Ensaio entregue pelo autor a 20/01/2006 para inclusão no site, dividido em partes conforme melhor fosse.

PETRÓPOLIS - A SAGA DE UM CAMINHO (2)
Gênese e Evolução do Território Petropolitano

Carlos Oliveira Fróes

Capítulo 1

Capítulo 1
O Caminho Novo

Próximo à virada para o Século XVIII, toda a faixa do Médio Inferior Vale do Paraíba, que hoje é abrangida pela Serra Fluminense e pelo Setor Meridional Mineiro - Sul de Minas e Zona da Mata - era constituída por matas virgens, descampados ou terrenos rochosos, apenas habitada por silvícolas que se concentravam, exclusivamente, nas proximidades do formador da maior bacia potamográfica fluminense e no baixo curso de alguns de seus mais caudalosos afluentes. Ressaltamos que a presença do homem civilizado naquela vasta área só havia se manifestado, até então, na forma de missões exploratórias eventuais, sem que ficassem caracterizados quaisquer tipos de penetrações consistentes ou simples ocupações.

E, inserida naquele território, estava a micro-região formada pela faixa da Bacia do Piabanha, considerada a montante do baixo curso do referido rio, onde mais tarde surgiria Petrópolis e suas áreas de influência adjacentes.

Seus limites naturais poderiam ser, assim, conjecturados:

pelo norte, a linha imaginária, distante cerca de duas léguas da margem direita do rio Paraíba;

pelo leste, o alinhamento da crista da Serra dos Órgãos e do seu contraforte que corre em direção à Serra do Taquaril;

pelo sul, o trecho da Serra do Mar, naquela época também chamada eventualmente, de Serra dos Órgãos e, a partir de meados do Século XVIII, passaria a ser conhecido como Serra da Estrela; e

pelo oeste, outro trecho da Serra do Mar, mais conhecido na época como Serra da Boa Vista ou, algumas vezes, como Serra do Marcos da Costa e, ultimamente, tem sido referido - erradamente - como Serra do Couto. (1)

(1) - Contraforte da Serra do Mar, originado no “sítio do Manoel do Couto” (hoje Xerém) que se unia ao Contraforte do Tinguá, nas proximidades da Pedra do Couto (depois Congonhas). A partir dali estendiam-se num só ramo até o ponto de junção com o segmento da Serra Mar, cognominado nas fontes da época como Serra da Boa Vista ou Serra do Marcos da Costa. Atualmente essa serra vem sendo chamada, erradamente, de Serra do Couto, inclusive pelo IBGE.


Chamamos a atenção para esse predestinado território devoluto, onde nem mesmo os silvícolas praticavam ocupações permanentes, o qual, na realidade, constituía um vasto ecúmeno - ainda totalmente desabitado - onde as alterações de caráter exógeno manifestavam-se, apenas, através das trilhas - "pypora" ou "peabiru" - deixadas pelos indígenas nas suas incursões de cunho eventual - rituais, pilhagem, caça, ações de combate, etc - ou das trilhas produzidas por animais silvestres.

Vestígios daquelas vias informais já foram amplamente identificados e há provas concretas de que elas tivessem sido utilizadas esporadicamente por exploradores, durante as incursões pioneiras, inclusive as realizadas bem antes do Século XVIII.

Ademais, é fácil verificar que, ao longo delas, surgiu um expressivo número de topônimos indígenas - em linguagem tupi / nheêngatu - referentes aos rios, montanhas, serras, picos, localidades, acidentes geográficos em geral, etc, que foram amplamente aplicados desde os primórdios, muitos dos quais figuraram em croquis e mapas primitivos, denotando a existência - ainda que de forma incipiente - de um certo conhecimento topográfico da área em pauta e óbvias interações com o gentio.

Porém, quanto ao tráfego normal nessas trilhas, tanto para o homem civilizado como para os silvícolas, reafirmamos o caráter de eventualidade.

Antes de darmos prosseguimento, mister se faz analisar certas versões - no nosso entender totalmente infundadas - a respeito de possíveis ocupações permanentes que teriam ocorrido anteriormente na micro-região em pauta.

Em primeiro lugar, julgamos que deva ser afastada a presunção - amplamente divulgada e reiterada - de que, "desde 1683, o Bandeirante Garcia Rodrigues Paes havia se estabelecido, junto com sua família, num local situado entre os rios Parahybuna e Parahyba". Tal informação não procede de forma alguma, pois, na época citada, esse sertanista era muito jovem, ainda não se casara e estava dando continuidade à missão que até 1681 estivera sendo desempenhada por seu pai, o notável Fernão Dias Paes, na memorável Bandeira pelo desbravamento, povoamento e exploração dos "sertões além da amantikira" (2). Entendemos que tal equívoco decorreu do fato dele ter explorado ouro de aluvião nas imediações da Borda do Campo, onde era dono de uma outra propriedade no Caminho Novo, conhecida como "Roça do Garcia Rodrigues Paes", cujo predicativo era o mesmo daquele que celebrizaria sua ocupação pioneira às margens do Rio Parahyba.

(2) - Na língua “tupi / nheêngatu”, “aman-tykyra” significa: (amana = chuva) + (tykyra = que é havida a pingos, borrifada),  termo esse assimilado como “mantiqueira” ou “mantiquira”.


Outra suposição improcedente que deve ser prontamente eliminada é a idéia de que, "antes do Século XVIII, já estavam implantadas algumas Sesmarias, "acima ou por detrás da Serra dos Órgãos"". É verdade que algumas concessões - apenas concessões - dessa natureza foram efetuadas naquela área, porém não há o menor indício de que, ali, tenha ocorrido qualquer efetivo processo de ocupação. Como prova dessa assertiva, podemos citar que os termos de localização, então, empregados nos requerimentos e reproduzidos nas respectivas Cartas Forais foram extremamente vagos, imprecisos e errados, denotando total desconhecimento topográfico das áreas "serra-acima" pretendidas pelos requerentes. Acresce que nenhum desses documentos foi confirmado por SMR, ficando óbvio que nada mais foram do que meras tentativas de reserva de terras para uso futuro.

E por fim, também deve ser descartada a hipótese sobre "presença permanente de índios no Médio e no Alto Valle do Rio Piabanha, bem como nos vales formados por seus afluentes Preto e Fagundes". É notório que os resultados obtidos através de todas as pesquisas arqueológicas, ali realizadas, não forneceram provas suficientes para atestar ocupações efetivas. Além do mais, as condições climáticas e ambientais locais eram absolutamente desfavoráveis para o assentamento de indivíduos dos grupos étnicos que se adaptaram em algumas áreas mais favoráveis do Médio Parahyba.

Entretanto, ao aproximar-se o final do Século XVII, toda a placidez daquela tranqüila faixa, que começava na "borda sul dos campos auríferos e se estendia até a crista da Serra do Mar", estava preste a passar por uma transformação radical.

Em meados de 1698, o Governador e Capitão-General da Capitania do Rio de Janeiro, Arthur de Sá e Menezes, firmou um acordo com o sertanista Garcia Rodrigues Paes para abertura de um novo Caminho Geral - via oficial do interesse da Administração Geral - ligando diretamente os "campos auríferos" ao Porto do Rio de Janeiro, medida essa que, brevemente, iria desencadear um vigoroso processo de ocupação, exploração e povoamento das terras ao longo da pretendida via.

O pronto estabelecimento dessa ligação direta entre o promissor Pólo Produtor de Ouro e o mais importante Pólo Comercial e de Exportação da Colônia era uma questão vital para a debilitada Economia Portuguesa de então.

Neste ponto da presente narrativa, decidimos abrir um parêntese para alertar que:

doravante, todos os topônimos e nomes serão apresentados na mesma grafia original com que eram citados nas fontes primárias pertinentes, relativas à ocasião em que foram produzidas; e

todas as alterações posteriores desses nomes e topônimos, que passaram a figurar nos documentos oficiais e na correspondência corrente com uma grafia efetivamente atualizada, iremos adotá-las em nossa narrativa.

Julgamos que tal procedimento irá garantir maior fidelidade aos termos usados e, também, proporcionar maior facilidade aos leitores interessados para esclarecimento de dúvidas ou ampliações da pesquisa nas fontes disponíveis.

Fechemos, pois, o parêntese e voltemos à seqüência normal.

Cabe admitir que, para execução de tão complexa tarefa, o construtor - baseado nos croquis e mapas disponíveis na época, que, apenas, forneciam dados topográficos muito superficiais sobre a região em tela - já tivesse alguma idéia, ainda que elementar, para ligar a Borda do Campo à Bahia de Guanabara.

Assim, podemos pressupor que tal projeto previa o aproveitamento das vertentes favoráveis dos Rios Parahybuna, Piabanha, Caioaba e Inhomirim, rota essa que cobria todo o percurso imaginado, segundo uma linha de deslocamento, praticamente, contínua.

Cabe, apenas, ressaltar uma quase que absoluta falta de informações sobre a área em torno da confluência dos rios Parahybuna e Piabanha no Parahyba, a qual os antigos consideravam como tríplice e, por tal razão denominavam: "três barras" (3).

(3) - Exploradores pioneiros entendiam que em “três-barras” se processava uma tríplice confluência – Parahybuna no Parahyba, Piabanha no Parahyba e Piabanha no Parahybuna – o que explica a origem do topônimo. O grande desconhecimento topográfico de tal área é comprovado pela absoluta ausência de notações topográficas nos precários mapas de então, nos quais apenas o Paraíba e seus supracitados afluentes estavam representados, denotando uma baixíssima freqüência do homem civilizado pelas imediações.


E as razões dessa lacuna eram óbvias, pois naquela vasta área - referida como "Certão dos Índios Brabos" - foi comprovada uma grande concentração de "Índios Coroados" que desestimulava quaisquer incursões naquelas cercanias.

Esse grupo indígena - não autóctone - teria resultado da miscigenação dos pacíficos silvícolas locais de raça Puri com os ferozes Goitacás, estabelecidos nos "campos adjacentes ao Baixo Curso do Rio Parahyba". Os Goitacás, conquistando as aldeias Puri, localizadas rio acima, eliminavam todos os guerreiros antagonistas e fecundavam as mulheres remanescentes. O resultado - segundo dizem - deu surgimento aos "Coroados do Médio Parahyba", cujas ocupações se estendiam tanto à jusante como à montante das "três barras". Tais índios eram considerados mais temíveis, ainda, do que seus ferozes ancestrais paternos. No nosso entender, os "Coroados do Médio Parahyba" nada tinham a ver com os "Coroados dos Campos Auríferos" e, sobretudo, com os "Coroados do Centro Oeste".

Cerca de dois anos antes do final do Século XVIII, Garcia Rodrigues Paes iniciou a abertura da "picada-base do novo caminho para o Rio de Janeiro", a partir da "borda dos campos auríferos", localidade essa que se consolidaria sob o topônimo de Borda do Campo.

Nesse trecho inicial, foram aproveitadas as vertentes favoráveis do Rio Parahybuna, buscando atingir o Rio Parahyba, no local onde também confluía o Rio Piabanha, nas "três barras".

Todavia, esse ponto intermediário, apesar de ser o mais racional segundo os critérios vigentes, não iria ser alcançado naquela oportunidade. Cerca de seis léguas à montante das "três barras", próximo á confluência do Rio Paranauna (mais tarde: Preto) com o Rio Parahybuna, o traçado, supostamente previsto, foi bruscamente reorientado para a direção sul. (4)

(4) - O citado Rio Preto deve ser entendido como o afluente – pela margem direita – do Parahybuna, e não com seu homônimo Rio Preto, afluente – pela margem direita  – do Piabanha.


Isso significava que, doravante, o construtor estava abdicando das vertentes favoráveis do trecho final do Parahybuna e das iniciais do Rio Piabanha para enfrentar as agruras de uma transposição frontal da "serra da cachoeira" (mais tarde Serra das Abóboras) que era o último segmento da serra formadora do divisor de águas dos rios Parahyba e Parahybuna.

Vencida a referida serra, através da "quebrada da cachoeira", a picada-base prosseguiu pelas vertentes do "mais tarde chamado córrego do limoeiro", até sua desembocadura na margem esquerda do Rio Parahyba.

Naquele ponto, que distava cerca de duas léguas e meia das "três barras", Garcia Rodrigues Paes instalou a base do seu empreendimento, onde construiu uma moradia e, prontamente, deu início à edificação de uma "igrejinha", evidenciando que ali pretendia edificar uma "Povoação" ou, mais precisamente, uma "Villa".

Nas várzeas, inclusive nas da margem oposta - direita - ele iniciou a implantação de grandes roças de apoio que ficariam notabilizadas pelo cognome de "Roças do Garcia Rodrigues Paes".

Daí em diante, o experiente construtor de caminhos poderia dispor de duas opções para prosseguir:

uma delas seria retornar "à suposta rota inicial planejada", buscando a calha do Piabanha, num ponto suficientemente distante das "três barras"; e

a outra, seria pelo Valle do Rio Ubá, cuja barra no Parahyba ficava cerca de duas léguas e meia a montante de suas planejadas roças.

Essa última opção, apesar de acarretar um expressivo aumento no percurso geral e outras prováveis dificuldades, foi a escolhida.

Entretanto, parece caber uma reflexão sobre as razões que teriam motivado o experiente planejador e construtor a eliminar a opção pelo Piabanha, justamente aquela que, à primeira vista, parecia ser a mais aconselhável.

Inicialmente, a forte concentração de "índios brabos" deveria ser encarada como um respeitável fator dissuasório. Todavia, sabe-se que tal problema poderia ser resolvido rapidamente pela aplicação da força, o que - veladamente - era muito comum naquela época e, provavelmente, já fora empregada em menor escala por Garcia Rodrigues Paes.

Entretanto, é mais provável que um fator real de ordem fisiográfica teria pesado muito mais na avaliação dessa questão. Não muito longe de sua barra, o Rio Piabanha deixava de ser navegável - até para pequenas embarcações - e, cerca de um pouco mais de três léguas, rio acima, tinha início um acentuado estreitamento do rio, que se estendia encachoeirado por quase meia légua ao longo de um "cânion", esculpido em rocha duríssima de granito, local esse conhecido mais tarde como "Jacuba".

Inequivocamente, naquele ponto, não estariam disponíveis "vertentes favoráveis", tendo em vista as abruptas encostas das montanhas formadoras do "cânion", as quais desencorajariam quaisquer tentativas para abertura de uma pista ou desvios.

Note -se, que naquela fase os explosivos de grande impacto ainda não existiam e as pólvoras disponíveis não eram eficazes contra as rochas porfiróides mais duras.

Ante tais limitações, não restava a Garcia Rodrigues Paes outra opção, senão dar continuidade à abertura da picada-base em direção ao Valle do Rio Ubá, contornando o flanco norte da Serra do Cavarú.

Uma vez atingido tal vale, as obras progrediram através das, realmente suaves,- vertentes da margem direita do Rio Ubá, até suas nascentes, originadas nas proximidades da crista de Serra do Mar, a qual foi ultrapassada sem maiores problemas.

Daí por diante - no, mais tarde denominado "Valle do rio Santa Anna", cujo formador era um dos contribuintes pela margem esquerda do Rio Iguassu - os trabalhos prosseguiram em busca da Pedra do Couto {depois Congonhas) localizada na junção dos contrafortes das Serras do Tinguá e Couto e, daí, em forte declive, até o umbral da Baixada, no "sítio do Couto". (5)

(5) - Atual Xerém.


O traçado do trecho final até o Rio Iguassu foi previsto para se desenvolver pelas vertentes dos Rios do Couto e Morobahy; cujo destino era a sede de Freguesia de Nossa Senhora da Piedade do Pillar do Iguassu, homologada como tal em 1697.

Desse ponto em diante, o trajeto até o Rio de Janeiro poderia ser complementado pelo segmento navegável Morobahy - Iguassu - Baía de Guanabara, ou pelo "Caminho de Terra Firme" que se desenvolvia pela Banda Oeste da supracitada baía.

Antes do final de 1702, Garcia Rodrigues Paes deu por concluídas as obras de abertura da picada-base - apenas a picada-base - e informou ao Governo que ela já estava "apta para o transporte de cargas às costas dos viandantes".

A complementação na condição de caminho - via apta para tropas de muares - ocorreu de forma atribulada e cheia de informações desencontradas entre a Coroa e a Capitania. E, ao que tudo indica, tudo isso foi devido às diversas mudanças de seus respectivos titulares no período em pauta.

Os mais significativos dados comprobatórios da conclusão dessa via foram encontrados nas informações prestadas, nas proximidades do final de 1706, pelo Capitão-Mor Marcos da Costa da Fonseca Castello Branco que, na qualidade de Almoxarife de Fazenda Real, fora designado pelo Governador e Capitão-General da Capitania do Rio de Janeiro, D. Fernando Martins de Mascarenhas e Lencastre, para executar uma inspeção nas obras de construção do "novo Caminho Geral para as Minas do Ouro".

Segundo o relato de Marcos da Costa, foi constatado pela inspeção realizada que o caminho já estava terminado, tendo ele recomendado a imediata plantação de roças para viabilizar sua utilização. (6)

(6) - A Carta de Sesmaria relativa à outorga de seis Quadras-Padrão a Marcos da Costa é uma das mais preciosas fontes a respeito da situação das obras do Caminho Novo, por volta de 1707.


No entanto, essa via, apesar de ter sido habilitada como Caminho Geral, não escapou de muitas e severas críticas, em virtude dos riscos e dificuldades que deveriam ser enfrentados no segmento final de acesso à Baixada pela Serra do Couto, cheio de precipícios, estreitamentos, rampas muito acentuadas e pistas escorregadias.

Além disso, numa parte substancial do trecho entre o "sítio do Couto" e Pillar do Iguassu só era viável o tráfego em canoas. Sem nenhuma dúvida, todas essas dificuldades teriam acarretado grandes atrasos e substancial aumento no custo do transporte das cargas.

Tais críticas variavam muito, de acordo com a natureza dos interesses e intenções de seus autores.

Os "paulistas" e os "fluminenses" das outras áreas, até então, servidas pelo Caminho Velho, afirmavam que o Caminho Novo era inaceitável devido à sua péssima qualidade e propugnavam por sua não habilitação. Algumas correntes argumentavam que o traçado fora mal escolhido e que outras rotas como, por exemplo, pelo Rio Pomba, Piabanha ou Inhomirim, seriam mais adequadas.

E um grande grupo, simplesmente, alegava que o caminho não fora concluído.

A verdade é que o "Caminho Novo" - oficialmente o Caminho Geral das Minas de Ouro - foi efetivamente concluído e habilitado. Certamente, o mais expressivo, insuspeito e correto depoimento sobre o Caminho Novo foi consignado por Antonil, com base nas informações que ele próprio colhera por volta de 1707 ou 1708.

Além da memorável passagem pelo Caminho Novo - realizada e narrada por Antonil - foram registradas, entre 1709 e 1720, as seguintes viagens oficiais: visita ao Território de Minas do Ouro pelo Governador e Capitão-General Fernando Martins de Mascarenhas de Lencastre (1709) / visita ao Território de Minas do Ouro pelo, recém-empossado, Governador Antonio de Albuquerque de Almeida Coelho de Carvalho (1709) / deslocamento das Milícias Mineiras em apoio à Guarnição do Rio de Janeiro durante a Invasão Francesa de Duguay Trouin (1711) / transferência de um Destacamento de Dragões do Rio de Janeiro para Ribeirão do Carmo (1719) / transferência de um Grupo de Artilharia do Rio de Janeiro para Villa Rica (1720). Também transitaram no dito Caminho os Governadores Lourenço de Almeida, Conde das Galveas e Gomes Freire de Andrada.

Contudo, é incontestável que, devido às asperezas do segmento entre a Pedra do Couto e Pillar do Iguassu, esse final do Caminho Novo não foi bem aceito pela quase totalidade de seus usuários.

Dessa forma, para gáudio dos "paulistas" e dos "fluminenses da Bahia Grande", o "Caminho Velho", respectivamente pela "Rota dos Bandeirantes", complementada pelo trecho Rio de Janeiro - Paraty - Taubaté, teria de ser tolerado como "via geral alternativa", por algum tempo mais.

Para a Coroa Portuguesa tal situação era inaceitável, o que fez trazer à baila, novamente, a opção pelo Valle do Piabanha que foi amplamente apreciada no início deste Capítulo.

A prontificação do Caminho Novo coincidiu com a eclosão da "Questão dos Emboabas", verificada no coração dos "campos auríferos".

Certamente, a construção da supracitada via não constituiu o fator determinante da decisão dos "paulistas" por um confronto armado.

Porém, não podemos deixar de considerar o peso que tal evento representou para o acirramento dos ânimos entre os "paulistas das minas de ouro", justamente porque se julgavam - e realmente faziam jus - os legítimos conquistadores dos "sertões além da amantykyra", os descobridores das tão opulentas jazidas e os primeiros a extrair o rico minério.

Sentiam eles que, pouco a pouco, iam perdendo seus privilégios em favor de outros pretendentes e aventureiros, cognominados pelo termo indígena "emboabas", que afluíam de toda parte, em busca do cobiçado ouro.

Foi inevitável o inicio das lutas que prosseguiram sangrentamente até dezembro de 1708, ocasião em que os "paulistas" sofreram pesado revés no Capão da Traição, derrota essa que em curto prazo os levaria à suspensão das ações de combate.

Todavia, tal fato não significou uma pá-de-cal na "Questão dos Emboabas", pois era evidente que tal golpe não atingira apenas os brios dos "paulistas das minas de ouro".

Os trágicos resultados, a perda da primazia na exploração das jazidas e o desvio da rota do ouro e das demais cargas valiosas para fora de seu Território atingiram toda a população da Capitania de São Paulo.

E essa era uma situação de risco para a manutenção da estabilidade do "poder português, não só nas minas de ouro, como também no restante da Colônia", pois não se podia deixar de lado a possibilidade de, a qualquer momento, ser organizada uma poderosa "força paulista de retaliação", em face do grande "potencial militar informal" constituído pelos Bandeirantes Paulistas e seus numerosos contingentes espalhados pela Colônia.

Entretanto, foi extremamente hábil e prudente a postura assumida pela Coroa Portuguesa, levando em conta o quanto dependia dos Bandeirantes Paulistas para a consecução dos seus demais objetivos no sul, oeste e norte do Brasil:

a 9.XI.1709, o "território das minas de Ouro" foi desvinculado da Capitania do Rio de Janeiro, passando a integrar o termo da nova Capitania de São Paulo e Minas do Ouro; e

outrossim, nenhuma medida concreta foi executada com vistas a suspender a autorização para o tráfego alternativo de ouro e cargas valiosas pelo "Caminho Velho".

Aparentemente, tais ações deixavam transparecer uma forma de prestigiar o "espírito paulista", afastando o risco de uma revanche.

Contudo, sutilmente, foi desencadeada uma série de ações paralelas, visando à estruturação de um forte poder local, na Micro-Região das Minas do Ouro:

no período de 1711 a 1717 foi dinamizado o processo de organização da estrutura político-administrativa dos núcleos locais mais desenvolvidos, sendo apressada a criação da Villa do Ribeirão do Carmo (Mariana); Villa Rica (Ouro Preto); Villa Real de Nossa Senhora da Conceição do Sabará; Villa Nova da Rainha (Caeté); Villa de Pitangui; Villa de São João Del Rey; Villa de São José Del Rey e Villa do Príncipe (Serro);

em 1717 foi baixada a primeira Carta Régia com vistas a assegurar o controle pleno da produção e tributação do ouro, medida essa destinada ao fortalecimento do Poder Econômico local; e

uma poderosa Milícia Regional foi criada e reforçada com tropas regulares, formadas por um destacamento de Dragões e outro de Artilharia que foram transferidos do Rio de Janeiro, através do "Caminho Novo".

Somente após ter sido consolidado o "Poder Local nas Minas de Ouro" - Político, Eclesiástico, Administrativo, Econômico e Militar - é que foi dado o passo decisivo, visando ao domínio pleno português sobre o "território aurífero" e, conseqüentemente, o alijamento dos "paulistas".

Consoante a nova conjuntura, a Coroa Portuguesa havia designado um elemento de sua inteira confiança para ocupar o cargo de Governador e Capitão General da Capitania do Rio de Janeiro.

Foi ele, Ayres de Saldanha de Albuquerque Coutinho de Mattos e Noronha, que viera incumbido da missão de consolidar tudo aquilo que fora alinhavado na Segunda Década que estava por terminar.

Em 21.II.1720, o Território das Minas do Ouro foi desvinculado da Capitania de São Paulo e Minas do Ouro, tornando-se uma Capitania Autônoma, que foi efetivada a 2.XII.1720 com o título de Capitania de Minas Gerais. Sua instalação ocorreu a 18.VIII.1721, passando à subordinação direta do Governador e Capitão-General da Capitania do Rio de Janeiro, Ayres de Saldanha, lado a lado, à Capitania de São Paulo.

Neste ponto do presente Ensaio, parece caber um esclarecimento sobre a natureza dos assuntos que estivemos discorrendo neste Capítulo - aparentemente tão distante do tema proposto - o que, à primeira vista, poderia sugerir um mero circunlóquio, tão comum em narrativas históricas.

Todavia, entendemos que tudo aquilo que apresentamos merece ser considerado como indispensável para a compreensão e análise das razões que deram origem ou influenciaram efetivamente os Antecedentes da História de Petrópolis, pois não podemos negar que produziram efeitos que, obviamente, afetariam o destino da Micro-Região da Bacia do Piabanha, onde, quase uma centena e meia de anos após, instalar-se-ia o Município de Petrópolis.

Entendemos que essa assertiva poderá ser mais bem avaliada e confirmada através da matéria apresentada nos próximos Capítulos.

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