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21/01/2005

Os textos a seguir, estão sendo publicados desde janeiro de 2004 no ÁGUA DOCE, órgão oficial da ONG Água Doce Serviços Populares que apóia as comunidades no vale do rio Suruí e em todo o fundo da Baía da Guanabara.

Não incluída no site a iconogragia existente no Água Doce com a seguinte legenda:

Em 1767, essa carta da Baía da Guanabara foi levantada pelo Sargento-Mór Vieira Leão. Nela aparece todo o contorno e o fundo da baía, os caminhos mais utilizados e as suas principais vilas.

 O Porto da Estrela, uma importante “Vila de Comércio” localizada quatro quilômetros a montante do rio Inhomirim, era o movimentadíssimo início do Caminho do Ouro e o escoamento no “ciclo do café”, de parte da produção do Vale do Paraíba. Hoje restam apenas suas ruínas.

MEMÓRIA DO FUNDO DA BAÍA DA GUANABARA (1)

Antônio Eugênio de Azevedo Taulois

SUMÁRIO
Apresentação

1.0 Ocupação da Baía da Guanabara

2.0 Ocupação do fundo da Baía da Guanabara

2.1 A doação de sesmarias

2.2 Fazendas e engenhos

2.3 As primeiras vilas e cidades

2.4 Aspectos humanos da ocupação

2.5 Aspectos sociais da ocupação

2.6 Aspectos econômicos da ocupação

2.7 Descrição das atrações e dos valores do fundo da Baía da Guanabara

 

APRESENTAÇÃO
O Fundo da Baía da Guanabara faz parte do cinturão verde que envolve a cidade do Rio de Janeiro e desde os anos 1600 participa de perto da sua história e suas tradições. Quando o Brasil Colônia era apenas uma nesga litorânea de terra do Nordeste até São Paulo, com engenhos de açúcar localizados aqui e ali, foi dessa região que se abriu a primeira porta de acesso oficial ao interior da colônia, o Caminho Novo, levando a administração pública, funcionários e a presença do estado português na comunidade, garantindo a ordem e o controle social necessário para a consolidação da unidade colonial. Pela primeira vez, a administração pública portuguesa se instalava no interior da colônia. Assim, era pelo fundo da Baía da Guanabara que passava toda a riqueza que o ouro “oficial” proporcionava. Lembrando essa época, muitos vestígios históricos arquitetônicos e econômicos, todos eles muito fortes, ficaram na região e ainda hoje permanecem vivos muitas vezes desconhecidos ou até mesmo desprezados por seus moradores. O movimento “Água Doce” pretende com uma série de artigos históricos sobre a memória do Fundo da Baía da Guanabara, que todo esse patrimônio cultural seja reconhecido, admirado e, principalmente, preservado para que possa motivar a auto-estima da atual e das futuras gerações nascidas nas históricas regiões de Magé, Suruí, Mauá, Guia de Pacobaíba, Inhomirim, Guapimirim e arredores.

 Vamos iniciar essa descrição pela ocupação de toda a Baía da Guanabara e depois passaremos para o fundo da baía que é o nosso objetivo principal. Iremos focalizar o desenvolvimento e os principais valores culturais, econômicos e sociais dessa região. A ocupação das margens da Baía da Guanabara começou logo após o descobrimento do Brasil e foi realizada por aventureiros, navegantes e exploradores portugueses e franceses que queriam conhecer, tomar posse e explorar as terras recém descobertas.

 1.0 OCUPAÇÃO DA BAÍA DA GUANABARA

Apesar de ter sido visitada antes por diversos navegadores, considera-se que a Baía da Guanabara tenha sido descoberta em 1504 pelo navegante português Gonçalo Coelho, logo após a instalação de uma feitoria em Cabo Frio, onde se explorava o pau-brasil. Coelho, percebeu logo o valor estratégico da baía. Ancorou suas naus em frente a uma praia e mandou construir uma casa de pedra que foi o núcleo de um arraial a beira de um riacho, que os indígenas logo denominaram “carioca”, ou “casa de branco”. Os corsários franceses estiveram diversas vezes na Baía da Guanabara a procura de pau-brasil. Em 1531, Martim Afonso de Souza ali ficou três meses reparando seus navios pois pretendia entrar pelo Rio da Prata e tentar alcançar uma fantástica montanha de prata que ficava em Potosi, na Bolívia.

 OS FRANCESES NA BAÍA DA GUANABARA

Mas o grande perigo que ameaçou o domínio português na Baía da Guanabara foi a sua ocupação entre 1555 e 1567 pelo francês Nicolas-Durand de Villegaignon com mais de mil católicos e huguenotes protestantes, todos eles muito perseguidos na França e dispostos a criar um domínio francês no Brasil. Só depois de muita luta, Mem de Sá conseguiu expulsar esses franceses. A perda da Baía da Guanabara seria desastrosa para a colônia que nascia, pois representava uma quebra da coesão geográfica do domínio colonial português tornando impraticável a colonização do sul, além de permitir aos franceses uma excelente base de apoio para suas naus repletas de corsários e traficantes de açúcar e pau-brasil. Eles já possuíam uma base semelhante em Cabo Frio e outra em Cananéia. (3, p73)

 A Baía da Guanabara tem uma margem oriental quase plana, hoje Niterói, e outra ocidental, muito montanhosa, onde está o Rio de Janeiro. Villegaignon, preferiu a margem plana que era de mais fácil ocupação. Mem de Sá para combatê-lo, ficou estrategicamente do outro lado, ao pé do Pão de Açúcar e fundou a cidade do Rio de Janeiro em 1565. Mesmo depois da derrota dos franceses, Mem de Sá continuou na margem ocidental entre as montanhas que permitia um abrigo mais eficaz dos corsários. Depois ele transferiu a cidade para o Morro do Castelo, no local onde hoje está a Santa Casa de Misericórdia. A povoação foi se espalhando em torno desse morro sempre com a ajuda dos jesuítas que eram os mentores do povo e dos governantes. Esses padres construíram a Igreja da Misericórdia em 1572, a de Nossa Senhora Ó, hoje Candelária, em 1590 e igreja de Santa Luzia, junto à praia, em 1592. Sesmarias foram doadas em torno da cidade e em torno da baía. A margem oriental antes ocupada pelos franceses, foi quase toda transformada em fazendas, contrastando com a ocidental, onde a cidade se expandia drenando penosamente os brejos e derrubando florestas. Caminhos e trilhas foram abertos e os rios que deságuam na Guanabara foram usados para a conquista do interior, enquanto os pantanais que marginavam a Baía da Guanabara começavam a secar. Vilas surgiram e se expandiram formando os arrabaldes da metrópole de hoje. (1, p.192)

Dessa rápida olhadela ao redor da Baía da Guanabara nota-se a importância dos anos 1600 para o seu destino social, quando se deu a tomada do solo pelo homem, principalmente por causa das fazendas e engenhos de cana de açúcar. Importante era a religiosidade do colonizador que, quando se instalava, logo construía uma capela que se transformava na célula inicial de uma aldeia, depois freguesia, vila e, finalmente uma cidade.

 AS “VILAS DE COMÉRCIO”

O Governo Colonial doou cerca de 600 sesmarias para colonizar as terras em torno da Baía da Guanabara, principalmente no fundo da baía, para proteger e abastecer a cidade do Rio de Janeiro recém-criada. Essas sesmarias eram alcançadas pelos “caminhos d'água” que eram os rios de penetração como o Sarapuí, o Iguaçu, o Inhomirim, o Suruí, o Iriri, o Magé e outros menores. Os critérios de distribuição das sesmarias foram os mais diversos e muitos dos sesmeiros eram cristãos novos fugidos de Portugal. (2, p26 e 30). Durante o ciclo econômico do açúcar (1560-1750) e depois do ciclo do ouro (1690-1800) e do café (1800-1930), as cidades que tinham portos de rio eram conhecidas como “vilas de comércio” e se tornaram florescentes e receberam grandes contingentes de imigrantes portugueses, árabes, turcos e nordestinos. Foi esse o caso de Iguaçu, Pilar, Estrela, Porto das Caixas e Jacutinga. Houve uma grande concorrência comercial entre elas. Com a abertura de caminhos e trilhas mais transitáveis e com a ferrovia do Barão de Mauá, em 1854, quase todas elas foram perdendo o vigor econômico e empobrecendo sem ter condições de concorrer com as fazendas do interior que colocavam seus produtos diretamente no Porto da Estrela e depois de 1854, no cais ferroviário de Guia de Pacobaíba. O Porto da Estrela, próximo à praia de Mauá, chegou a ser o mais movimentado do Brasil no final dos anos 1700. Com a ferrovia, os “caminhos d'água” ficaram descuidados, assoreados, entupindo-se e gerando um aumento de pântanos sem escoamento que se alastraram por imensas superfícies. Com eles vieram a malária e a cólera-morbo de 1855, que assolaram a zona rural provocando o êxodo das ”vilas de comércio” e a extinção de muitas delas. As que sobreviveram ganharam força depois da década de 1930, com o saneamento da Baixada Fluminense. (1, p201)

 Referências:

(1) LAMEGO Filho. O Homem e a Guanabara. RJ: IBGE, 1960.

(2) KAMP R. As Belezas da Baixada Fluminense. RJ: Summit, 2003.

(3) WEHLING A. Formação do Brasil Colonial. RJ: N. Fronteira, 1994.

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