Ensaio entregue pelo autor a 20/01/2006 para inclusão no site, dividido em partes conforme melhor fosse.

PETRÓPOLIS - A SAGA DE UM CAMINHO (6)
Gênese e Evolução do Território Petropolitano

Carlos Oliveira Fróes

Capítulo 6
O TPCP no Último Quartel Do Século XVIII

Nas proximidades do início do Último Quartel do Século XVIII, a Colônia Brasil - já alçada à categoria de Vice-Reino - passava por uma fase bastante crítica, pois o Ciclo do Ouro chegara ao seu ocaso e a expectativa quanto ao potencial dos demais minerais preciosos não era tão promissora.

A Capitania de Minas Gerais, o maior pólo produtor da Colônia, ainda poderia manter-se num patamar mais elevado, graças às compensações provenientes da extração de diamantes e demais minerais preciosos, bem como do seu redirecionamento para outras alternativas, dentre as quais a pecuária e a agricultura de maior porte, cujas necessidades, até então, vinham sendo supridas pela incipiente agricultura local de subsistência e pequenas criações e, em maior escala, pelas importações.

Por outro lado, o mercado europeu vinha se tornando cada vez mais receptivo à importação de produtos brasileiros - via Metrópole - como fumo, algodão e, sobretudo, os derivados da cana-de-açúcar.

Antecipando-se, o Conselho Ultramarino Português decidiu estabelecer uma nova política para sua mais importante Colônia, visando à diversificação de sua produção.

Parece oportuno ressaltar que o potencial mineiro em terras agricultáveis era incalculável.

Entretanto, face aos propósitos do presente Ensaio iremos limitar nossas considerações às excelentes áreas meridionais daquela Capitania e às setentrionais da Capitania do Rio de Janeiro, compreendidas no Médio Inferior Valle do Parahyba.

Naquele início de fase, apesar da expectativa de grandes mutações e readaptações, tudo fazia crer que o vetusto Caminho Novo poderia continuar mantendo-se, ainda por algum tempo mais, na condição de Caminho Geral de Minas Gerais, como rota exclusiva entre o "hinterland mineiro" e a sede do Vice-Reino que, cerca de dez anos atrás, havia sido instalada no Rio de Janeiro.

Outra vez o TPCP, mesmo não sendo um pólo produtor, poderia continuar usufruindo as vantagens que o Atalho seria capaz de propiciar, tendo em vista a privilegiada posição que ocupava.

E, justamente, essa conjuntura é que iria condicionar o processo de evolução da micro-região que estamos analisando.

Para melhor compreensão dessa fase de transformações e reajustes - que principiava naquela época e se estenderia até o final do Século em curso - decidimos que, antes de darmos prosseguimento a esta narrativa, deveríamos realizar um levantamento geral sobre a situação reinante nas terras pré-petropolitanas e nas suas áreas adjacentes.

É indiscutível que o "Distrito Serra-Acima de Inhomirim" já gozava de uma identidade específica que o diferenciava das - circunvizinhas - "terras da Baixada", "terras do Alferes", "terras da Parahyba" e os "sertões desabitados do nascente".

Contudo, não se registrara, até então, qualquer indício da existência de núcleos efetivos de povoamento, nem mesmo em processos de formação mais significativos, notando-se que os habitantes locais se encontravam esparsamente distribuídos pelas suas distantes áreas de trabalho e moradia.

A fim de que se pudesse bem avaliar o contingente humano que habitava o Distrito Serra-Acima de Inhomirim, tivemos que nos basear nas avaliações feitas pelo Bispado do Rio de Janeiro - com base nos dados obtidos através dos levantamentos visando à criação de Divisões e Subdivisões Eclesiais da Diocese - cujas conclusões, em virtude de, ainda, não ter sido atingido o número mínimo de "fregueses" estabelecidos na área, não recomendavam, até mesmo, a criação de um simples Curato.

Com vistas aos aspectos sócio-religiosos, apenas, registravam-se interações eventuais dos moradores locais, em torno das três "igrejinhas" existentes, sendo que somente as duas primeiras, abaixo citadas, foram "facultadas ao uso da Pia Batismal" e que a terceira delas seria pouca coisa mais do que um simples Oratório:

N. Sra.. do Amor de Deus, na Fazenda Rio da Cidade;
N. Sra. da Conceição da Lapa, na Roça do Secretário; e
N. Sra do Carmo, nas "terras de Magé".

Quanto aos aspectos jurídicos, o TPCP, situado no termo da Comarca do Rio de Janeiro, passava por um período de relativa calma, pois as pendências locais - lindeiras na quase totalidade - haviam sido substancialmente equacionadas, após a "Grande Medição Judicial de 1762". (1)

(1) - Fontes Pictográficas, Ref. 6.
6. "Croqui Topográfico da Grande Medição Judicial, de 1762, das Terras Pré-Petropolitanas", Petipé: 1 légua. Original no Arquivo da Companhia Imobiliária de Petrópolis.


Com respeito à economia local, verificamos que suas atividades básicas restringiam-se ao setor rural através da agricultura de subsistência, roças de apoio e pequenas criações, as quais não passavam do nível de pequeno porte. Outra fonte de renda era proveniente do Atalho, o qual, em todo seu percurso, era servido por pousos - ranchos, instalações para pernoite, casas de pasto, vendas e demais facilidades - que ofereciam satisfatório atendimento às tropas e demais viajantes. Os melhores pousos pré-petropolitanos localizavam-se nas Fazendas Tamaraty, Manoel Correa e Secretário. Outros pousos mais simples funcionavam na "roça do meio-da-serra", na "paragem do Córrego Secco", no "Sumidouro de Magé", no "sítio do Pedro Martins", no "Pegado" e, em escala bem menor, nas demais roças.

Quanto aos aspectos viários, o TPCP detinha o privilégio de ser cortado pelo Caminho Geral de Minas Gerais que, ao longo dos tempos, fora substancialmente melhorado pela abertura do Atalho e, posteriormente, pela Variante do Atalho.

Ademais, outras vias - não homologadas, mas toleradas - foram abertas, a fim de prover ligações vicinais com localidades mais afastadas. Sobre tais vias - que mal chegavam a merecer a classificação de picadas - iremos apreciar apenas as mais significativas:

Caminho do Sardoal - desenvolvendo-se pelas vertentes do Rio Fagundes, nos setores compreendidos pelas "terras do Médio Sardoal e Alto Sardoal", tinha sua origem na Roça do Secretário e finalizava nas "terras que foram do Marcos de Costa", junto às nascentes do "Rio Grande chamado Fagundes". Em épocas mais remotas, o embrião dessa precária vereda, vez por outra citada como "caminho da Boa Vista", promovera a ligação da Roça do Alferes com a Roça do Secretário. Ela passou por significativos melhoramentos na Década 50 que foram os responsáveis pela corrida verificada a partir de 1758, para obtenção de novas terras na Faixa de Sobrequadras Oeste do Atalho. No seu final, o Caminho do Sardoal se entroncava ao "atalho para Paty do Alferes";

Atalho do Caminho do Couto ao de Inhomirim - esse atalho fora alinhavado no final da Década de 20 pelo Mestre de Campo Estevão Pinto e proscrito, logo depois - por volta de 1733 - face às injunções efetuadas por Bernardo Soares de Proença. Ele originava-se na Roça de Alferes e buscava o TPCP através das "terras que foram do Marcos da Costa", situadas nas nascentes dos Rios Fagundes e da Cidade; (2)

(2) - Fontes Documentais, Ref. 23. 
23. Requerimento de [1733], do Capitão-Mor Bernardo Soares de Proença, dirigido a SMR de Portugal, "solicitando medidas para interrupção das obras de um novo caminho pela Serra do Mar que, à revelia do Governador, estava sendo aberto pelo Mestre de Campo Estevão Pinto". Arquivo Nacional, AHUL 7.832.


Atalho do Caminho do Sardoal - ligava o Caminho do Sardoal ao Caminho da Taquara, cruzando as Sesmarias dos Martins (1762) e Távora / Vellasco (1728). A via em pauta constou em croquis e em diversas escrituras da época como "caminho do Sardoal" (3) e em outros documentos, simplesmente como "atalho". Ademais, alguns historiógrafos o cognominaram de "Caminho da Taquara". Entendemos que tais nomenclaturas advieram, por extensão, aos nomes das duas vias às quais ele se interligava e o tratamento específico adotado partia do ponto de vista daqueles que os citavam. Porém, julgamos mais apropriado o título conceitual de "Atalho do Caminho do Sardoal", procurando manter uma certa coerência com as fontes primárias pertinentes;

(3) - Fontes Documentais, Ref. 29 e Fontes Pictoriais, Ref. 6. 
29 Coletânea de cópias de Escrituras referentes à propriedades do "Atalho do Caminho do Sardoal, existentes no Arquivo da Companhia Imobiliária de Petrópolis. 3º 
6. "Croqui Topográfico da Grande Medição Judicial, de 1762, das Terras Pré-Petropolitanas", Petipé: 1 légua. Original no Arquivo da Companhia Imobiliária de Petrópolis.


Caminho da Taquara - situado, em sua maior parte, fora das terras pré-petropolitanas, ele ligava o Atalho do Caminho do Sardoal ao Atalho - de B. S. de Proença - nas proximidades do Porto de Estrella.Tinha início na Baixada, no ponto onde a vereda que interligava as sedes das Freguesias de N. Sra. do Pillar do Iguassu e de N. Sra. da Piedade de Inhomirim cruzava o Rio Taquara. A partir daí, subia pelas vertentes favoráveis do rio em tela, existentes no flanco oeste da Serra da Taquara - integrada pelos morros Caititu, Três Irmãos, Macacos e Pedra do Rolador - e chegava ao Setor Sudeste da Sesmaria Távora / Vellasco, ou seja, ao "embrião da Fazenda Quitandinha".

Ao longo desse segmento - Caminho da Taquara, Atalho do Caminho do Sardoal e Caminho do Sardoal - desenvolveu-se um significativo tráfego alternativo de cargas de menor valor, na maior parte provenientes das áreas a oeste do TPCP, evitando, assim, os elevados custos inerentes a um Caminho Geral.

Não tardaram a surgir ramificações dessa rota:

no segmento constituído pelo Atalho do Caminho do Sardoal, foram abertas duas precárias ligações diretas com o Atalho, sendo uma pelo Valle do Rio da Cidade e outra pelo Valle do Rio Araras; e

no segmento do Caminho do Sardoal, foram abertas, pelo menos, duas vias vicinais, em direção às "terras pré-parahybanas".

A partir da Variante do Atalho pelo Piabanha, também, estavam surgindo "embriões de caminhos vicinais":

vereda de acesso para a Fazenda Santo Antonio que se desenvolvia pela subida do Rio Magé (Santo Antonio);

"embrião do caminho da Fazenda da Área de Noé" que promovia acesso à Sesmaria Goulão (1760);

vereda de acesso aos "sertões do Taboão";

vereda pela margem direita do Piabanha, a partir da "ponte do Pedro Martins" que promovia acesso às áreas ribeirinhas do Piabanha, tais como a Sesmaria de Joaquim José Pegado (1758) e a Sesmaria de Caetano Manoel da Motta Ferraz (1741);

vereda pela margem esquerda do Rio Piabanha sobre a Serra do Cedro, que buscava o acesso às Sesmarias a montante do "cânion da Jacuba"; e

vereda que ligava a "paragem do Sumidouro" à "paragem do Brejal", através da crista da Serra do Taquaril, pela qual estava sendo tentado o acesso ao Apêndice Nordeste.

Estamos certos de que este sucinto levantamento a respeito da situação do TPCP, no limiar da nova fase que estava por iniciar, poderá facilitar a compreensão da importante matéria sobre a qual discorreremos neste Capítulo.

Na segunda metade da Década de 70 ocorreu uma bastante significativa série de fatos que poderia ser entendida como a pá-de-cal nas pendências lindeiras locais.

Na Década de 80 o limite entre as fazendas Tamaraty e Córrego Secco foi consolidado no rumo de praxe ENE (067,5º v), concorrendo assim para que todas as demais propriedades, contíguas pelo oeste e pelo sul, fossem reajustadas segundo este referencial. (4)

(4) - De acordo com os critérios confirmados pela “Grande Medição Judicial de 1762”.


O complemento da Quadra Muniz / Manoel Correa Goularte - a Fazenda Santo Antonio - que a Suprema Casa da Supplicação havia homologado em favor de Antonio da Silveira Goularte foi definitivamente confirmada para Manoel Correa da Silva.

O enclave da Fazenda da Ponte, na Sesmaria Magé, foi legitimado para Domingos Rodrigues da Rocha, provavelmente com base na norma jurídica do uti possidetis facti.

Parece, ainda, caber a observação de que a problemática questão da linha divisória entre a Sesmaria Rio da Cidade / Paciência e a Sesmaria Muniz / Manoel Correa - fixada pelo Piabanha na "Convenção dos Anos 40", acordo esse derrubado pela "Grande Medição Judicial de 1762" - não mais teria sentido, devido à fusão dos patrimônios dos Goulão e dos Correa da Silva, ocorrida em 1770.

Certamente, em vista da estabilização alcançada naquela conflitante área, as grandes mutações esperadas para as décadas seguintes poderiam ser processadas com grande tranqüilidade.

Os Testamentos de Manoel Correa da Silva e de Domingos Rodrigues da Rocha, assinados respectivamente em 1779 e 1781, puderam ser organizados sem quaisquer tipos de pendências, dúvidas ou pressões. Além disso, tais documentos constituíram valiosas fontes para o esclarecimento das origens, natureza e outros importantes aspectos, ainda obscuros, relativos às áreas e propriedades em tela.

Determinados pontos do testamento de Manoel Correa da Silva (5) merecem ser analisados com muita atenção e por isso selecionamos os seguintes trechos:

(5) - Fontes Bibliográficas, referência 50, pág. 84
 50. SCHAETTE, Fr. Estanislau. "Fazendas e Fazendeiros de Serra Acima", in "Anuário do Museu Imperial - 1948", Petrópolis, pg. 77 a 90.


"Não houve herança e o que possuo é pelo meu suor";

"Não declaro meus bens porque meus testamenteiros bem os conhecem";

"Peço e rogo a minha mulher que haja de aceitar o meu testamento";

"Declaro que tenho dois filhos, Luiz, Opositor em Coimbra e Agostinho, Bacharel formado em Lisboa, aos quais tenho assistido e estou assistindo com todas as despesas, até a presente hora quatorze mil cruzados. Não é minha intenção que estes dois prejudiquem os outros irmãos, mas resolvam tudo amigavelmente, em paz e harmonia";

"Declaro que a meu filho Antonio tenho feito o seu patrimônio em terras da Fazenda Rio da Cidade"; e

"Às outras filhas Maria e Archangela, dei de dote de casamento cinco mil cruzados a cada uma e guardo os recibos".

Podemos, claramente, verificar que ele nada especificou de forma incisiva quanto ao destino a ser dado ao patrimônio do casal. Apenas alertou sobre determinados pontos julgados importantes para organização, segundo ele, de uma partilha justa e consensual, deixando essa prerrogativa de decisão para a esposa, com a participação dos filhos.

Manoel Correa da Silva não foi apenas um excepcional chefe de família. Foi, também, uma das mais ilustres personalidades pré-petropolitanas, senão a maior delas, pois, além de ser o competentíssimo fazendeiro que criou o maior patrimônio rural Serra-Acima, tornou-se um líder na região. Apesar de não ser formado em Direito, atuou - na qualidade de "Prático" - em todas as questões particulares respeitantes a ele e, também, em outras relativas a simples posseiros e lavradores da área.

Manoel Correa da Silva morreu em 1784 e esta sintética nota biográfica visa a resgatar uma memória que permaneceu oculta por tanto tempo, ao que parece ofuscada pela também magnífica atuação do filho, Pe. Correa, que brilhou na administração da fazenda que herdara e aperfeiçoara, mas que já era famosa desde meados do Terceiro Quartel do Século XVIII.

Porém nos quatro últimos anos de vida, M. Correa foi direcionando cada um de seus filhos para os setores da imensa propriedade que imaginara lhes caber na Partilha.

Conforme fora especificado, taxativamente, no Testamento em tela, a Fazenda Rio da Cidade coube, por doação em vida, ao Pe. Antonio de Aquino Correa da Silva Goulão, propriedade essa onde a Capella de N. Sra. do Amor de Deus, desde algum tempo atrás, vinha sendo assistida por tal sacerdote.

Concomitantemente, o Pe. Correa vinha auxiliando seu pai na administração da Fazenda Manoel Correa, que também lhe seria legada.

Ao Dr. Agostinho Ignácio Correa da Silva Goulão coube a administração da Fazenda Sto. Antonio, fundada por Antonio da Silveira Goularte por volta de 1760, propriedade à qual iria dar grande impulso, ainda, antes do final do Século. (6)

(6) - A concessão da Sesmaria ocorreu em 1760, porém Frei E. Schaette encontrou nos “Assentos Religiosos de Serra-Acima” referências à presença, por volta de 1757, de Goularte na área como fazendeiro local.


Apesar de ter constado no Testamento que, apenas, caberia às suas duas filhas uma quantia em dinheiro, verificamos que elas também foram direcionadas para áreas específicas.

O casal Pedro Gonçalves Dias e D. Brígida Maria Gonçalves Dias Correa da Silva Goulão, a partir de 1781, foi direcionado para a parte sul da Sesmaria Muniz / Manoel Correa, situada na "paragem da samambaia", onde muito cedo iniciaram a construção de uma confortável residência e ampliaram consideravelmente as roças que já existiam nas cercanias.

Presume-se que, também, a Sesmaria Goulão - no Valle do Rio Carvão - tenha sido selecionada para D. Maria Brígida. De concreto, sabemos apenas que bem mais tarde essa data iria pertencer a D. Brígida Maria da Cunha Fragoso Gonçalves Dias Correa da Silva Goulão, casada com José da Cunha Fragoso, uma filha da supracitada herdeira.

A filha D. Archangela Joachina da Cunha Barbosa Correa da Silva Goulão, casada com o abastado comerciante José da Cunha Barbosa, parece ter sido direcionada para uma área menor, adjacente ao Rio Piabanha, que se estendia entre as Barras dos Rios da Grota Funda e da Cidade.

Devemos ressaltar que um outro Testamento, organizado pelo sesmeiro Domingos da Rocha em 1781, trouxe grandes revelações e esclarecimentos sobre a Sesmaria Araras e a Fazenda da Ponte, ficando comprovado que ambas tiveram suas origens na discutida área que Nicolau Viegas de Proença lhe vendera em torno de 1738, abrangendo a Sesmaria Araras e uma área contígua àquela data que se estendia pela margem direita do Piabanha.

Voltando a atenção para a Banda Oeste do Atalho, verificamos que, ali, ocorreram algumas significativas alterações patrimoniais. Em 1782, Miguel Correa Pestana e seu filho Luiz da Costa Correa adquiriram a Fazenda Vellasco e, em seguida, a Fazenda Morro Queimado que resultara do desmembramento de parte sul da Sesmaria dos Martins.

Retornando à Banda Leste, registrou-se o falecimento de Manoel Correa da Silva, ocorrido em 1784, sendo que todo o patrimônio do casal passou para o domínio da viúva D. Brittes Maria Correa da Silva de Ascenção Goulão que acatou todos os procedimentos sugeridos pelo marido em seu Testamento.

Em 1785 faleceu Domingos Rodrigues da Rocha. Conforme prescrevia seu Testamento, a metade da Sesmaria Araras e a Fazenda da Ponte couberam ao sobrinho Manoel José Gomes de Lima, residente em Portugal. A outra metade da Sesmaria Araras foi legada para vinte escravos seus que já haviam sido alforriados, os quais foram contemplados com um auxílio pecuniário para explorar suas roças.

Pela Portaria de 9.X.1786 foi criada a Freguesia do Santíssimo Sacramento de Cantagallo. Entretanto, não ficou devidamente definido o seu limite oeste, referido vagamente como sendo a Freguesia de N. Sra. da Conceição de São Pedro e São Paulo da Parahyba, ficando omitida sua óbvia confrontação com a Freguesia de N. Sra. da Piedade de Magepe. Tal indefinição, no dizer de Monsenhor Pizzarro, decorria do desconhecimento topográfico das áreas onde deveriam se processar as divisórias dos termos em questão, "cujos encontros não se conhecem ainda, pelas dilatadíssimas distâncias de sertões incultos"

Próximo ao final da Década de 80, manifestou-se um súbito interesse pelas terras meridionais da Faixa de Sobrequadras Oeste do Atalho, o qual entendemos ter sido motivado pelos melhoramentos que Malta realizara no Caminho da Taquara, nos anos anteriores.

O grande fazendeiro da Baixada Manoel Gonçalves Malta faleceu, em torno de 1788, tendo o seu Formal de Partilha sido executado em 1789. A Fazenda Quitandinha coube à filha Angélica Valleriano e a seu marido Francisco Dias Chagas, de quem estava se divorciando. Naquela ocasião, o co-herdeiro Dias Chagas comprou a parte de D.Angélica, tornando-se o único dono da propriedade.

Em 1789 Ambrósio de Souza Coutinho comprou as Fazendas Vellasco e Morro Queimado que, juntas, perfaziam uma área com 3.400 braças de testada por 3.000 braças de fundos.

Pela Ordem Régia de 9.VI.1789, foi criada a Villa de Magé. Os seus limites, estipulados pela Provisão de 12.VI.1779 da Ouvidoria do Rio de Janeiro, foram definidos de maneira bastante confusa no documento original:

"Quando da costa do mar, pelo Rio Guapi-Mirim desde sua primeira e mais volumosa vertente até sua barra, ficando pertencente a esta dita Nova Villa de Magepe todo o terreno ocidental e, à Villa de Santo Antônio de Sá o oriental e correndo da sobredita barra do Rio Guapi-Mirim a costa de oeste até o Inhomirim, subindo por ele até a sua primeira cachoeira na serra, e desta passando ao alto em rumo direito à vertente do Rio Secco que deságua no do Piabanha , e por ele abaixo até onde convier, ficando pertencente a esta dita Nova Villa, todo o terreno oriental e à Cidade do Rio de Janeiro, o ocidental; quanto pelo sertão, correndo a divisão por Guapi-Mirim em todo seu comprimento, continue a divisão dos seus sertões, passando da sua maior vertente uma linha imaginária até acima da serra de Inhomirim, no ponto onde nasce o Rio Paquequer e por este abaixo até o encontro que possa ter com outro qualquer rio de maior volume bem entendido que tudo que ficar para a parte esquerda da Estrada que há na serra pertencente à fazenda denominada do Paquequer, ficará pertencendo ao terreno desta Nova Villa, tanto que lhe fica mais perto e por isso é pertencente á freguesia desta Villa , quanto porque nem para a Villa de Santo Antônio de Sá tem estrada para poder recorrer nos casos precisos"

Para um melhor entendimento, o autor parafraseou o supracitado texto na seguinte forma:

pelo sul, a orla da Baía de Guanabara entre os Rios Guapi-Mirim (até então chamado de Aguapeí-Mirim) e Inhomirim;

pelo leste, o alinhamento dos Rios Guapi-Mirim e Paquequer Pequeno, até a confluência deste último no Rio Preto;

pelo norte, o Rio Preto, até sua confluência no Piabanha; e

pelo oeste o alinhamento dos Rios Inhomirim, Secco, Quitandinha e Piabanha.

Entretanto, os limites fixados não se harmonizaram com aqueles adotados nas subdivisões das Freguesias limítrofes. Caso o limite oeste - "limite oriental" - fosse aplicado ao pé-da-letra, pelo alinhamento dos Rios Inhomirim, Secco e Piabanha, a sede da Freguesia de N. Sra. da Piedade de Inhomirim iria ficar dividida ao meio, o mesmo ocorrendo no seu Distrito Serra-Acima.

Para muitas propriedades do TPCP, a fixação dos limites através desse critério era inaceitável, pois teria cada uma de suas metades vinculada a dois termos diferentes.

Em face desse Ato mal formulado, advieram desarmonias e conflitos no que tangia aos Setores Administrativo, Jurídico, Eclesiástico e Político. Por isso, tais limites jamais seriam observados plenamente.

Cabe esclarecer que, logicamente, os limites do Distrito Serra-Acima de Inhomirim teriam de ser fixados segundo os limites naturais constituídos pelos sinclinais formadores do Valle do Piabanha e, assim, era entendido por muitos.

No decurso da Década de 90, tendo sido confirmados todos os prognósticos, o TPCP passou a dispor das condições essenciais para sua ocupação plena.

A súbita corrida para posse e regularização das terras entre Parahyba e Três Barras, bem como a manifestação do interesse pelas terras das proximidades da Barra do Rio Preto - Sesmarias de Diogo Manoel do Nascimento (1791), José da Costa Barbosa (1792) e de Silvestre Gomes da Silva (1793) - prenunciavam algo muito importante que estaria por acontecer.

De imediato, podemos concluir que o "temor aos índios brabos" já não mais existia e o caminho estava livre para a conquista das terras do Baixo Valle do Piabanha.

No que se refere à Banda Oeste do Atalho, também se delineava uma expectativa positiva. Em 1794, Ambrósio de Souza Coutinho, o mesmo que em 1789 comprara a Fazenda Vellasco e a Fazenda Morro Queimado, entrou em negociações com Francisco Dias Chagas, visando à compra da Fazenda Quitandinha. A efetivação dessa transação foi demorada e teve de ser realizada em duas etapas. A primeira delas, referente à parte norte dessa data, foi mais fácil porque ela já estava regularizada em nome do vendedor desde 1789. Quanto à parte sul, foi necessário aguardar o término do processo de divórcio e do processo da compra que Dias Chagas fizera à sua ex-esposa, cuja competente Escritura foi lavrada em 1796.

Com essa aquisição, Ambrosio de Souza Coutinho tornou-se o maior proprietário daquelas cercanias, ocupando uma grande extensão da Faixa de Sobrequadras Oeste do Atalho, com 4.700 braças de testada por 3.000 de fundos, o que perfazia uma área com cerca de 14.100.000 braças quadradas.

Essas fazendas em série - Quitandinha, Vellasco e Morro Queimado - eram servidas pelo Atalho do Caminho do Sardoal, o que lhes conferia um valor adicional.

Abrindo um parêntese e voltando os olhos para uma atividade econômica bastante promissora que começava a despontar na Capitania do Rio de Janeiro, parece oportuno enfatizar que, por volta de 1795, já tinham sido confirmados resultados positivos sobre a cultura do café no Valle do Ribeirão das Lages e no Valle do Rio Pirahy, a qual, chegando até o Rio Parahyba, passou a progredir vertiginosamente pelas terras ribeirinhas, nas duas direções - montante e jusante - do predestinado rio.

Para os usuários e pretendentes das férteis áreas ribeirinhas mineiras e fluminenses do Médio Inferior Valle do Parahyba, a progressão para o leste era muito animadora. Nesse contexto, certamente estariam incluídas as terras adjacentes ao Rio Piabanha em seu Baixo Curso. E isso era realmente auspicioso para o Apêndice Nordeste do TPCP, abrindo caminho para a sua conquista, pois já não mais existiam "índios brabos nas três barras" e, finalmente, surgira a possibilidade de um incentivo econômico.

Outro fator que iria contribuir para a viabilização da ocupação das férteis terras do Valle do Rio Preto partiu da iniciativa do Bacharel Francisco Nunes Pereira, ao construir o "caminho novo que da parte do sul se ligava à Parahyba e no outro. (7)

(7) - Carta de Sesmaria de 24.VI.1804, confirmada em 3.VI.1805, em nome de Ana Delfina de Montes, cuja localização citava: “Nas margens do Parahyba em Serra Acima, da parte do Nascente, indo e seguindo para o rio, pelo Caminho Novo que abriu o Bacharel Francisco Nunes para a sua Fazenda do Rio Preto, atravessando-se este e seguindo para o dito rio da Parahyba (sic)”.


Esse pioneiro teria chegado às cercanias do Rio Preto em meados da Década de 90, a fim de instalar e explorar as duas Quadras Padrão que lhe foram outorgadas pela Carta de Sesmaria de 25.VIII.1795 e confirmadas por SMR a 26.XI.1795, devendo ser locadas pela Banda Direita do Rio Preto, contiguamente, pelo oeste, à Sesmaria de Germano Luiz Lisboa (1787).

A supracitada via, nada mais era do que o primeiro desenvolvimento do "embrião do Caminho de Mar de Espanha", no segmento do Piabanha até a "Passagem, ou Porto, de Mar de Espanha". Para que não sujam dúvidas, alertamos para o fato de que outra rota, também conhecida por "Mar de Espanha" seria aberta mais tarde, ligando a rota de Cantagallo ao Porto de Mar de Espanha.

No ano de 1797 irrompeu a corrida para ocupação efetiva do Valle do Rio Preto, sendo outorgadas, ali, as seguintes Sesmarias:

José Correa Rangel de Bulhões (1797);

Lourenço de Souza (1797);

Damaso Moreira de Carvalho (1797);

Bento José de Magalhães Bastos (1797);

José de Souza Santos (1797);

Joaquim da Silva Marques (1797);

Joaquim de Souza Meireles (1797);

Francisco Xavier da Cruz (1798);

João Pinto Coelho (1798); e

José Álvares Bastos (1799).

Essas dez Sesmarias, juntamente com a de Francisco Nunes Pereira (1795) e as demais que viriam ser outorgadas poucos anos depois preencheram, praticamente, todo o Valle do Rio Preto.

A partir daí, podemos admitir que o TPCP estava em vias de ser plenamente ocupado e explorado.

No entanto, mister se faz deixar bem claro que as causas desse fenômeno foram absolutamente exógenas, e que o Apêndice Nordeste foi gerado e desenvolvido segundo influências muito específicas, que nada tiveram a ver com a "inequívoca identidade reinante nas terras do Atalho".

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