Ensaio entregue pelo autor a 20/01/2006 para inclusão no site, dividido em partes conforme melhor fosse.

PETRÓPOLIS - A SAGA DE UM CAMINHO (3)
Gênese e Evolução do Território Petropolitano

Carlos Oliveira Fróes

Capítulos 2 e  3

Capítulo 2
A Variante do Caminho Novo por Inhomirim

Dentre as inúmeras medidas desencadeadas pelo recém-chegado Governador e Capitão-General Ayres de Saldanha - as quais no dizer de Capistrano de Abreu, poderiam ser consideradas "antipaulistas" - estava prevista a efetivação da ligação direta - já tentada, mas não consumada - entre o Pólo Aurífero e o Porto do Rio de Janeiro, através da abertura de uma variante capaz de eliminar os problemas relativos ao inadequado segmento final do Caminho Novo, pela Serra do Couto.

Como já tivemos ocasião de comentar, as enormes deficiências desse Caminho Geral, existentes nos trechos da Serra do Couto e da Baixada, fizeram com que fosse protelada a sua habilitação de fato, como rota exclusiva do ouro proveniente da Capitania de Minas Gerais com destino ao Porto do Rio de Janeiro e das valiosas cargas de retorno, constituídas pelas vultosas importações procedentes da Metrópole.

Os preparativos para abertura de uma variante, prevista para eliminar o trecho inaceitável, foram iniciados logo após a chegada ao Brasil do novo Governador e Capitão-General Ayres de Saldanha.

Ocupava posição proeminente em seu staff o Secretário de Governo José Ferreira da Fonte que se tornaria a “mola mestra” de sua administração, com decisiva participação nas questões relativas à pretendida variante. (1)

(1) - José Ferreira da Fonte ocupou e explorou a “pioneira Roça do Secretário” e liderou os movimentos para construção da Variante pelo Piabanha, fatos esses que atestam sua forte influência no processo de abertura, consolidação e aperfeiçoamento do Atalho.


Preliminarmente, foram efetuados contactos com Garcia Rodrigues Paes para que ele se encarregasse da execução da referida obra, como se aquilo fosse, apenas, "uma complementação das obras do Caminho Novo".

Conforme podemos depreender, através da documentação pertinente, que foi por nós minuciosamente analisada, o competente e abnegado realizador do Caminho Novo estava, realmente, sendo compelido a assumir a tarefa de "concluir a obra que não teria terminado", critério esse totalmente injusto e infundado, fruto da crítica passional e desconhecimento de causa por parte dos dirigentes de então, sobre fatos ocorridos quase há quinze anos antes. (2)

(2) - Refs. 13, 14 e 15 das Fontes Documentais:
13. - Portaria de 11.VI.1723, do Governador e Capitão-General da Capitania do Rio de Janeiro, D. Ayres de Saldanha de Albuquerque Coutinho Mattos de Noronha - Ato de Designação do Sargento-Mor Bernardo Soares de Proença "para projetar a rota de um caminho entre a Serra do Frade e a da Taucaya Grande com destino à Parahyba". Arquivo Nacional, AHUL 7.833.
14. - Carta de 11.X.1724, do Governador e Capitão-General da Capitania do Rio de Janeiro, D. Ayres de Saldanha de Albuquerque Coutinho Mattos de Noronha, a SMR de Portugal, informando, além de outros fatos, que "o caminho aberto por Bernardo Soares de Proença já estava pronto, ficando quatro dias mais breve que o da Serra do Mar".
15. - Provisão Régia de 6.VII.1725, de SMR de Portugal ao Governador e Capitão-General da Capitania do Rio de Janeiro, D. Ayres de Saldanha de Albuquerque Coutinho Mattos de Noronha, em resposta à informação supra, "homologando todas as decisões e medidas tomadas pelo Governador, relativas ao caminho aberto por Bernardo Soares de Proença, determinando, que seus agradecimentos fossem apresentados ao construtor".


Garcia Rodrigues Paes não pôde aceitar a obrigação que lhe foi imposta, sob alegação de que sua avançada idade, doenças e falta absoluta de recursos o impediam de assumir a responsabilidade para execução de tão vultoso empreendimento. E isso era uma situação irrefutável.

Desses contactos, surgiu uma questão paralela, decorrente da preocupação do velho sertanista com relação à posse de suas terras do Caminho Novo, entre os Rios Parahyba e Parahybuna, que lhe foram outorgadas, cerca de dez anos atrás como recompensa, tendo em vista que as mesmas ainda não estavam perfeitamente regularizadas.

Vejamos os Atos em que se baseava Garcia Rodrigues Paes para fundamentar suas reclamações:

Portaria Real de 20.IV.1708 - "Tendo D.João V em consideração aos serviços prestados por Fernão Dias Paes (sic), lhe fez mercê de uma villa na Parahyba"; e

Carta Régia de 14.VIII.1711 - "D.João V ordena ao Governador do Rio de Janeiro, Francisco de Castro e Morais, que dê posse a Garcia Rodrigues Paes e a seus doze filhos de uma data de terras com a natureza de Sesmaria, que compreenda o mesmo número de léguas, como se houvessem de dar repartidas a quatro pessoas, em recompensa pelos serviços prestados na abertura do Caminho do Rio de Janeiro os Campos Gerais e Minas".

Esse legítimo pleito deu origem a uma série de juízos desencontrados que muito abalaram - injustamente - sua reputação.

O que realmente Garcia Rodrigues Paes pretendia não era obter novas terras, mas sim assegurar a posse definitiva das datas que legitimamente vinha ocupando há quase duas décadas. Previa ele que, ante os esperados melhoramentos, suas terras ficariam altamente vulneráveis à cobiça de outros pretendentes, animados pelas perspectivas de um enorme aumento do tráfego de cargas valiosas que a nova variante iria proporcionar.

O próprio Ex-Governador do Rio de Janeiro, Francisco de Castro e Morais, foi um daqueles interessados nas supracitadas terras, chegando a ser indevidamente contemplado pela Carta Régia de 14.VIII.1721 - logo depois anulada - que lhe outorgava uma gigantesca Sesmaria que se estendia da "Serra dos Órgãos até à saída dos Campos Gerais", onde evidentemente estavam incluídas as datas de Garcia Rodrigues Paes.

Ressaltamos que tal situação era preocupante para o velho sertanista, porém adiantamos que seus legítimos direitos estariam devidamente assegurados três anos mais tarde.

Na realidade, o que estava pretendendo Castro Morais era se apossar de todas as terras adjacentes à projetada variante, na área "serra-acima" do Rio de Janeiro.

A idéia de ligação do Caminho Novo à Baia de Guanabara através do Rio Inhomirim já era bem antiga. Presume-se que já tivesse sido cogitada em l698, em l703 e, novamente, na fase em pauta. Certamente, já fora aventado que seu desenvolvimento mais conveniente deveria ser pelo trecho serrano, através da Bacia do Piabanha,

A prova cabal dessa última assertiva está contida em dois, absolutamente confiáveis, documentos forais.

Pelas Cartas de Sesmaria expedidas em 11.VI.1721, o Governador Ayres de Saldanha concedeu uma Quadra-Padrão ao Sargento-Mor Bernardo Soares de Proença e outra ao Sargento-Mor Luiz Peixoto da Silva, as quais deveriam ser seqüencialmente locadas, "por detrás da Serra do Frade e da Serra da Taucaya Grande, além das terras da Sesmaria de Francisco de Mattos Filgueiras e João de Mattos de Souza".

Alertamos para o detalhe que nesses dois Forais, constava a menção de que tais datas deveriam ser instaladas ao longo da projetada variante.

A outorga dessas duas Quadras - indiscutivelmente as duas primeiras da Micro-Região da Bacia do Piabanha - foi o passo inicial para a efetiva ocupação das "terras serra-acima de Inhomirim", até então vagamente citadas como "terras por trás da Serra dos Órgãos" ou simplesmente "serra-acima".

Bernardo de Proença, valendo-se das trilhas indígenas existentes - em nheêngatu "pypora" ou "peabiru" - e das precárias veredas que ligavam a Freguesia de Inhomirim à Sesmaria dos Mattos - cujo limite sul corria pelo sopé da Serra do Mar - incumbiu-se da abertura de uma picada de acesso para sua data, bem como de uma ligação da mesma com a propriedade de Luiz Peixoto da Silva, vias essas que já poderiam ser consideradas como parte do "embrião da Variante do Caminho Novo por Inhomirim".

Os trabalhos preliminares realizados nessas datas, visando à demarcação, à implantação das sedes provisórias e, também, à melhoria das picadas de acesso, deveriam estender-se até meados de 1723.

Constavam, ainda, embutidas nos respectivos Forais, determinações para que cada um dos outorgados orientasse a locação de sua Sesmaria "pelo mesmo rumo do Caminho Geral que se há de abrir do Parahyba a vir buscar as saídas das quebradas da dita Serra do Frade, para que, assim fique dividindo o dito Caminho Geral pelo meio a dita légua de Terra em Quadra (sic)".

Em virtude de tamanhas evidências, fica óbvio que, para execução das supracitadas tarefas preliminares, seria imprescindível dispor-se de uma estimativa sobre o provável trajeto dessa variante, que deveria se desenvolver no trecho entre a "Freguesia da Santa Virgem e São Pedro e São Paulo da Parahyba" e o "alto da Serra do Mar".

Por tais razões, não resta a menor dúvida que a via em pauta foi decidida e planejada bem antes do final de 1721 e, uma vez frustradas as injunções feitas junto a Garcia Rodrigues Paes, a sua execução foi confiada ao Sargento-Mor Bernardo Soares de Proença que se apresentara como candidato.

Segundo os preceitos das "Ordenações Filipinas", os Caminhos Gerais - mesmo sendo do interesse do Governo Geral - deveriam ser abertos e mantidos pelos concessionários das Sesmarias outorgadas ao longo dos seus trajetos.

Vejamos como foram ocupadas - ainda que por antecipação - as duas primeiras datas Serra-Acima, na variante do Caminho Novo pelo Inhomirim.

A Quadra-Padrão (3) conferida a Bernardo Soares de Proença - Carta de Sesmaria de 11.VI.1721 - foi locada a partir do "alto da Serra do Mar", adiante do limite norte da pioneira Sesmaria dos Mattos (1686), e findava no ponto de confluência do Rio Tamaraty com o Rio Piabanha. Desde seu início, ela ficou conhecida como Sesmaria Tamaraty. Para demarcar sua propriedade, Bernardo Soares de Proença estabeleceu ao sul o Marco do Alto da Serra e ao norte o Marco do Tamaraty. (4)

(3) - Uma Quadra-Padrão era uma Sesmaria em forma de quadrado, com cada lado medindo uma légua portuguesa (6,6 km).
(4) - O Marco do Tamaraty consistia numa cruz entalhada em uma das três pedras chatas situadas - dentro da água - na confluência dos rios Tamaraty e Piabanha. Com o correr dos tempos, ele passou a ser conhecido como "Marco das Carrancas". E o Marco do Alto da Serra, situado ao lado do Atalho no alto da Serra do Mar, consistia numa cruz entalhada num bloco de pedra.


A Quadra-Padrão conferida a Luiz Peixoto da Silva - Carta de Sesmaria, também, de 11.VI.1721 - deveria ser instalada logo em seguida à de Bernardo de Proença, ficando dividida ao meio pelo eixo do pretendido Caminho Geral. Porém, devido às peculiaridades topográficas daquela área, teve o seu núcleo instalado mais adiante, nas cercanias da confluência de dois tributários do Rio Piabanha, logo depois, cognominados Rio da Cidade e Rio Araras.

Essas duas Sesmarias foram confirmadas por SMR, respectivamente, a 30.VII.1823 e 12.VII.1823.

Naquela altura, Bernardo de Proença já havia informado ao Governador sobre as providências por ele tomadas, inclusive os contactos que fizera com alguns moradores de Inhomirim, os quais se mostraram dispostos a colaborar nos trabalhos de abertura da variante.

E, certamente, manifestara estar pronto para iniciar as diligências com vistas à definição do traçado definitivo e à abertura da picada-base, a partir da Parahyba em direção à "várzea do Rio da Cidade".

No dia 11.VI.1723, o Governador Ayres de Saldanha baixou uma Portaria cujos trechos mais importantes serão citados a seguir:

na introdução - "por ter notícia que por entre a Serra do Frade e da Taucaya Grande se poderá fazer um caminho e passar a Parahyba para Minas Gerais e que por se atalhar muito será mais conveniente ao serviço de Sua Majestade e ao bem comum e dos viandantes das minas / e ser preciso avaliar com certeza a capacidade daquele sertão, cuja diligência só poderá bem fazer pela sua aptidão o Sargento-Mor Bernardo Soares de Proença"; 

e

na conclusão - "Ordeno àquele mesmo Sargento-Mor que vá àquele sertão fazer o referido exame, para cujo efeito mandará notificar seis homens capazes, com pena de prisão, para o acompanharem naquela diligência, da qual me dará conta finda que for".

Chamamos a atenção para o fato de que as informações desejadas pelo Governador e mencionadas na introdução dessa Portaria já eram conhecidas desde o final de 1821. Outrossim, estranhamos que, até então, não havia notícia alguma sobre a existência de uma específica determinação de SMR, levando a crer que a mesma teria sido repassada, ainda, em Portugal. Assim, tal documento seria a forma encontrada pelo Governador Ayres Saldanha para homologar - documentalmente - a abertura da variante.

Prontamente, Bernardo de Proença, fazendo-se acompanhar de experientes mateiros, escravos e índios civilizados, dirigiu-se para as Roças do Garcia Rodrigues Paes, pois ficara decidido que a variante a ser aberta, deveria partir da Parahyba. O ponto inicial escolhido sobre a rota original do Caminho Novo, distava cerca de meia légua de onde se processava o cruzamento do Rio Parahyba, local esse que pouco depois passaria a ser chamado de Encruzilhada, de onde era possível divisar a altaneira Pedra da Maria Comprida.

Com o emprego de uma bússola - agulha magnética - dotada com alidade de pínula, foi feita uma visada direta sobre a Pedra da Maria Comprida, registrando-se rumo SSE (167,5°v), o qual tinha como recíproca o rumo NNO (337,5°v).

Assim, ficou estipulado que a picada-base deveria ser orientada no eixo SSE (167,5º v), traçado no alinhamento Encruzilhada - Pedra da Maria Comprida - Rio da Cidade - Marco do Tamaraty. (5)

(5) - A confirmação de que esse eixo básico era o NNO (337,5°v) foi fundamentada nos termos da Carta constante da Ref. 26 das Fontes Documentais.
26. Carta de 13.I.1776, do Piloto Manno, endereçada a Manoel Correa da Silva: "relatando a reunião que os fazendeiros Francisco Muniz, Antonio de Proença, Manoel Antunes Goulão, Domingos Roiz, e Nicolau Viegas realizaram no Alto da Paciência para examinar o rumo melhor que corria o caminho nas terras do Rio da Cidade". Cópia no Arquivo da Companhia Imobiliária de Petrópolis.


No trecho restante que ia do Marco do Tamaraty até a "quebrada das Serras do Frade e Taucaya Grande" as tarefas de demarcação e abertura da "picada-base" já estavam prontas. Porém, o eixo inicial (SSE / NNO) não mais poderia ser mantido.

Os trabalhos de abertura da picada-base foram iniciados prontamente.

Logo de saída foi necessário promover um acentuado desvio para a esquerda do supracitado eixo, no intuito de evitar as serras do Cavarú e das Onças, em busca de melhor acesso ao Valle do Rio Grande (mais tarde Fagundes ou Sardoal).

Uma vez nas vertentes esquerdas do Rio Grande e após uma grande curva para o sul, as obras prosseguiram em busca de uma reaproximação ao eixo SSE (167,5º v), em direção ao ponto previsto para o cruzamento do Rio Grande, onde esse rio fazia uma brusca inflexão para oeste, nas proximidades da área em que o Secretário de Governo José Ferreira de Fonte instalara uma "roça de apoio".

Uma vez na margem oposta (direita), os trabalhos de abertura da picada-base prosseguiram pelas vertentes favoráveis de um pequeno afluente (mais tarde chamado Córrego do Secretário ou Córrego da Maria Comprida), até suas nascentes, onde era alcançada a "quebrada da Serra da Tamborapea (mais tarde Araras)", ao sopé da Pedra da Maria Comprida e do (futuramente cognominado) Morro da Mensagem.

Transposta essa garganta, na cota aproximada de três mil e seiscentos pés (1.200m), a picada-base foi direcionada para a várzea formada nas proximidades da confluência dos rios da Cidade e Araras, ponto esse próximo ao local até onde havia chegado a picada de acesso para a casa-sede da Sesmaria de Luiz Peixoto da Silva, já conhecida como Fazenda Rio da Cidade. (6)

(6) - Vias abertas durante as tarefas preliminares das Sesmarias Tamaraty e Rio da Cidade.


Essa segunda fase, constante da abertura da picada-base da variante, não teria durado mais de quatro meses, estimando-se que já estivesse concluída nas proximidades do final de 1723.

Para concluir restava a transformação da picada-base em caminho, constituindo a terceira fase.

Naquela altura, Bernardo de Proença já teria condições de contar com a participação dos seus "colaboradores da Baixada", aos quais, no decurso de 1723, foram outorgadas seis Sesmarias, cujas locações deveriam cobrir seqüencialmente todo o trajeto da citada variante, desde Parahyba até o Rio da Cidade.

O término das obras, segundo a especificação de Caminho Geral, ocorreu antes de outubro de 1724, acreditando-se que alguns arremates poderiam ter sido estendidos até o ano seguinte.

Porém, como é possível depreender através da apreciação da matéria que se segue, SMR D. João V só foi, devidamente, informado a respeito das etapas desse processo após a concretização do mesmo. Vejamos, pois, os pontos mais importantes da Carta de 11.X.1724 que lhe foi endereçada pelo Governador Ayres de Saldanha, relatando os seguintes fatos:

"Garcia Rodrigues Paes se isentara de abrir o caminho novo para as minas, alegando que muitos anos já não lhe permitiam aturar as clemências do Certão (sic)";

"Bernardo Soares de Proença se propusera a fazer voluntariamente esse serviço à sua custa, ficando o dito caminho mais breve que o da Serra do Mar quatro dias";

"O caminho já estava aberto";

"Depois de dadas a várias pessoas as terras do fim do caminho, que as pediram na forma das Ordens Reais, para as cultivarem e fazerem roças" (sic)"; e

"Garcia Rodrigues Paes pretendia inteirar-se das terras que dizia terem-lhe sido prometidas (sic)".

Parece oportuno reiterar que nenhum pedido de autorização para execução das obras fora encaminhado previamente a SMR, notando-se que, no supracitado documento, o Governador Ayres de Saldanha apenas teria comunicado fatos consumados, o que vem confirmar que recebera diretamente essas ordens antes de deixar Portugal.

A resposta de SMR D. João V só veio no ano seguinte, através da Provisão Régia de 6.VII.1725, da qual extraímos as seguintes informações:

todas as iniciativas tomadas pelo Governador Ayres de Saldanha foram ratificadas, tendo o mesmo sido louvado pelo "zelo com que pusera em execução a abertura do referido caminho";

SMR mandou apresentar a Bernardo de Proença "agradecimentos pelos serviços prestados"; e

finalmente, SMR fez constar que Garcia Rodrigues Paes "não tinha direito à petição que formulara".

Porém, - com vistas ao futuro das terras da Micro-Região da Bacia do Piabanha e das demais áreas adjacentes -, o aspecto realmente positivo dessa Provisão Régia foi que ela expressou a cabal aprovação Real de todas as iniciativas, decisões e realizações do Governador Ayres de Saldanha, podendo, assim, ser considerada como o Ato de Homologação dessa variante - ou atalho - como o complemento final do Caminho Geral de Minas Gerais da Parahyba até Inhomirim..

Para as áreas servidas pelo Caminho do Couto (rota original por Paty do Alferes) e pelo Caminho Velho (por Paraty e Rota dos Bandeirantes), esse fato foi desastroso, ante a desclassificação do primeiro como Caminho Geral e do segundo como "rota alternativa tolerada".

À nova variante foram atribuídos diversos cognomes locais ou regionais, relacionados à época em que foram criados ou aos pontos de vista daqueles que os formularam. Em seus primórdios, ela foi indiferentemente citada como Caminho de Inhomirim, Variante do Inhomirim, Variante do Caminho Novo, Atalho do Caminho Novo, Atalho do Bernardo Soares de Proença ou, simplesmente, Atalho.

E, justamente, foi este último predicativo que selecionamos para ser empregado daqui por diante no presente Ensaio, em virtude dele ser, no nosso entender, o mais expressivo.

Antes de darmos prosseguimento, parece caber um questionamento a respeito da exclusão, pela terceira vez consecutiva, da alternativa de desenvolvimento do Caminho Geral pelas "suaves vertentes do Piabanha".

É certo que o "temor pelos índios brabos", apesar de não poder ser considerado um problema insuperável, ainda pesava muito.

Também é oportuno registrar que, durante os últimos vinte e cinco anos, não surgiram quaisquer inovações técnicas capazes de solucionar os problemas inerentes à área do "Cânion do Piabanha", com vistas à abertura de uma pista na duríssima rocha viva.

Porém, não havia qualquer motivo para desaconselhar o desenvolvimento da variante pelo Rio Piabanha abaixo, pelo menos, até o início das corredeiras que se formavam numa "itaipava" (7) existente na "futura paragem do Sumidouro". Seguindo-se essa rota seriam evitados os grandes sinuseios e desníveis encontrados nas "terras do Rio da Cidade" e na transposição da Serra da Tamborapea (mais tarde cognominada Serra das Araras e, também, Serra da Manga Larga).

(7) - Na linguagem indígena, “itaipava” significava “pedra que atravessa um rio de margem a margem”, topônimo esse que mais tarde cognominaria a localidade.


Mas a rota escolhida foi a que mais se aproximava ao eixo NNO (337,5º v).

O Atalho, uma vez concluído e consolidado, passou a cortar, de norte a sul, toda a faixa da Micro-Região da Bacia do Piabanha, compreendida a montante do final do Baixo Curso do rio formador. Nessa tal área, a partir de então, iria se desenvolver uma incontestável identidade comum, sob total influência do Atalho do Caminho Geral de Minas Gerais.

Para efeitos do presente Ensaio, decidimos conceituar - conjecturalmente - a Micro-Região em tela, como o "Território Pré-Colonial Petropolitano - TPCP", área que, cerca de cento e vinte anos mais tarde, iria constituir o "Território da Povoação-Colônia de Petrópolis". E, finalmente, o "Território Municipal Petropolitano".

E o Atalho, funcionando como um legítimo "agente penetrador" foi, sem dúvida alguma, o responsável pelo desencadeamento do processo de ocupação das terras "serra-cima de Inhomirim".

Portanto, julgamos que esse memorável episódio merece ser reconhecido como a "Gênese do Território Petropolitano".

Capítulo 3
As Ocupações Pioneiras ao Longo do Atalho

Como vimos no capítulo anterior, os primeiros ocupantes do "segmento serra-acima da pretendida variante por Inhomirim" foram o Sargento-Mor Bernardo Soares de Proença e o Sargento-Mor Luiz Peixoto da Silva, os quais teriam iniciado, ainda no ano de 1721, os trabalhos de instalação das suas Sesmarias, as quais, juntamente com a Roça do Secretário, seriam confirmadas no segundo semestre de 1723.

Apreciemos algumas informações gerais sobre essas três primeiras propriedades do Atalho, situadas "serra acima de Inhomirim":

o Sargento-Mor Bernardo Soares de Proença instalou a Sesmaria Tamaraty, entre o "alto da Serra do Mar" e a confluência dos Rios Tamaraty e Piabanha. Essa data - concedida pela Carta de Sesmaria de 11.XI.1721 e confirmada por SMR D.João V de Portugal em 30.VIII.1723 - foi locada em forma de Quadra-Padrão, cortada no meio pelo eixo do Atalho. Em cada extremidade da testada - afastadas entre si na distância linear de uma légua - foi colocado um "marco de pedra, com uma cruz entalhada". As linhas de lado norte e sul, bem como as linhas de fundo leste e oeste, cada uma medindo mil e quinhentas braças, somente foram definidas bem mais tarde. A casa-sede da propriedade foi edificada na banda direita do Atalho, no topo de uma pequena colina situada à margem direita do Rio Tamaraty, nas proximidades da confluência desse rio com o Córrego Quissamã. Naquele local foi improvisada uma tosca ponte de madeira, por onde o Atalho cruzava para a margem direita do Rio Tamaraty. Desde muito cedo, foram edificadas instalações de apoio para as tropas e demais viajantes que, em breve, iriam afluir para o Atalho. Essa área, escolhida por Bernardo Soares de Proença para núcleo de sua Sesmaria, ficava no sopé de um imenso bloco de granito (mais tarde Maciço do Alcobaça), do qual se projetava, a meia altura, uma rocha pontuda, em direção ao rio. O topônimo Tamaraty teve sua origem no termo nheêngatu tamaraty,que significa pedra rolando para a água ; (1)

(1) - Na historiografia petropolitana registram-se diversas versões sobre o significado do termo indígena tamaraty. Entretanto, esta que adotamos, nos foi passada, pessoalmente, por Frei Estanislau Schaette, durante uma visita que o autor, em companhia de seu pai, o historiador Gabriel Kopke Fróes, fez ao, então, Pároco da Matriz do Quissamã. Exatamente onde fora edificada a “casa-sede da pioneira Fazenda Tamaraty”, Frei Estanislau falou enfaticamente: “Menino, foi neste lugar que nasceu Petrópolis”. Em seguida, apontando o dedo para a Pedra Cara de Cavalo e movendo-o na direção do Rio Itamarati, continuou: “Aquela é a pedra que deu origem ao nome deste local, Itamarati, que, na linguagem tupi, significa “pedra rolando ou caindo na água”.


o Sargento-Mor Luiz Peixoto da Silva ocupou a sua data - concedida através de uma Carta de Sesmaria, também datada de 1.XI.1721 e confirmada por SMR D.João V de Portugal em 12.VII.1723 - de forma estranha, não demonstrando a menor preocupação em definir as dimensões e os limites da mesma. Resumiu-se, em instalar uma fazenda na várzea bastante regular e ampla que encontrou nas proximidades da confluência do Rio da Cidade com o Rio Araras. Numa colina situada do lado direito do Atalho e pela margem direita do Rio da Cidade, num local distante seiscentas braças da referida confluência, ele construiu a casa-sede da Fazenda Rio da Cidade, como logo de início ficou conhecida esta propriedade. É curioso que, mesmo sem ter demarcado sua data, ele obteve a confirmação, dezoito dias antes daquela que foi conferida a Bernardo de Proença. Além das roças que plantou, nada se sabe sobre instalações para apoio às tropas e demais viajantes. Na realidade, pelo que ficou registrado, Luiz Peixoto nada mais pretendia do que explorar o núcleo de sua data, situado na plácida várzea fronteira à sua residência. Também consta que ele não se interessara em cooperar com Bernardo de Proença nas obras de complementação da variante, até o Rio Parahyba; e

o Secretário de Governo José Ferreira da Fonte que mandou instalar uma "roça de apoio" num ponto estimado como o meio do planejado percurso do Atalho, entre o Rio Parahyba e a Serra do Mar. Essa "roça de apoio", ou "Sesmaria do Governo", foi criada com base na Normativa para Distribuição das Terras do Caminho Novo, baixada pela Ordem Régia do 7.V.1703, instrumento legal esse que foi, equivocadamente, interpretado por um grande número de pesquisadores como uma Carta de Sesmaria, através da qual teria sido outorgada aquela "roça". Muitas outras conclusões precipitadas foram imaginadas sem o mínimo respaldo nas imprescindíveis fontes primárias pertinentes. Na realidade, "o Secretario" - cognome pelo qual ficou conhecido Ferreira da Fonte - inicialmente assumira, apenas, o privilégio de explorar a "roça de apoio". Porém, logo em seguida, registrou tal propriedade em seu nome, a qual foi demarcada judicialmente. Sua locação foi efetuada em forma de retângulo, fazendo testada pelo meio no eixo do Atalho. Suas linhas de lado, medindo uma légua, foram orientadas na direção ENE (067,5ºv) e a testada e linhas de fundo, medindo meia légua, foram orientadas na direção NNO (337,5ºv). Essa data se estendia pela banda sul do Rio Grande (logo depois cognominado Fagundes), no setor em que este passava a correr no rumo geral aproximado ENE, para, cerca de uma légua adiante, inflectir bruscamente para o norte, nas proximidades do ponto em que o Atalho cruzava para a margem esquerda do rio em pauta. Mesmo sem dispor de uma fonte documental segura, podemos estimar que tal propriedade pioneira - Roça do Secretário - tenha sido implantada, ainda, no ano de 1723.

Indiscutivelmente, as supracitadas datas constituíram os "núcleos precursores das ocupações ao longo do segmento serra-acima da variante do Caminho Novo por Inhomirim", propriedades essas que foram confirmadas por SMR e consolidadas, ainda no ano de 1723, antes mesmo da abertura da referida via.

Conforme exposto no capítulo anterior, é oportuno relembramos que, no final de 1722, Bernardo Soares de Proença havia conseguido de alguns "fazendeiros e moradores da Baixada" o oferecimento para cooperação na abertura da variante do Caminho Geral por Inhomirim. Tal informação está baseada no requerimento encaminhado à SMR no início de 1723, cujos signatários solicitavam: "a expedição de um novo Alvará de Licença e que os ditos moradores possam abrir o dito caminho, à sua custa, delegando os poderes de que V. Majestade foi servido mandar ao dito Garcia Rodrigues no que esperam ser providos com as mesmas mercês que a ele foram concedidas com todas as terras que se acham devolutas desde as vertentes da Serra até o Parahyba que serão 12 ou 14 léguas". (2)

(2) - Fontes Documentais Ref. 12.
12. Requerimento de [1723], dos “moradores do Rio Inhomirim, encabeçado por Bernardo Soares de Proença”, dirigido a SMR de Portugal, “para construírem, às suas custas, o Novo Caminho para as Minas do Ouro”.  Arquivo Nacional, AHUL 4.398.


Participaram dessa petição, seis dessas pessoas ligadas a Bernardo Soares de Proença que haviam manifestado interesse pelas "terras do fim do caminho". Tal oferecimento, além de concretizar a ocupação das "terras serra-acima" desde o "alto da Serra do Mar" até Parahyba, iria contribuir decisivamente para a complementação das obras da futura variante.

E, ainda no ano de 1723, foram distribuídas, ao longo do traçado da projetada variante, no "segmento serrano", seis Sesmarias em série, destinadas a preencher todo esse percurso.

As seis supracitadas datas foram definidas como Quadras-Padrão - uma légua de lado - ficando claramente especificado nos respectivos Forais a confrontação que cada uma delas deveria fazer com sua vizinha pelo sul. Em princípio, essa distribuição parecia exeqüível, pois a distância linear entre o Marco do Tamaraty e o Rio Parahyba era de seis léguas, medida essa suficiente para efetuar as seis locações.

Entretanto, não poderia deixar de ser levado em conta que a Sesmaria Rio da Cidade e a Roça do Secretário - já confirmadas - estavam preenchendo uma légua e meia do espaço disponível para testadas, sobrando apenas quatro léguas e meia para locar seis Sesmarias, o que seria impossível, considerando-se as dimensões com que elas foram outorgadas.

Além do mais, a variante não poderia ser desenvolvida rigorosamente sobre o eixo previsto (NNO), o que impediria um alinhamento perfeito quanto à locação das Sesmarias em pauta.

Diante de tal situação fica óbvia a necessidade de alguns acertos.

Primeiramente, vamos analisar as três dessas Sesmarias, previstas para locação no trecho entre a Roça do Secretário e o ponto onde a projetada variante deveria entroncar-se com a rota original do Caminho Novo. Tais datas, apesar de concedidas fora do Território Pré-Colonial Petropolitano - TPCP, serão mencionadas, pois condicionaram fortemente a locação das demais.

Devemos levar em conta que, a partir da Roça do Secretário, a construção da variante não pôde se mantida nas proximidades do eixo NNO (337,5ºv), devido ao grande desvio, exigido pelas condições topográficas locais. Entretanto, cerca de duas léguas mais adiante, era imperativo retornar ao referido eixo, o que ocorreu através de uma extensa curva para oeste, a fim de buscar o entroncamento em Encruzilhada. Assim sendo, essas três datas, ao serem instaladas, não puderam manter um alinhamento como veremos a seguir:

a de Francisco Fagundes do Amaral, concedida pela Carta de Sesmaria de 2.V.1723 e confirmada por SMR a 30.V.1725 foi deslocada para o leste, sendo a sua linha de lado sul traçada no prolongamento da linha de lado norte da Roça do Secretário que corria, paralelamente, ao rumo geral do Rio Grande (pouco depois Fagundes). Ela foi demarcada em forma de Quadra-Padrão e ficou conhecida como Sesmaria do Fagundes, onde foram plantadas roças de apoio. Nessas circunstâncias, não pôde ser literalmente cumprida a determinação referente à confrontação pelo sul com a Sesmaria de Ambrósio Dias Raposo;

a de José Borges Raymondo, concedida pela Carta de Sesmaria de 14.IX.1723 e confirmada por SMR a 30.V.1725, devia preencher o espaço entre as Sesmaria de Fagundes do Amaral e a de Pedroso de Souza, justamente no trecho em que o Atalho fazia uma extensa curva para o oeste. E, a fim de ajustar-se à situação de suas confrontantes, ela teve de ser locada em forma de um grande triângulo, de modo que dois de seus lados deveriam coincidir com as linhas de lado das datas contíguas. Apesar da impossibilidade de ter sido traçada na forma de Quadra-Padrão, ela manteve em sua configuração triangular a área total concedida de uma légua quadrada; e

a de Jorge Pedroso de Souza, última data dessa série, concedida pela Carta de Sesmaria de 30.XII.1723 e confirmada por SMR a 22.III.1725, foi demarcada em forma de Quadra-Padrão, dividida ao meio pelo segmento final do Atalho, sendo que as suas linhas de lado foram traçadas, respectivamente, sobre o ponto de entroncamento com o trajeto original do Caminho Novo - Encruzilhada - e a divisória com Borges Raymondo. Por razões não bem esclarecidas, mas bastante especuladas, essa data ficara conhecida, desde a época de sua outorga, como Sesmaria do Governo e, bem mais tarde, como Fazenda do Governo. A verdade é que cerca de dez anos mais tarde ela passou para o Ex-Governador Ayres Saldanha, sugerindo a idéia de que fora reservada para ele, através de "testas de ferro".

Com relação às demais três Sesmarias dessa série de seis, concedidas no Território Pré-Colonial Petropolitano, entre o Rio Grande (depois Fagundes) e o Marco do Tamaraty, a situação foi um pouco mais complexa, pois nesse espaço de três léguas já estava instalada - e devidamente demarcada - a Roça do Secretário, com meia légua de testada, não possibilitando a locação de três Quadras-Padrão.

E mais problemático, ainda, era o fato de que, também, já estava instalada nessa área a Sesmaria de Luiz Peixoto da Silva, a qual apesar de confirmada, constava não ter sido convenientemente demarcada e regularizada na conformidade das "ordenanças específicas vigentes".

Entretanto, esse impasse não foi efetivamente resolvido. Na realidade ele teria sido contemporizado, através de acordo ou acomodação geral.

Segundo minuciosa pesquisa efetuada pelo historiógrafo Francisco de Vasconcellos, a confirmação da Sesmaria de Luiz Peixoto da Silva foi anulada.

No nosso entender, tal informação foi valiosa e se enquadra perfeitamente na análise global que fizemos sobre a ocupação do Valle do Rio da Cidade nessa fase pioneira.

Sabendo-se que a distância linear entre a crista da Serra de Tamborapea (Araras) e o Marco do Tamaraty era de uma légua e meia, seria lógico que as locações das três Sesmarias - todas com uma légua de testada, conforme estipulavam seus Forais - só poderiam se tornar viáveis mediante acordos entre as partes envolvidas, no sentido de ser feita uma drástica redução em cada uma de suas testadas.

Mas, a partir da desqualificação da Sesmaria Rio da Cidade, a questão ficou bem mais simples, pois apenas duas datas deveriam ser locadas no supracitado espaço, conforme veremos mais adiante.

Uma vez encerradas as premissas, por nós, julgadas essenciais, poderemos apreciar as supracitadas três Sesmarias da série e os reajustes que lhes foram aplicados:

a data de Ambrósio Dias Raposo, concedida pela Carta de Sesmaria de 20.IV.1723 e confirmada por SMR a 20.XII.1725, deveria confrontar pelo norte com a data de Fagundes do Amaral. Na realidade ela foi locada com a linha de lado norte, traçada sobre o limite sul da Roça do Secretário e a sua linha de lado sul sobre a crista da Serra de Tamborapea (Araras). Sendo assim, sua testada não pôde perfazer uma légua com previa o seu Foral. Conforme sugeria a topografia local, essa data ficou conhecida com Sesmaria das Pedras. No terço, próximo à Roça do Secretário, foi implantada uma pequena roça - "rocinha" - onde foi edificada a sede da propriedade, ficando essa localidade conhecida como "rocinha das pedras";

a data concedida a Luiz Antunes Álvares pela Carta de Sesmaria de 20.IV.1723 e confirmada por SMR a 20.XII.1725, foi locada a partir da linha divisória com a Sesmaria das Pedras que corria pela crista da Serra de Tamborapea (Araras), devendo a sua linha de lado sul passar pelo ponto de confluência dos Rios Araras e da Cidade, perfazendo uma testada com cerca de três quartos de légua, orientada no eixo NNO (337,5º v), com as linhas de fundo, leste e oeste, afastadas meia légua do referido eixo. Essa propriedade ficou conhecida como Sesmaria dos Antunes (mais tarde Sesmaria das Araras); e

a data concedida a José Rodrigues Gomes pela Carta de Sesmaria de 16.II.1723 e confirmada por SMR a 3.VII.1725, não teve em seu Foral - como as demais da série tiveram - uma indicação do seu limite sul. Ela foi locada entre a linha de lado sul da data de Luiz Antunes Álvares e o Marco do Tamaraty. Tal qual ocorrera com as Sesmarias das Pedras e a dos Antunes, a sua testada deveria ser traçada com três quartos de légua, orientada no eixo NNO (337,5º v), ficando as linhas de fundo, leste e oeste, distando meia légua do referido eixo.

Quanto a esta última data, surgiu um problema delicado. O pioneiro Luiz Peixoto da Silva - ex-combatente na malograda campanha contra a "Invasão de Duguay Trouin" e amigo de Bernardo de Proença - mesmo após a desqualificação de sua Sesmaria continuou ocupando e explorando a "Fazenda Rio da Cidade" por quase dez anos mais.

Fugindo um pouco da ordem seqüencial da narrativa, desejamos antecipar que essa situação, capaz de propiciar um sério litígio, parece não ter assumido maiores proporções, percebendo-se ter havido uma paciente tolerância por parte dos prejudicados, o que, certamente teria estimulado a origem do cognome Sesmaria Paciência, a qual passaremos, doravante, a mencionar como Sesmaria Rio da Cidade / Paciência, retratando a forma ambígua com que ela foi citada em vários documentos da época. Como exemplo, citamos a Carta de Sesmaria de 6.VIII.1741 e confirmada por SMR a 22.II.1743, a qual estipulava que a data outorgada a Francisco Muniz de Albuquerque deveria ser locada contiguamente pelo oeste à "roça chamada Paciência e Rio da Cidade (sic)".

Aproveitando essa oportunidade, parece caber a abertura de um parêntese, a fim de que possamos esclarecer sobre uma postura de carácter muito pessoal que adotaremos no presente Ensaio, para caracterizar situações correlatas a esta, nas quais determinadas propriedades passaram por alterações de seus titulares, conceituações ou atividades. Assim, decidimos citá-las pelas designações originais, seguidas, após uma barra, pela nova designação, com a finalidade de sugerir uma idéia de evolução, continuidade ou sucessão.

Fechando o parêntese e retornando à narrativa seqüencial, registramos que até o final da Década em curso, não foi possível resgatar melhores informações sobre fatos ou alterações mais significativos ocorridos naquele período, devido à escassez absoluta de fontes primárias pertinentes às ocupações pioneiras do Território Pré-Colonial Petropolitano -TPCP.

A única informação, realmente importante, que conseguimos resgatar foi a outorga de uma Sesmaria, desta feita, fora da Faixa de Quadras do Atalho. Vejamos o resumo de seu Foral:

data concedida a Domingos Rodrigues Távora pela Carta de Sesmaria de 25.VI.1728 e confirmada por SMR a 5.III.1729; e

para ser locada "entre o Caminho Novo de Inhomirim e a roça que foi do Capitão Marcos da Costa e que hoje pertence a Domingos Vieira Ribeiro / até entestar com as terras do Capitão-Mor Bernardo Soares de Proença".

Essa foi a primeira Sesmaria concedida fora da faixa que acompanhava todo o trajeto do Atalho, "serra-acima", prenúncio certo de que um fato importante estava para acontecer no Território Pré-Colonial Petropolitano -TPCP, qual seja a expansão das ocupações além dos limites da Faixa de Quadras do Atalho.

Mais interessante, ainda, é que essa outorga não foi um fato isolado.

Outras duas datas, contíguas às Sesmarias que desde os primórdios do Caminho Novo (l708) pertenceram ao Capitão-Mor Marcos da Costa, foram concedidas para:

Domingos Vieira da Costa, pela Carta de Sesmaria e 1.III.1728; e

José de Vargas Pizzarro, pela Carta de Sesmaria de 31.III.1728.

Essas duas últimas Sesmarias vinculavam-se ao primitivo Caminho do Couto, no trecho entre a Pedra do Couto (Congonhas) e a Roça do Alferes.

Considerando-se em conjunto essas três datas, que deveriam ser locadas seqüencialmente entre o Caminho do Couto e o Atalho, não poderíamos, de forma alguma, deixar de lado o pressuposto da existência de uma ligação viária entre elas, indispensável à utilização de cada uma.

E, tendo em vista que todas três propriedades foram confirmadas por SMR, há certeza de que já estava em andamento a abertura da referida via - "o embrião do atalho entre os Caminhos do Couto e de Inhomirim" - que fora requerido pelos fazendeiros do Valle do Rio Ubá e do Valle do Rio Santa Anna ao Governo Geral e que estava sendo executado pelo Mestre de Campo Estevão Pinto. Sobre tal "atalho" há provas documentais.

Conforme disposto no respectivo Foral, a Sesmaria de Domingos Rodrigues Távora foi prevista para ser locada contiguamente à Sesmaria Tamaraty e não há maiores detalhes sobre sua ocupação, demarcação e atividades.

Portanto, na virada para a Década de 30, já se registravam seis ocupações efetivas no Território Pré-Colonial Petropolitano - TPCP:

Sesmaria Tamaraty;
Sesmaria Rio da Cidade / Paciência;
Sesmaria Araras;
Sesmaria das Pedras;
Roça do Secretário; e
Sesmaria de Francisco Rodrigues Távora.

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