais tarde Fazenda do "Malta Serra-Acima"), a qual se interligava ao "embrião da Fazenda Santa Catharina" e esta, por sua vez, ao Caminho do Sardoal, Atalho do Caminho do Sardoal e "atalho de acesso a Paty do Alferes pelas terras que foram do Marcos da Costa".

Após a morte de Domingos Rodrigues da Rocha em 1785, foi iniciado o processo, previsto em seu Testamento, para transferência dos seus bens aos herdeiros. A Fazenda Araras que, até então, concentrava suas atividades principais no setor sudeste, foi desmembrada em duas sub-áreas, divididas pela antiga rota do Atalho. A parte oeste foi legada aos escravos alforriados que ali serviram por mais de vinte anos, cabendo a outra parte ao sobrinho Manoel José Gomes Lima, residente em Portugal.

Não há o menor registro sobre o que ocorreu com a parte da Fazenda Araras, legada aos escravos. Quanto ao destino que Manoel José Gomes Lima deu à parte leste, cabe supor sua negociação com o conseqüente fracionamento que deu origem aos "embriões das Fazendas Bonsucesso e Manga Larga".

Seguia-se ao Norte a Rocinha das Pedras.

Fazenda Rocinha das Pedras

A Sesmaria outorgada em 1723 a Ambrosio Dias Raposo - do qual não há o menor registro sobre sua atuação - deu origem às roças que, na Década seguinte, foram exploradas pelos primos: Euzébio Ferreira Vieira, na parte sul e o Desembargador Euzébio Álvares Ribeiro, na parte norte.

A parte sul, situada ao sopé da Pedra da Maria Comprida, não teve maior expressão como propriedade rural. A parte norte, onde o Desembargador fundou a Rocinha das Pedras e edificou em 1734 a Capella de N. S. da Conceição das Pedras - a primeira no Distrito Serra Acima da Freguesia de Inhomirim - gozou de certa notoriedade, passando pouco a pouco a centralizar todas as atividades da Sesmaria original.

A partir de 1740, não houve mais registros sobre a permanência de Euzébio Ferreira Vieira na área.

Com a morte do fundador em 1757 e o desvio do tráfego para a Variante pelo Piabanha, a propriedade entrou em franco declínio e, pouco depois - 1760 - a singela "igrejinha" foi desativada.

Em 1760, Francisco Pereira de Mello foi citado como proprietário dessa fazenda.

As informações divulgadas sobre a venda efetuada pelo Desembargador Euzébio Álvares Ribeiro a Manoel Henrique da Fonseca, constituem um equívoco decorrente da interpretação errônea dos termos da Carta de Sesmaria de 19.XII.1760, na qual era mencionada uma transação do citado Desembargador, referente à Sesmaria que este possuía na Baixada, próximo ao Rio Inhomirim.

Em decorrência das decisões impostas pela "Grande Medição Judicial de 1762", a Fazenda das Pedras - ou Rocinha das Pedras - foi homologada no mesmo formato, dimensões e orientações das Sesmarias Rio da Cidade / Paciência e Araras.

Assim, ela foi demarcada definitivamente:

em forma de retângulo;

testada e linhas de fundo medindo 2.248 braças orientadas no rumo NNO (367,5º v);

linhas de lado norte e sul medindo 1.500 braças para cada lado do Atalho, orientadas no rumo ENE (067,5º v);

confrontantes - pelo norte a Roça do Secretário, pelo leste as "terras de Magé", pelo sul a Fazenda Araras e pelo oeste o "embrião da Fazenda Santa Thereza", mais "as terras dos demais sucessores de Leandro da Cruz Alvarez"; e

área total com cerca de 6.852.000 braças quadradas.

Até o final do Século em curso, nenhuma evolução importante foi registrada na Fazenda das Pedras.

Após a desativação do trecho do Atalho que cortava essa fazenda, o acesso principal passou a ser feito a partir da Roça do Secretário.

Seguia-se ao norte a Roça do Secretário.

Roça do Secretário

A Roça do Secretário foi implantada por volta de 1722, com base no que estava previsto na Ordem Régia de 7.V.1703, através da qual a Administração Geral baixou as normas gerais que deveriam ser observadas na abertura do Caminho Novo e, ao que tudo indica, ainda estavam vigorando, cerca de vinte anos mais tarde, na época da abertura do Atalho.

Num dos dispositivos desse documento - Ordenança - estava prevista a implantação de "Sesmarias do Governo", destinadas à instalação de "pousos e roças de apoio" em determinados pontos do trajeto, julgados imprescindíveis para a manutenção do tráfego.

O Secretário de Governo José Ferreira da Fonte providenciou a implantação dessa "roça de apoio", estrategicamente posicionada no meio do percurso Serra-Acima do "projetado atalho", avocando a responsabilidade de sua exploração.

Tal roça, notabilizada como "Roça do Secretário", constava de um retângulo com testada e linhas de fundo medindo 1.500 braças (meia légua) e linhas de lado norte e sul medindo 3.000 braças (uma légua) e, logo nos seus primórdios ela foi judicialmente demarcada entre a Sesmaria das Pedras (1723) e a Sobrequadra Oeste da Sesmaria do Fagundes (1723), sendo homologada em nome de José Ferreira da Fonte.

Ocupando uma posição privilegiada em relação ao Atalho, numa área orograficamente suave e com terras muito férteis, a Roça do Secretário estava predestinada ao sucesso como propriedade rural.

As informações divulgadas e repetidas em cadeia, sobre sua existência desde 1703 são totalmente infundadas. Tal equívoco resultou de uma interpretação errônea do termo "Ordem de 7.V.1703", citado como referência no teor da Carta de Sesmaria de 28.VIII.1734 , o qual obviamente se referia à Ordem Régia que regulava a implantação da referida "roça do governo" e não a um Foral de Outorga de Sesmaria, principalmente porque as Sesmarias eram concedidas por Cartas Régias e jamais por Ordens Régias.

Visando à ampliação de sua roça, em 1734, José Ferreira da Fonte pleiteou e obteve uma Quadra-Padrão, contígua pelo leste, estendendo seus domínios até a calha do Piabanha, assunto esse que será tratado detalhadamente na Retrospectiva sobre a Sesmaria do Secretário, situada na Faixa de Sobrequadras Leste.

Essas duas datas, às quais nos referimos, foram administradas em conjunto, passando a constituir as "terras do Secretário". Entretanto, neste tópico trataremos exclusivamente da Roça do Secretário e, forçosamente, alguns aspectos comuns serão repetidos.

O filho de José Ferreira da Fonte, Antonio Pegado de Carvalho, por diversas vezes confundido - até mesmo por renomados historiógrafos - com seu vizinho Joaquim José Pegado foi o segundo titular dessa propriedade, sendo que sua posse não se processou diretamente por herança, mas sim por via judicial.

Sabe-se - com base documental - que logo após a morte do "Secretário", ocorrida por volta de 1858, Antonio Pegado de Carvalho "arrematou em juízo o espólio do pai referente às terras do Secretário". (11)

(11) - Autos da “Questão da Fazenda Fagundes Novo”, Fontes Documentais, Ref. 31. 
31.  Autos de "A questão da fazenda Fagundes Novo - Foro da Parahyba do Sul - Libello cível entre partes", transcrito no "Mercantil", edição de [ ] de 1879.


Logo em seguida, ele retalhou essa grande propriedade, vendendo a Roça do Secretário e grande parte da Sesmaria do Secretário a Manoel da Costa Guimarães, que era casado com D. Francisca de São Felix Costa Guimarães.

O novo titular, pouco depois de tomar posse, iniciou, nas proximidades da casa-sede e à beira do Caminho do Sardoal, a construção de uma capela que foi consagrada a N. Sra.da Conceição da Lapa, provisionada em 1763 e inaugurada em 1764.

Poucos anos depois, Manoel da Costa Guimarães faleceu e seu patrimônio nas "terras do Secretário" foi herdado pela viúva D. Francisca de São Felix que se tornou a quarta titular.

Por volta de 1770, ela moveu uma ação judicial contra Antonio Pegado de Carvalho, sob alegação de que "a área das terras vendidas a seu marido era inferior ao que constava na escritura". Já há algum tempo, ela tinha suspendido o pagamento das prestações que ainda devia.

Naquela altura - 1771 - Antonio Pegado de Carvalho, mesmo não sendo mais o proprietário da área, requereu uma Medição Judicial para as "terras do Secretário", a fim de esclarecer tal reclamação, ficando decidido em juízo que a acusação era improcedente.

Ainda no mesmo ano, D. Francisca de São Felix vendeu seu patrimônio ao Pe. Antonio Leal Pennafiel, o qual se tornou o quinto titular da Roça do Secretário.

Em seus primórdios, a Roça do Secretário foi locada com 1.500 braças de testada por 3.000 braças de fundos, tendo sido observados os rumos divisórios de praxe no TPCP.

Após a "Grande Medição Judicial de 1762", ela teve um acréscimo de cerca de 300 braças na testada, a qual passou a ser considerada com 1.800 braças. Imagina-se que tenha sido contemplada, indiretamente, com áreas provenientes de "sobejos das terras mais ao norte, pela margem direita do Rio Fagundes".

E em sua nova demarcação, foi assim redefinida:

em forma de retângulo;

testada e linhas de fundo medindo 1.800 braças, orientadas no rumo NNO (337,5º v);

linhas de lado norte e sul medindo 3.000 braças, orientadas no rumo ENE (067,5ºv);

confrontantes - pelo norte os sucessores da Sobrequadra Oeste da Sesmaria de Francisco Fagundes do Amaral, pelo leste a Sesmaria do Secretário (resto), pelo sul a Fazenda Rocinha das Pedras e pelo oeste os sucessores de Ignácio Ferreira da Cruz; e

área total com cerca de 5.4000.000 braças quadradas.

A Roça do Secretário e sua fazenda contígua, privilegiadamente situadas no entroncamento do Caminho do Sardoal com o Caminho Geral de Minas Gerais - cuja rota fora aperfeiçoada pela Variante do Atalho pelo Piabanha - passaram por uma fase de invulgar sucesso.

O Pe. Pennafiel restabeleceu, em sua quase totalidade, a área inicial das "terras do Secretário", comprando e reintegrando desmembramentos que foram efetuados anteriormente.

O ativo sacerdote-fazendeiro desenvolveu em suas terras a pecuária de maior porte e culturas mais sofisticadas como a do café e de frutas européias. E ampliou as facilidades de pouso, tornando-a uma das mais completas propriedades rurais da micro-região.

Provavelmente, nessa fase ele instalou um engenho de cana-de-açúcar, o qual, pouco tempo depois, seria mencionado por alguns viajantes ilustres que ali passariam.

Além disso, ele deu grande incremento às interações sócio-religiosas desenvolvidas em torno da Capella de N. Sra da Conceição da Lapa, que congregava moradores das "bandas do Piabanha", das "Pedras" e do "Alto e do Médio Sardoal".

A Faixa de Quadras do Atalho que tivera seu início no "Embrião da Fazenda Alto da Serra" e terminava na Roça do Secretário.

Apoiando-se na "Grande Medição Judicial de 1762" e na "Medição Judicial das Terras do Secretário, em 1771", a demarcação dessa última data da Faixa - juntamente com a Fazenda do Secretário - contribuiu consideravelmente para ampliação da base topográfica norte do TPCP.

Prosseguindo para o norte, além da margem esquerda do Rio Fagundes, ficavam as "roças pré-paraibanas".

Faixa de Sobrequadras Leste do Atalho

Sobrequadra (Devoluta) Leste da Sesmaria Tamaraty

Até o final de 1979 nenhum legítimo ato de posse ocorreu nessa "Sobrequadra Leste da Sesmaria Tamaraty", a qual permanecia, praticamente, devoluta. Apenas temos notícias muito vagas sobre ocupações irregulares que se concentravam em duas pequenas áreas situadas nos setores sudoeste e noroeste.

Essa "sobrequadra conjectural" teria a mesma forma e dimensões da Sesmaria Tamaraty.

É possível que ela tenha sido concedida - em parte ou totalmente - para Felix Muniz Barreto através da Carta de Sesmaria de 22.I.1762. Todavia, esse Foral não foi confirmado, o que permite concluir que ela não foi efetivamente demarcada ou ocupada, permanecendo vaga e devoluta.

Outro possível pretendente foi Diogo Manoel do Nascimento que em seu requerimento mencionou, muito imprecisamente, a localização da área pleiteada como: "entre as quadras do falecido Domingos da Costa Almeida e do Capitão Antonio Bernardo de Proença". Acontece que, as citadas "quadras" ficavam afastadas, entre si, por cerca de quatro léguas. Cabe enfatizar que essa era a única sobrequadra vaga do TPCP - situada contiguamente às Fazendas Córrego Secco e Tamaraty.

Confirmando a citada suposição, em 28.XII.1796, tal pretendente acabou obtendo com base no mesmo Foral de 22.I.1762, a confirmação por parte de SA o PR D. João de uma outra data situada no Apêndice Nordeste, junto à data de Domingos da Costa Almeida.

Quanto às referidas "ocupações irregulares", informamos que as primeiras ocorreram nas áreas mais elevadas, situadas pelas nascentes dos rios Caxambu e Tamaraty, dando origem ao que nós poderíamos cognominar de "embrião das roças do Caxambu", local esse onde surgiram pequenas chácaras, onde predominariam as culturas de flores e produtos hortigranjeiros.

As outras "ocupações irregulares" teriam ocorrido nos "sertões dos matos e terras devolutas para o nascente do sol", nos altos cursos dos Rios Bonfim e Morto, dando origem ao que nós poderíamos cognominar de "embrião das roças do Bonfim".

Portanto, cabe inferir que a sobrequadra em tela, somente foi ocupada através de invasões ou de arrendamentos irregulares, estes últimos concedidos por aforadores vizinhos, em áreas além de seus domínios.

Em todos os demais setores dessa sobrequadra predominavam terrenos inagricultáveis, repletos de rochas abruptas.

Seguiam-se ao norte a Fazenda Manoel Correa, a Fazenda Santo Antonio e o embrião da Fazenda Olaria.

Fazenda Manoel Correa

A Fazenda Manoel Correa originou-se da Quadra-Padrão concedida a Francisco Muniz de Albuquerque pela Carta de Sesmaria de 6.VIII.1741 confirmada por SMR a 22.II.1743, cujos termos de localização, expressos no Foral de Outorga, foram extremamente conflitantes, devido ao completo desconhecimento da topografia local.

Primeiramente, a Sesmaria concedida não poderia ser locada como Quadra-Padrão e, tampouco, ficar dividida ao meio pelo eixo do Rio Piabanha.

Deixando de lado as determinações estipuladas pelo Foral, Muniz instalou sua data na Banda Leste do Piabanha, entre a Barra do Tamaraty e a Barra do Rio da Cidade, perfazendo uma testada de 3.000 braças no eixo do referido rio.

O local escolhido para sede de sua Sesmaria ficava 200 braças a jusante da Barra do Rio Morto.

Comparando os termos de localização dessa data com os da confrontante Rio da Cidade / Paciência e com a Tamaraty, verifica-se que grandes porções das mesmas deveriam ficar superpostas.

Para viabilizar a locação de sua data na situação reinante, Muniz não poderia prescindir de um acordo com seu confrontante pelo oeste, Manoel Antunes Goulão, bem como com o proprietário da Sesmaria Tamaraty, Antonio de Proença Coutinho Bittencourt.

Logo depois, esse problema foi contemporizado, em virtude dos acordos firmados por Muniz, Goulão, Antonio de Proença, Viegas de Proença e Rodrigues da Rocha - todos eles proprietários nas cercanias da área em questão - por ocasião da "Convenção dos Anos 40". Naquele evento, o Piabanha foi aceito como divisor consensual e o limite norte da Sesmaria Tamaraty foi traçado sobre o Marco do Tamaraty e orientado no rumo ENE (067,5º v).

Consta que Muniz, logo após ter instalado sua data, iniciou a abertura de uma variante que deveria se desenvolver pelas vertentes direitas do Piabanha, em direção à Fazenda da Ponte e, provavelmente, desse ponto em diante deveria prosseguir rio abaixo sob a iniciativa de outros concessionários das diversas Sesmarias que foram distribuídas naquela fase, pelas "bandas do Piabanha".

Muniz faleceu antes de 1747, deixando pronto esse segmento da variante que deveria se reentroncar provisoriamente ao Atalho, nas proximidades da confluência dos Rios da Cidade e Araras.

A partir de então, o trecho do "Atalho pelas terras do Rio da Cidade", foi substituído pelo trajeto bem mais suave, ao longo das vertentes do Piabanha. E isso valorizou consideravelmente a Sesmaria Muniz.

A Sesmaria Muniz contribuiu decisivamente para consolidação da conquista das "terras das Bandas do Piabanha" e incentivaria o prosseguimento da variante no trecho seguinte, entre a Fazenda da Ponte e a Sesmaria do Secretário.

Naquela ocasião, o recém-chegado português, Manoel Correa da Silva, "tomou posse" dessa data, em relação à qual não se tem idéia alguma sobre a forma - compra ou medida judicial - em que tal alteração patrimonial se processou. Apenas sabe-se que nessa fase inicial ela era cognominada "Fazenda da Posse", certamente em alusão a essas circunstâncias.

Mas, rapidamente, a Sesmaria Muniz / Manoel Correa iria celebrizar-se como Fazenda Manoel Correa.

Por volta de 1750, Manoel Correa casou-se com D. Brittes da Ascensão Goulão, filha única do sesmeiro confrontante pelo oeste, Manoel Antunes Goulão, consórcio esse que constituiu uma garantia para a manutenção do acordo consensual sobre a problemática divisória de suas terras.

Manoel Correa, intitulando-se "prático em Advocacia", foi incansável na luta para regularizar a demarcação de sua "posse", cujas três das quatro divisórias estavam sendo contestadas. Segundo o que ele próprio afirmaria mais tarde, sempre foi bem sucedido nessas questões, quer através de negociações, quer de ações jurídicas.

No final da Década de 50, Manoel Correa comprou a Sesmaria Rio da Cidade / Paciência, sendo a competente Escritura lavrada em [1759]. Tal transação valorizou consideravelmente as "terras do Manoel Correa pelo Piabanha" e eliminou prontamente qualquer tipo de questionamento futuro em relação à divisória do poente.

Os resultados da "Grande Medição Judicial de 1762" não contribuíram muito para a eliminação dos problemas de locação definitiva da Sesmaria Muniz / Manoel Correa, na forma que seu novo proprietário desejava, pois também era bastante complexa a questão da divisória pelo nascente.

Em primeiro lugar, porque a decisão emitida em primeira instância, no sentido de homologar uma Quadra-Padrão para Manoel Correa, foi derrubada na Suprema Casa da Supplicação, garantindo para Antonio da Silveira Goularte a posse sobre a Fazenda Santo Antonio, o que acarretaria uma redução de 3.000.000 de braças quadradas (1.000 x 3.000 braças) na área de 9.000.000 de braças quadradas (3.000 x 3.000 braças) que julgava ter direito. (12)

(12) - Conforme consta no “Croqui Topográfico da Grande Medição Judicial de 1762”, Fontes Pictográficas, Ref. 6. 
6. "Croqui Topográfico da Grande Medição Judicial, de 1762, das Terras Pré-Petropolitanas", Petipé: 1 légua. Original no Arquivo da Companhia Imobiliária de Petrópolis.


Outrossim, a divisória com a Sesmaria Rio da Cidade / Paciência não foi homologada pelo referencial do eixo do Piabanha, mas, sim, pelo eixo do Atalho nas terras do Rio da Cidade, NNO (337,5ºv), passando sua locação a ser considerada na Sobrequadra Leste da Sesmaria Rio da Cidade / Paciência.

Todavia, parece que essa última decisão não causou maiores problemas, tendo em vista o fato de que Manoel Correa, recentemente, se tornara o proprietário das duas supracitadas áreas.

Na fase em curso, a Fazenda Manoel Correa teve um desenvolvimento extraordinário, a ponto de ter sido notada na "Carta Topográfica do Rio de Janeiro - 1767, do Sargento-Mor Manoel Vieyra Leão", como a localidade "Manoel Correa".

Ademais, essa fazenda foi escolhida pelo Governador Luiz de Albuquerque para realizar seu primeiro pernoite, Serra-Acima, na viagem que fez para Mato Grosso em 1772, o que permite inferir que, naquela época, ela já possuía boas instalações e demais facilidades para pouso.

Em 1770, faleceu Manoel Antunes Goulão e, logo em seguida, a viúva D. Anna Antunes Nunes Goulão. E a Sesmaria do Goulão - Embrião da Fazenda Arca de Noé - bem como todos os demais bens do casal foram legados à filha única D. Brittes, esposa de Manoel Correa.

Outra importante questão que, também, foi resolvida na Década de 70, relacionava-se à divisória pelo nascente da Sesmaria Muniz / Manoel Correa com a Fazenda Santo Antonio. Nesse período a data em pauta passou definitivamente para Manoel Correa e a Sesmaria Muniz / Manoel Correa - constituída pelas Fazendas Manoel Correa e Santo Antônio - foi redefinida, em forma de Quadra-Padrão, com 3.000 braças orientadas no rumo NNO (337,5ºv) e 3.000 braças orientadas no rumo ENE (067,5ºv).

Porém, Manoel Correa não considerou, para fins de subdivisão interna, a nova linha divisória entre as Fazendas Manoel Correa e Rio da Cidade que foi mantida pelo Piabanha.

A Fazenda Manoel Correa ficou assim delineada:

em forma irregular:

pelo norte uma linha de lado medindo cerca de 1.500 braças, orientada no rumo ENE (067,5ºv);

pelo leste uma linha de fundo medindo 3.000 braças, orientada no rumo NNO (337,5ºv);

pelo sul uma linha de lado medindo 3.500 braças, orientada no rumo ENE (067,5ºv); e

pelo leste o Rio Piabanha, desde o Marco do Tamaraty até o ponto 500 braças a jusante da Barra do Rio da Cidade.

Em 1779, foi assinado o Testamento de Manoel Correa da Silva.

Nesse documento, ele estabeleceu, indiretamente, alguns critérios que julgara importantes para uma justa distribuição das terras do casal.

E, a partir de 1780, ele passou a atribuir aos seus filhos a gerência dos determinados setores da imensa propriedade que imaginara lhes caber na partilha.

Manoel Correa da Silva faleceu em 1784 e, antes mesmo desse infausto acontecimento, seu filho Pe. Antonio Thomaz de Aquino Correa da Silva Goulão já vinha cooperando na gerência da Fazenda Manoel Correa e dirigindo a Fazenda Rio da Cidade.

A faixa sul das Sesmarias Muniz / Manoel Correa e Rio da Cidade / Paciência (retângulo com 750 x 6.000 braças) foi reservada para o casal Pedro Gonçalves Dias e D. Maria Brígida Gonçalves Dias Correa da Silva Goulão.

Em pouco tempo, essa área, já podia ser considerada como um "embrião de fazenda", porém, para efetivação do desmembramento e legitimação da propriedade, seria necessário aguardar a execução do Formal de Partilha.

E esse desmembramento iria alterar, significativamente, os limites e forma das primitivas Sesmarias Fazendas Muniz / Manoel Correa e Rio da Cidade / Paciência.

Também estava em vias de ser processado um outro desmembramento, na parte norte da Sesmaria Muniz / Manoel Correa, compreendido por um retângulo com cerca de 1.500.000 braças quadradas (750 x 2.000 braças), o qual, conforme estava planejado na Partilha, deveria caber à herdeira Archangela Joachina da Cunha Barbosa Correa da Silva Goulão, área essa em que estava se desenvolvendo o "embrião da Fazenda Olaria", o qual poderá ser mais bem entendido através da Síntese Retrospectiva específica.

Outrossim, esclarecemos que essa matéria constou, nos mínimos detalhes, na Síntese Retrospectiva sobre o "embrião da Fazenda Samambaia", apresentado na série de propriedades da Faixa de Quadras do Atalho.

O Pe. Correa, com a experiência adquirida nos últimos anos de vida de seu pai, deu continuidade à grande obra deste competente fundador e, assim, prosseguiria até a Execução do Formal de Partilha.

Por volta de 1793, o Pe. Correa realizou uma grande reforma na casa-sede da fazenda e, ao lado dela, iniciou a construção de uma capela particular.

Aos poucos, o Pe. Correa foi dando uma nova feição à excelente fazenda primitiva, voltando-se mais para as culturas exóticas e para a hotelaria rural, sem perder de vista a qualidade dos serviços de pouso postos à disposição dos viajantes que, a cada dia, se tornavam mais numerosos e exigentes.

A partir da Execução do Formal de Partilha, começaria o retalhamento da Sesmaria Muniz / Manoel Correa, com a perda das áreas destinadas aos "embriões da Fazendas Samambaia e Olaria", ficando a área remanescente da fazenda original com cerca de 4.500.000 braças quadradas.

E assim, ficou delineada a área que no final da Década de 90, já começava a ser cognominada de "Fazenda do Pe Correa".

Ao norte das "terras do Manoel Correa" seguia-se a Fazenda da Ponte e parte do "embrião da Fazenda Arca de Noé".

Porém, antes de prosseguir, devemos passar para a Síntese Retrospectiva da Fazenda Santo Antonio que completava o restante da Sobrequadra.

Fazenda Santo Antônio

A Fazenda Santo Antônio originou-se da Quadra-Padrão concedida a Antônio da Silveira Goularte pela Carta de Sesmaria de 18.I.1760 confirmada por SMR a 30.VII.1761. Estava expresso no teor desse documento que ela "deveria partir, pelo Poente, com as terras do Manoel Correa da Silva que foram do defunto Francisco Muniz de Albuquerque".

E, mesmo, antes dessa data ter sido confirmada em 1761, Goularte já teria instalado a casa-sede de sua fazenda, nas proximidades do Rio Magé (depois Santo Antonio), num local distante cerca de seiscentas braças a montante da Barra do Rio Cuiabá.

O concessionário que, segundo a abalizada opinião de Frei Estanislau Schaette, já era "fazendeiro Serra-Acima desde 1757", deveria conhecer muito bem a área e, principalmente, os termos do Foral de Outorga da Sesmaria de Francisco Muniz de Albuquerque (1741). E, por tais razões, redigiu com grande precisão a sua petição pela referida área.

Sabendo que a data de seu futuro confrontante - conforme estava estipulado no respectivo Foral - deveria ter meia légua de fundos para cada lado do eixo do Piabanha, ele considerou que sua pretendida Sesmaria teria de fazer testada na linha divisória leste da Sesmaria Muniz original, isto é, distante 1.500 braças do referido rio.

Porém, Manoel Correa não reconhecia esse argumento, alegando ter direito a uma Quadra-Padrão, com uma légua quadrada de área (3.000 x 3.000 braças).

Essa pretensão foi acolhida pela Ouvidoria Geral do Rio de Janeiro, porém, a Suprema Casa da Supplicação, logo em seguida, derrubou tal sentença, homologando apenas 2.000 braças de fundos para a Sesmaria Muniz / Manoel Correa e respeitando a locação da Fazenda Santo Antônio em nome de Goularte, o qual manteria em seu poder a área onde instalara a sua sede.

Porém, Manoel Correa continuou lutando judicialmente e, antes de 1779, tomou posse definitiva da Fazenda Santo Antonio, considerada com 1.000 braças de fundos e 3.000 de testada, sendo que dessa área deveriam ser abatidas 750 braças de testada, destinadas ao "embrião da Fazenda Samambaia".

Após a morte de Manoel Correa em 1784 e, dentro do que fora planejado, a gestão provisória da Fazenda Santo Antonio coube ao filho Dr. Agostinho Ignácio Correa da Silva Goulão.

Durante a Década de 90 foi construída uma senhorial casa-sede que, algum tempo depois, iria ser ampliada, tornando-se uma das mais legítimas obras-primas da arquitetura rural fluminense.

Acredita-se que os melhoramentos realizados teriam sido processados por etapas, durante as várias décadas em que o ilustre fazendeiro, homem público e político passou longas temporadas em sua fazenda..

Entretanto, como acontecia com quase todas as demais grandes propriedades da micro-região, os resultados práticos alcançados pela fazenda foram, apenas, aceitáveis.

Em posição relativamente distante da Variante do Atalho, o acesso a essa propriedade podia ser feito pelas "terras do Manoel Correa", através da rota do Palmital ou da rota do Calembe.

Um outro acesso, bem mais longo poderia ser realizado pela picada que se desenvolvia ao longo do Rio Santo Antônio (também chamado Magé) até a Barra do Rio Cuiabá, e desse ponto em diante por um trecho de mais 500 braças até a casa-sede.

Essa data que ocupava uma posição contígua à Sesmaria Muniz / Manoel Correa foi, assim, locada:

em forma de retângulo;

testada e linha de fundo medindo 3.000 braças, orientadas no rumo NNO (337,5º v);
linhas de lado norte e sul medindo 1.000 braças orientadas no rumo ENE (067,5º v);

confrontantes - pelo norte o "embrião da Fazenda Arca de Noé", pelo leste o restante da Sesmaria Goularte, pelo sul os "sertões da Serra dos Órgãos" e pelo oeste a Fazenda Manoel Correa; e

área total com 3.000.000 de braças quadradas.

A parte da Fazenda Santo Antonio que está sendo considerada neste tópico e a emergente Fazenda Manoel Correa preencheram, lado a lado, a parte da Faixa de Sobrequadras Leste que lhes cabia, ficando inserido no setor noroeste o, ainda indefinido, "embrião da Fazenda Olaria".

Embrião da Fazenda Olaria

Até o final da Década de 90, o "embrião da Fazenda Olaria" ainda não estava cabalmente definido. Sabe-se, apenas, que ele estava incluído na parte da herança que caberia, por decisão consensual dos herdeiros de Manoel Correa, a D. Archangela Joachina.

Apesar da existência de roças plantadas e, mesmo, de uma olaria na área prevista para sua locação, até a época em pauta, não há registro algum sobre qualquer tipo de iniciativa por parte de D. Archangela.

E a área a ser ocupada dependia de um desmembramento que deveria ser efetuado na parte norte da Fazenda Manoel Correa e de outro na Fazenda Rio da Cidade.

Seguiam-se para o norte, na mesma faixa, a Fazenda da Ponte e o "Embrião da Fazenda Arca-de-Noé" (Sesmaria do Goulão).

Fazenda da Ponte

Ao norte das fazendas Manoel Correa e Santo Antonio, existia uma área, não concedida por Carta Foral, com meia légua de largura por três quartos de légua de extensão, contígua pelo oeste à Sesmaria Araras. Tal área vinha sendo ocupada, desde 1738, por Domingos Rodrigues da Rocha, sob alegação de que estava incluída na transação da Fazenda Araras que realizara com Nicolau Viegas de Proença.

Na citada gleba ele implantou uma fazenda, para acesso à qual construiu uma ponte de madeira que cruzava o Piabanha, em local pouco abaixo da Barra do Rio da Cidade.

Entretanto, cabe comentar que, pela "Grande Medição Judicial de 1762", essa área não foi imediatamente homologada para Domingos Rodrigues da Rocha, tendo sido considerada como um enclave na Sesmaria Magé.

Todavia, sem que se tenha conhecimento da real versão, Domingos Rodrigues da Rocha, manteve a posse dessas terras até sua morte, tudo indicando que o caso fora solucionado por medida judicial posterior, com base na norma uti possidetis facti.

Em tais circunstâncias, a Fazenda da Ponte, foi redefinida como "Quadra de Meia Légua".

Em 1785 ela foi herdada - juntamente com a metade da Fazenda Araras - pelo sobrinho do seu fundador, Manoel José Gomes Lima, que certamente a negociou, dando origem, no final da Década de 90, aos "embriões do Engenho Benfica e das Fazendas Bonsucesso e Manga Larga".

Consta que, na virada do século, esta propriedade pertencia a Bento da Cunha Velho, casado com D. Paula Gomes da Conceição, avós maternos de José Candido Fragoso que, pouco depois, iria se casar com D. Brígida Maria Gonçalves Dias Correa da Silva Goulão, neta de Manoel Correa da Silva e bisneta de Manoel Antunes Goulão.

Alguns anos mais tarde, José Cândido Fragoso tornar-se-ia o único dono da área e sua esposa herdaria a contígua Fazenda Arca de Noé.

Após 1762, o "Embrião do Engenho Benfica" foi assim locado:

em forma de Quadra de Meia Légua;

testada e linha de fundo leste medindo 1500 braças, orientadas no rumo NNO (337,5º v);

linhas de lado norte e sul medindo 1500 braças, orientadas no rumo ESE (067,5º v);

confrontantes - pelo norte as "terras de Magé", pelo leste o "embrião da Fazenda Arca de Noé", pelo sul as "terras do Manoel Correa" e pelo oeste a Sesmaria Araras, na qual fazia testada; e

área total com 2.250.000 braças quadradas.

No final da Década de 60 ela passou a ser servida, em todo sua extensão, pela Variante do Atalho.

Como as demais propriedades da região, nela foram primordialmente exploradas as culturas de milho, feijão e cana-de-açúcar. É possível inferir que tenha existido um engenho na primitiva fazenda, em virtude de um indício resgatado dos Assentamentos Religiosos de Inhomirim, referente à existência, no final da Década de 90, do "Oratório do Engenho de São Domingos de Benfica".

Ao norte da Fazenda da Ponte seguiam-se as "terras de Magé".

Porém, antes de prosseguir, devemos passar para o "embrião da Fazenda Arca de Noé" que, junto com a data em pauta, completava essa "meia légua de Sobrequadra".

Embrião da Fazenda Arca de Noé (Sesmaria Goulão)

O "embrião da Fazenda Arca de Noé" originou-se da data concedida a Manoel Antunes Goulão, pela Carta de Sesmaria de 11.XI.1760 confirmada por SMR a 22.IX.1763.

Goulão requereu essas "terras pelas bandas do Piabanha", visando à compensação pelos prejuízos que tivera pela desativação do Caminho Geral em suas "terras do Rio da Cidade".

Os termos de localização expressos no Foral de Outorga foram extremamente precisos, ao contrário do que era normal naquela época. Mesmo assim, muitos historiógrafos confundiram esta ocupação com aquela que deu origem à Fazenda Manoel Correa, gerando uma série de equívocos, tendo sido o mais contundente aquele cometido - inexplicavelmente - pelo notável Pizzarro, quando afirmou que a Fazenda Manoel Correa fora fundada por Manoel Antunes Goulão. Seguramente, Francisco Muniz de Albuquerque fundou uma fazenda na Barra do Rio Morto que, cerca de cinco anos após, iria pertencer a Manoel Correa da Silva.

A partir de 1770, a Sesmaria Goulão foi incorporada ao patrimônio do casal Manoel Correa da Silva e D. Brittes Correa da Silva Goulão. 

Posteriormente, constou como parte da herança que caberia à filha mais velha desse casal, D. Maria Brígida Gonçalves Dias Correa da Silva Goulão.

Ela foi locada:

em forma de "Quadra de Meia Légua";

testada e linha de fundo leste medindo 1500 braças, orientadas no rumo NNO (337,5º v);

linhas de lado norte e sul medindo 1.500 braças, orientadas no rumo ENE (067,5*v);

confrontantes - pelo norte as "terras de Magé", pelo leste a Sesmaria de João Gonçalves Rainho, pelo Sul a Fazenda Santo Antonio e parte das "terras do Manoel Correa" e pelo oeste a Fazenda da Ponte, na qual fazia testada; e

área total com 2.250.00 braças quadradas.

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