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21/01/2005

Os textos a seguir, estão sendo publicados desde janeiro de 2004 no ÁGUA DOCE, órgão oficial da ONG Água Doce Serviços Populares que apóia as comunidades no vale do rio Suruí e em todo o fundo da Baía da Guanabara.

MEMÓRIA DO FUNDO DA BAÍA DA GUANABARA (3)

Antônio Eugênio de Azevedo Taulois

SUMÁRIO
Apresentação

1.0 Ocupação da Baía da Guanabara

2.0 Ocupação do fundo da Baía da Guanabara

2.1 A doação de sesmarias

2.2 Fazendas e engenhos

2.3 As primeiras vilas e cidades

2.4 Aspectos humanos da ocupação

2.5 Aspectos sociais da ocupação

2.6 Aspectos econômicos da ocupação

2.7 Descrição das atrações e dos valores do fundo da Baía da Guanabara.

 

2.2 ENGENHOS e FAZENDAS

No artigo anterior sobre a ocupação do fundo da Baía da Guanabara, tratamos da doação das sesmarias em que ficou dividida a região. Vamos conhecer agora como essas sesmarias foram transformadas em fazendas e engenhos.

Os diversos ciclos econômicos do período colonial brasileiro tiveram fundamental influência, ora na política, ora na religião e na cultura do povo, com reflexos profundos na ocupação do fundo Baía da Guanabara. O primeiro deles foi o do pau-brasil, matéria prima para um corante muito apreciado na Europa. Mas sua importância econômica e de povoamento, assim como sua duração e rentabilidade, não foram tão fortes como o ciclo da cana de açúcar que lhe seguiu. A partir de 1560, baseado nas sesmarias doadas e na escravidão africana, os engenhos de cana de açúcar proliferaram em toda a colônia. Os anos 1600 foram o século de ouro do açúcar. Os holandeses, que já dominavam o mercado, invadiram o nordeste brasileiro para controlar o comércio mundial do produto. Com a valorização, a cana de açúcar, os engenhos passaram a fazer parte da paisagem de todo o litoral brasileiro e chegaram ao fundo da Baía da Guanabara no final dos anos 1500.

OS ENGENHOS E AS FAZENDAS

Nada caracteriza melhor as condições de riqueza, poder, prestígio e nobreza da sociedade colonial do que o engenho de açúcar. No nordeste, o senhor de engenho era um fidalgo, obedecido e respeitado, possuindo terras sem fim e centenas de escravos. No sul porém, em Campos dos Goitacases e no fundo da baía, os engenhos eram mais modestos e os senhores de engenho tinham em média 35 escravos mas ainda assim, exerciam grande poder social na sua área de influência (2, p.200).

Não há registros de “fazendas de açúcar” para indicar o processo agrícola e industrial do produto a não ser quando se tratava apenas de uma “fazenda de cana”, sem o engenho . O termo ENGENHO significava tudo, plantação de cana e o beneficiamento do produto. Os maiores engenhos eram movidos a água e os menores usavam tração animal. Os muito pequenos ou os que produziam cachaça eram conhecidos como “engenhocas”. Os engenhos eram também fortificações armadas encarregadas de garantir a posse da terra contra os indígenas e estrangeiros invasores. A lucratividade do investimento na construção de engenhos era menor do que a obtida no comércio do produto, o que resultou, ao longo dos anos, no empobrecimento de muitas das gerações da nobreza do açúcar (2, p.199).

OS PRIMEIROS ENGENHOS NO FUNDO DA BAÍA

O primeiro engenho que começou a operar no fundo da baía em torno de 1580, foi o de Cristóvão Cardoso de Barros em Magé, na sua sesmaria de 4500 braças de frente e fundos para o rio Macacu. Era um maquinário rudimentar, impulsionado por bois ou mulas. Em 1584, o Pe. Anchieta menciona a existência de “...inúmeras fazendas baía a dentro e três engenhos”. Nos anos seguintes foram anotados 120 engenhos em torno da baía, mostrando que o açúcar foi o principal impulsor do desenvolvimento na região (1, p194).

Em meados dos 1700, a agricultura da cana ainda era extensiva no fundo da Baía da Guanabara com uma única exceção, São Nicolau do Suruí, que produzia arroz, a sua famosa farinha, bananas e se iniciava na produção de café. A produção de açúcar na região era de cerca de 200.000 sacas por ano, produzidas ainda em engenhos primitivos (1, p230).

A economia do açúcar ia levantando vilas e cidades no fundo da baía, 200 anos antes que o Caminho Novo revigorasse toda a economia da região. Cada engenho era um núcleo social com força de trabalho composta por senhores de engenho em suas casas-grandes, lavradores, escravos negros e índios, artesãos livres, degradados expulsos do reino, todos com suas famílias. Esse aglomerado ia se desenvolvendo até se tornar uma povoação, depois uma freguesia com a criação da paróquia e seguia até o surgimento das vilas e cidades, muitas vezes ficando a capela original do engenho como a igreja matriz da comunidade.

No próximo artigo, vamos examinar como vivia o Homem naquela época da ocupação, os patrões, os empregados, os escravos negros e índios, os degredados pela justiça, os vadios, todos em torno da casa-grande e da senzala.

REFERÊNCIAS:

1. LAMEGO, A.R. O Homem e a Guanabara. Rio de Janeiro: IBGE, 1960.

2. VAINFAS R. Dicionário do Brasil Colonial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.

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