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21/01/2005

Os textos a seguir, estão sendo publicados desde janeiro de 2004 no ÁGUA DOCE, órgão oficial da ONG Água Doce Serviços Populares que apóia as comunidades no vale do rio Suruí e em todo o fundo da Baía da Guanabara.

MEMÓRIA DO FUNDO DA BAÍA DA GUANABARA (4)

Antônio Eugênio de Azevedo Taulois

SUMÁRIO
Apresentação

1.0 Ocupação da Baía da Guanabara

2.0 Ocupação do fundo da Baía da Guanabara

2.1 A doação de sesmarias

2.2 Fazendas e engenhos

2.3 As primeiras vilas e cidades

2.4 Aspectos humanos da ocupação

2.5 Aspectos sociais da ocupação

2.6 Aspectos econômicos da ocupação

2.7 Descrição das atrações e dos valores do fundo da Baía da Guanabara.

 

2.3 AS PRIMEIRAS VILAS E CIDADES

No artigo 2.2 da ocupação do fundo da Baía da Guanabara, foi explicado o que é uma sesmaria e enumeradas as primeiras sesmarias da região. Vamos tratar agora, das fazendas com seus engenhos de cana de açúcar que surgiram dessas sesmarias e que depois se transformaram em vilas e cidades.

As margens da baía eram de difícil ocupação por causa de tantos brejos e manguezais. Mas havia os rios, verdadeiras “estradas naturais”, para facilitar a ação civilizadora dos sesmeiros. Todos esses rios influíram decisivamente na penetração da terra, pois nas suas margens, foram se alinhando as fazendas com seus engenhos de cana. E o rio era usado para o escoamento de produtos para a corte e por eles eram trazidos os bens segundo as necessidades para o consumo de seus habitantes. Onde havia um ancoradouro natural nas margens dos rios, ali surgia um ponto de desembarque, uma fazenda, um comércio, um depósito e habitações, que depois, deram origem às futuras vilas e cidades, como o Porto da Estrela, Porto das Caixas, Porto Iguaçu e outros (Lamego, p192). O fundo da Baía da Guanabara já estava todo ocupado até o final dos anos 1500 e a ocupação prosseguiu pela planície e serra acima, pois era muito insalubre a vida nos bordos da baía devido às terras alagadas.

Até o final do Império, quando foram construídas as primeiras estradas de ferro, era enorme a importância desses rios no fundo da Baía da Guanabara.

OS PRIMEIROS ENGENHOS

A produção de açúcar foi a primeira atividade naquelas terras e o engenho de cana caracterizava as condições de riqueza, poder, prestígio e nobreza colonial. Seus proprietários eram os fidalgos da terra, latifundiário, proprietário de escravos, tinha privilégios oficiais, mas corria enormes riscos porque a agricultura dependia das chuvas, da morte de escravos por epidemias, endividamento, ausência de lenha etc. (4, p.201). O primeiro engenho no fundo da baía foi o do governador Cristóvão de Barros em Magé. Em 1584, Anchieta menciona “... muitas fazendas terra a dentro com três engenhos ...”. Em torno da baía eram 120 engenhos, no início dos anos 1600 (1, p. 195).

AS CIDADES

A povoação mais antiga de que se tem notícia no fundo da baía é a freguesia de Nossa Senhora da Piedade do Inhomirim, de cuja igreja ainda hoje restam as ruínas e o cemitério em Bongaba. Mas a primeira povoação que se tornou cidade na região foi Santo Antônio de Sá em 1697, que teve seu nome mudado para Santana do Macacu e, em 1948, para Cachoeiras de Macacu. Magé passou a ser cidade em 1789, a Vila da Estrela em 1846, Petrópolis em 1857 e Teresópolis em 1891. A caçula das cidades na região foi Guapimirim que só se emancipou em 1990 (1, p.192 a 196).

No seu surgimento, a cidade colonial era considerada o meio caminho entre o engenho de cana e os centros consumidores importantes. Poucas ruas com casas e choupanas construídas de taipa cobertas com sapê, onde residiam fiscais e administradores públicos, pequenos mercadores e profissionais. Resumindo, elas eram um incipiente apêndice do engenho, que centralizava toda a atividade produtiva. O marasmo das cidades só era quebrado na época da coleta e moagem da cana e nas festas juninas e de Corpus Christi (4, p.118). As autoridades portuguesas não tinham o ímpeto de ordenar e dominar suas conquistas territoriais. Tudo era feito com certo desleixo, sem rigor nem método, evidenciado pela falta de traçado geométrico na urbanização que acompanhava as ondulações e variações do terreno. As casas davam fundos para os rios que serviam para descarga de dejetos, sem a menor preocupação ambiental. Essa condição pode ser comprovada comparando as cidades de Magé e Teresópolis com Petrópolis e Nova Friburgo, que não foram colonizadas por portugueses e têm um planejamento urbano diferente, com os rios sempre no meio das vias públicas, preservando a sua integridade.

A partir da metade dos anos 1600, a situação melhorou com a valorização da colônia. Engenheiros militares portugueses vieram construir fortes e defesas contra holandeses e participaram da edificação de cidades, principalmente no litoral como no fundo da baía. Aqui foram levantados edifícios administrativos e religiosos que dominavam colinas, sendo visíveis à distância. Era em torno dessas igrejas das cidades que os colonos tomavam conhecimento do que acontecia em outras regiões. Desse modo, informações, boatos e mexericos se espalhavam pelas vilas. Com o passar dos anos as cidades foram desenvolvendo suas funções políticas, sociais e econômicas, distanciando-se da casa-grande e da senzala e firmando-se com o cotidiano de seus habitantes e como o local de choques entre o poder dos potentados rurais com a Igreja e os funcionários administrativos.

O DECLÍNIO

Passado o ciclo do açúcar que foi suplantado economicamente pela atividade febril na busca do ouro e diamantes nas Minas Gerais, pelo final dos anos 1600 e por todo o século seguinte, a vitalidade da região declinou sensivelmente. A mineração e depois o ciclo do café usaram o fundo da baía da Guanabara apenas para escoamento de sua produção para a capital. Mas a memória de seu passado relevante e influente ficou marcado nas tradições locais, nos sítios históricos e na arquitetura de suas povoações.

O próximo artigo será sobre os aspectos humanos que envolveram a ocupação do fundo da Baía.

REFERÊNCIAS:

1. LAMEGO, A.R. O Homem e a Guanabara. Rio de Janeiro: IBGE, 1960.

2. WEHLING, A. Formação do Brasil Colonial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.

3. KAMP, Renato. As belezas da Baixada Fluminense. Rio de Janeiro: Summit, 2003.

4. VAINFAS R. Dicionário do Brasil Colonial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000

5. PETRÓPOLIS, 161 ANOS, Edição da Tribuna de Petrópolis, 16.03.04.

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