Instituto Histórico de Petrópolis
 24/09/1938
www.ihp.org.br
31/07/2000
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digitação utilizada para inclusão no site:
07/01/2011

Texto revisto segundo Princípios de Redação, considerado o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, promulgado pelo Decreto n.º 6.583/2008.

Texto básico de apresentação na reunião do IHP, realizada na  Sala Multimídia do Museu Imperial, a
10/01/2011
Imagens substituídas após a apresentação: 12, 13, 16.

Relógio de Sol no Palácio Imperial

Arthur Leonardo de Sá Earp

(Ao saudoso companheiro Manoel Lordeiro, com quem tenho a certeza passaria horas deliciosas e enriquecedoras a discutir a matéria e a preparar este trabalho)

Há três pessoas de grande importância. Para Petrópolis, de um modo geral e em matérias específicas, e para mim pessoalmente. Estou me referindo a Lourenço Luiz Lacombe, Maria Antonieta Abreu e Silva e Dora Maria Pereira Rego Correia.

Lacombe foi professor, sem exagero, de grande parte da população da cidade, de várias gerações. Fui seu aluno, no Colégio São Vicente de Paulo, estimado, não pela aplicação, mas pelas ligações de família e pela sempre alegre admiração que lhe devotava. Fez parte da cúpula intelectual do Município e da Nação. Ocupou com distinção e por largos anos o comando do Museu Imperial.

Antonieta, culta e inteligente, uma querida amiga. Serviu ao Museu com competência em alto cargo.

Dora, dedicada e meticulosa, também me distinguiu com amizade invejável. Por igual prestou inestimáveis serviços à direção do Museu Imperial.

Teci apenas alguns elogios aos tão prezados amigos, dentre os muitíssimos mais que lhes são devidos, para situá-los na problemática situação em que há tempos me envolveram e da qual só agora tenho a impressão de me estar livrando, mal e mal, porque a saída encontrada lançou-me em novos labirintos.

Mas destes tenho a satisfação de dizer que não me ocuparei diretamente, porque me criam eles um novo entusiasmo. É que espero, ansioso, despertar em cabeças mais vivas, jovens e capazes a curiosidade e o ânimo de procurar e encontrar o que resta oculto ou sem explicação.

Faz bastante tempo, já eu companheiro de Lacombe no Instituto Histórico, chamou-me ele à parte e, com a intimidade com que me distinguia, indagou se eu percebia, na foto em papel que apresentava, algum Relógio de Sol. A imagem não era nada boa. Reproduzia a fachada da entrada principal do Museu. E Lacombe perguntou, mais ou menos nestes termos: “aí no balcão ou sacada, você não vê nada?”.


Fachada principal do Palácio Imperial. Talvez tenha sido esta a foto apresentada por Lacombe.
(Acervo do Museu Imperial - AN-CSVP-005)

Entre outros motivos, penso que ele me escolheu para o teste, porquanto sou amante de Astronomia e faço parte do Clube de Astronomia do Rio de Janeiro, tendo aludido no discurso de posse no Instituto ao Relógio de Sol da Casa de Cláudio de Souza, pouco notado e não integrante do catálogo do Clube.

Ora, a verdade é que não consegui identificar na fotografia nada parecido com o objeto procurado. E Lacombe confessou, desamparado, que Antonieta e Dora insistiam na afirmativa.

Havia duas razões para não satisfazer à pergunta. Primeiro, na foto nada tinha o aspecto de quadrante solar, dos que eu conhecia. Segundo, a posição para tal instrumento ali, na sacada, me parecia absolutamente não funcional. Por isto, o querido mestre ficou com a indagação sem resposta.

Para deixar menos abstrata a questão, é preciso fixar muito breve e sucintamente algumas considerações sobre o Relógio de Sol (1).

(1) Quem se interessar por estudos profundos a respeito deste instrumento, que tem como exemplar mais antigo conhecido a régua egípcia, de 900 a.C., pode começar a apaixonante descoberta através da leitura das seguintes publicações e continuar pela bibliografia nelas indicadas:
 - “Os Relógios e sua Evolução”, Ivan M. Silva, Paulo M. Silva, Zulmira de A. Brandão,  Departamento Serviço da Hora, Observatório Nacional, junho de 1989;
 
- “Les Cadrans Solaires”, Histoire, Théorie, Pratique, René R. J. Rohr, Editions Oberlin Strasbourg, 1986;
 - “The History of Clocks and Watches”, Eric Bruton, Crescent Books, New York, 1989.

 


Bem simplesmente: é um jogo sério de luz e sombra, que o homem descobriu e aperfeiçoou para conhecer a duração do tempo, a divisão do dia, a divisão em estações, fator importantíssimo para a atividade agrícola  etc..

A luz vem do Sol e a sombra é provocada por uma haste fina fixa, um ponteiro, sobre uma superfície.

Exibo um tosco desenho para que a visão ajude a compreensão da sucinta explicação.


O Sol nasce no Leste (E, à direita do desenho), sobe pelo Norte até o Meridiano
(metade do percurso que aparenta fazer) e desce para se pôr no Oeste
(W, à esquerda do desenho).
A sombra criada pelo ponteiro se desloca inversamente,
 da esquerda para a direita.

Como a Terra ao girar, faz parecer que o Sol se desloca no céu, a sombra de sua luz também caminha sobre a superfície e pode ser mais longa ou mais curta.

Feitas marcas sobre tal superfície, pode-se estabelecer partes deste percurso, as estações, as horas. Posto que o Sol, no seu movimento aparente, progride, em relação à Terra, de Leste para Oeste, o ponteiro e a superfície que recebe a sombra têm que se posicionar relacionados a esta linha que liga o Nascente ao Poente, passando pelo Zenith.

E mais, já que a Terra na órbita em torno do Sol tem, entre outros movimentos, o de se inclinar, o Sol circula mais próximo da Terra pelo Hemisfério Norte, durante um período, e pelo Hemisfério Sul no período seguinte, em um deslocamento progressivo de um ao outro ao correr do ano.

Por isto, o Relógio, além de se colocar na linha Leste-Oeste, precisa ser calibrado, em posicionamento, obedecendo ao afastamento do Equador e ao estabelecimento do Meridiano do local onde está situado.

O homem, a partir da descoberta dos fenômenos astronômicos, dos princípios matemáticos e da consubstanciação deles no aparelho aqui considerado, inventou e continua a inventar uma quantidade enorme de formas de relógios de Sol. Há os paralelos à superfície terrena, ou seja horizontais, de mesa. Há os verticais, como os de parede. Há os inclinados, de duas faces, uma para oferecer sombra quando o Sol estiver mais para o  Hemisfério Norte, inverno para nós, outra para quando ele estiver mais próximo do Hemisfério Sul, verão para nós. E por aí vai....

Algumas imagens a fim de deixar que a luz do Sol esclareça o que são apenas palavras.

Relógio horizontal. Obra feita em Paris por Monsieur Gilla et Compagnie, calibrado para o paralelo 22º55´. O gnômon, estilo ou ponteiro
está fora de sua posição para melhor identificação.  (Acervo do autor)

Com o ponteiro no lugar o relógio marca 10 horas.

 

Relógio inclinado, de duas faces, réplica do existente no patamar fronteiro da igreja matriz de Tiradentes, MG, obra de "Babá de Tiradentes".
Fora de sua posição em um pilar, para reparos. (Acervo do autor)

 

Uma das faces do Relógio de Sol de "Babá de Tiradentes"

 

A hora do Relógio de Sol depende do fenônemo natural, variável.
A hora dos nossos relógios decorre do esforço técnico de tornar a divisão
do dia a mais exata possível. Isto é, portanto, artificial e não natural. Daí a
diferença pequena entre uma e outra. Para saber a hora artificial correspondente
àquela indicada pelo Relógio de Sol é preciso fazer um cálculo de acordo com
a denominada Equação do Tempo.

A elementar e evidentemente vulgar explicação que ofereço do Relógio de Sol tem por finalidade deixar explícita a minha incompreensão quanto à localização apontada por Lacombe. Podia existir uma razão meramente estética ... Mas esta será posteriormente analisada.

O fato é que o mestre ficou sem o almejado esclarecimento. Em contrapartida criou um problema para minha pobre cabeça, adormecido às vezes pelos eventos da roda da vida, mas sempre presente.

A competência, a seriedade intelectual, a honesta teimosia da assertiva das queridas amigas Dora e Antonieta e a sábia inquietação do experiente pesquisador mereciam todo o respeito e deviam esconder algo que eu não alcançava.

De onde surgira a questão? De que fonte brotara? A aquela simples foto não era suficiente...

A recente palestra da companheira Maria de Fátima Moraes Argon reacendeu, por motivos paralelos, o problema que longamente me martelava os pensamentos.

Na época em que Lacombe formulou a pergunta, imagino estivesse a escrever sobre o Museu Imperial, texto especial ou que também aparece na edição do Banco Safra (2), embora guarde eu a impressão de que nossa conversa tenha sido bem anterior a tal publicação.

Ali aparece o princípio de tudo, por mim desconhecido.

Lacombe praticamente transcreve Auler, observando o seu meticuloso trabalho intitulado A Construção do Palácio de Petrópolis (3).

(2) O Museu Imperial, Banco Safra, São Paulo, 1992.
(3) O Museu Imperial, Banco Safra, São Paulo, 1992, p. 18, e nota 28, p.24.

 


Escreve Auler, sob rubrica “Relógio de sol”:

“Relógio de sol.

Notícia curiosa revela-nos o ofício n.º 329, de 1-IV-59, a respeito da construção de 1 pedestal cilíndrico de tijolo, revestido de cimento, com 5 palmos de altura por 2 de diâmetro, para 1 relógio de sol, que ficou assentado.

No mês seguinte (ofício n.º 338, de 6-V-59), encontramos uma citação sobre a conta de instrumentos comprados pelo Conselheiro Antônio Manuel de Melo, para observações astronômicas, que, de ordem de Dom Pedro II, têm de ser feitas no Palácio.” (IV, pág. 642)

Lacombe, em seu trabalho O Palácio Imperial de Petrópolis – Museu Imperial (4) registra:

“Sobre a amurada do terraço do andar superior foi instalado, em 1859, um relógio de sol (118), que aí existiu por muitos anos, ainda depois da queda da monarquia (119). Para seu assentamento foi erguido um pedestal cilíndrico de tijolo .....” (pág. 18)

A referida nota 118 indica o texto de Auler.

Na 119 escreve ele:

“Há fotos do Colégio São Vicente de Paulo, que ocupou o Palácio desde 1909, onde ainda se observa esse relógio de sol. Quando e por que teria sido retirado? E o que foi feito dele?” (pág.25)

 

(4) in O Museu Imperial, Banco Safra, São Paulo, 1992, p. 7-25

 


Imagino o professor e amigo a redigir isto, em pobre situação, submerso em dúvidas mas obediente a dados que não tinha como contestar ou como explicar de forma diversa.

Este é um ponto importante, a merecer aqui uma breve reflexão.

O historiador, o pesquisador, o cientista, o curioso honesto, classe a que julgo pertencer, no objetivo que tem de demonstrar alguma tese não pode torcer, adaptar, as provas que encontra, para mostrar que tem razão. Ao contrário, deve, com prazer, alterar o rumo inicialmente traçado e comprovar mesmo o oposto que a princípio defendia, fiel antes de tudo aos elementos firmes que levantou.

Confesso que, para sair da enrascada em que Lacombe me envolveu, depois de muito tempo engendrei, sem realizar novas pesquisas, a hipótese de ter a questão se originado de mal-entendidos a partir de referências talvez imprecisas a outro componente do Palácio.

E este componente é belo, sempre me agradou muito, tem função específica no conjunto da edificação, está ligado a princípios astronômicos e, em geral, é muito pouco lembrado e talvez muito pouco conhecida a finalidade que encerra.

Certamente aí está a motivação para esta palestra. Para fundamentar o que diria, envolvi-me em novas buscas, encontrei o que supunha não existir e, em troca da hipótese armada, comprovei o contrário, recheado de perguntas.

A suposição criada tinha pé na fachada dos fundos do Palácio.


Palácio Imperial, fachada dos fundos, que dá para o Bosque do Imperador. (Acervo do autor)

O tímpano ali existente contém ao centro uma coroa ou grinalda, cercando os símbolos gráficos P.II, da qual partem como que fechos de luz até a moldura. Para mim é nítida a representação do Sol, muito propriamente localizada no frontão da parede leste do Palácio.


O tímpano do frontão da parede leste do Palácio Imperial. (Acervo do autor)

Embora pouco usada entre nós, a designação de partes de importantes prédios como castelos, palácios etc, segundo o quadrante dos pontos cardeais onde se situem, é comum em diversas regiões do globo.

Pois bem, deste lado leste do edifício, marcado por símbolo nítido, é que se procederia à determinação correta de um Relógio de Sol. Daí a confusão que fantasiei ter acontecido ...

Mas os aludidos textos e fotos que passei a conhecer destruíram a tese, embora não em seu todo, tal o número de questões que surgiram.

O Relógio de Sol existiu. Está em documento e em fotos.

Mas o que está escrito não corresponde àquilo que as imagens mostram.

A coluna, cilíndro de 5 palmos de altura por 2 palmos de diâmetro (1,10m x 0,44m), onde teria assentado o relógio, aparece nas fotos (que posteriormente conheci) como uma parede sobre a amurada, apoiada em outra às suas costas e para o interior do balcão, e pior, com teto de telhas!

 

 

O Relógio de Sol que de fato existiu no Palácio Imperial,
de todo diferente daquele cuja descrição consta do ofício que o mandou construir. (Acervo do Museu Imperial - Museu
I_5_2_1_2-020)
(Corte do autor, com imagem desfocada, apenas para demonstração de localização e de alguns pormenores)

E enigmático em grau superior. O apêndice está voltado para o Oeste, sem indicação de outra superfície onde se vissem marcações, além do círculo ao centro da parede voltada para o Poente. Tudo isto é contrário a um Relógio de Sol eficiente.

Estendendo, posteriormente, a pesquisa pelo Acervo Fotográfico do Instituto Histórico de Petrópolis, deparei-me com a vista do Palácio Imperial que considero a mais interessante, parte do magistral trabalho de Hees que é a montagem fotográfica abrangendo Petrópolis, em praticamente trezentos e sessenta graus, tendo como centro o Morro do Cruzeiro. E aumentada a tomada, vê-se bem o discutido relógio.

       
Corte e pormenor do Palácio Imperial e do Relógio de Sol no balcão diante da Sala de Estado, efetuados sobre
a vista panorâmica de Petrópolis elaborada por Hees. (Acervo do IHP, site - Hees360).

E se se pensar que o instrumento era meramente decorativo, o absurdo resulta maior, seja pelo gosto duvidoso dele, seja pela quebra de estética e da funcionalidade do balcão.

Terá sido este o único Relógio de Sol do Palácio?

D. Pedro II, conforme demonstrado mais uma vez pela companheira Maria de Fátima Moraes Argon, era homem de estudo e amante da ciência.

Sua ligação com o Observatório Nacional, o Imperial Observatório, criado por D. Pedro I em 1927, foi estreita.

Luiz Muniz Barreto, Diretor entre 1968 e 1979 e entre 1982 e 1985, na obra “Observatório Nacional – 160 Anos de História” deixa isto evidente, além de narrar episódios interessantíssimos da atividade astronômica do Imperador. E de sumariar o fato de haver D. Pedro II doado um terreno na Castelânea "para os trabalhos astronômicos do Imperial Observatório” (5)


Haverá na correspondência oficial e particular dele com os diretores da instituição, algum traço do Relógio de Sol do Paço de Petrópolis?

(5) Observatório Nacional – 160 Anos de História, Luiz Muniz Barreto, MCT CNPq Observatório Nacional, Academia Brasileira de Ciências, Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado do Rio de Janeiro, 1987

 


A dita estrutura elevada no balcão nobre, diversamente das características ordenadas no ofício referido por Auler, ali esteve até o tempo de ocupação do prédio pelo Colégio São Vicente de Paulo, iniciada em 1909.


(Acervo do Museu Imperial - I_5_2_1_9-118_[D])

Mas teria desaparecido por volta de 1933, como mostra foto da fachada incluída em álbum do Colégio de tal ano.


(Acervo do Museu Imperial CSVP_D_Dora [2])

Por que terá resistido por cerca de setenta e quatro anos um Relógio de Sol "que ficou assentado" (ofício n.º 329, de 1-IV-59), inútil, ofensivo ao saber do Monarca e antiestético?

A pergunta de Lacombe sobre o destino do instrumento sugere mais uma indagação, caso não se admita que o relógio fosse constituído apenas por um ponteiro e desenho, número e traços gravados na própria superfície do material da construção.

Desfeita esta, desfeito estaria o relógio, sobrando apenas o ponteiro. Mas se houvesse um independente relógio que tivesse sido assentado, como diz o ofício mencionado, na parede erguida?

Em verdade desapareceu ele, ou, por acaso, terá algo a ver com o existente na Casa de Cláudio de Souza, também pouco conhecido, também mal posicionado e envolto em dúvidas quanto à origem, servindo apenas de objeto de decoração?


Relógio de Sol da Casa de Cláudio de Souza (Acervo do autor)

Aí está a resposta que, constrangido mas convencido, dou tardiamente ao estimado mestre e amigo.

E aí estão pontos de pesquisa que, entusiasmado, proponho aos que tiverem talento e arte para procurar com vontade o que pode parecer sem importância embora contenha insuspeitados valores para a História.
 

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